A Aliança
Pedro Azevedo

Não deixa de ser curioso que por muita evolução a múltiplos níveis que tenha havido até chegarmos àquilo que se designa sofisticadamente como "futebol moderno", a disposição táctica das equipas se assemelhe cada vez mais à forma antiga e convencional de se fazer a guerra. Nesse sentido, hoje, o espaço entrelinhas é como uma trincheira, que importa conquistar para servir de posto avançado para o último ataque às linhas de defesa do inimigo, que no futebol é revestido só semanticamente (o que é infeliz) de adversário. No Sporting, esse espaço entrelinhas é coabitado por Pote e Trincão. A união que se estabelece entre estes dois não é tanto feita de afinidades como de desagrados. Não, eles são complementares na sua acção e aquilo que os aproxima é a desconsideração pelas mesmas coisas: o óbvio, a rotina e o tédio. Um pouco como a Aliança entre Portugal e a Inglaterra, cuja génese obedeceu ao princípio de "inimigo do meu inimigo, meu amigo é", mas sem um Tratado de Windsor para a regular. No resto, um é pé direito e o outro é pé esquerdo, um vê melhor ao longe, o outro ao perto, um remata como quem passa, o outro finta para passar. Estilos diferentes, mas ambos desequilibradores. Porém, é na solidariedade e sentido colectivo que ambos demonstram que se equilibra o futebol do Sporting. Sempre em movimento, Pote e Trincão são a velha aliança, que em conjunto com Hjulmand, sustenta a equipa. Sim, porque mesmo uma Aliança não prescinde de um estratega, venha ele de Castelo Branco (Nuno Álvares Pereira) ou da Dinamarca.
