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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

26
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Carta de Brugge


Pedro Azevedo

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Depois do jogo de ontem, em Amesterdão, a contar para a Liga dos Últimos, o futebol português regressou à Champions com a recepção do Sporting ao Club Brugge. De Brugge enviou Pedro, o das Sete Partidas e um dos vultos mais brilhantes da nossa história, uma carta ao irmão, D. Duarte, rei de Portugal. Nela, entre vários conselhos à governação sobre justiça, educação, finanças públicas e administração geral do reino, o infante advertia para a urgência da acção, que "aqueles que tarde vencem, ficam vencidos". Não sei se Rui Borges leu a Carta, mas o treinador do Sporting seguiu o princípio pouco português de que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, nesse transe praticamente carimbando o passaporte para a fase seguinte da "Liga Milionária". Para isso, na ausência dos salões faustosos da corte do tempo de Pedro, Rui escolheu o relvado do José Alvalade para dar um baile ao treinador do Brugge. Um verdadeiro banho táctico que assentou na atracção à marcação homem a homem, seguida da dissuasão que levou os defesas do Brugge para longe da sua área e abriu espaços nas suas costas para a entrada de jogadores nossos vindos de trás. Se isto é alheira(bol), como dizem os afectados snobs seus detractores (sempre hipervalorizando a forma em detrimento do conteúdo), então foi demasiado indigesta para os da Flandres, não faltando ainda o ovo a cavalo (qualificação quase garantida) e os grelos (que são verdes, a cor da esperança) em vez das batatas fritas que seriam mais do agrado dos belgas (com as "moules", que assim quem se "lixou" foi o mexilhão). 


O Sporting cedo se adiantou no marcador após uma perfuração pela direita de Geny ter sido concluída com um remate deflectido pelo guarda-redes belga para as costas de Quenda, que abriu o baile com um rodopio que fez a bola anichar-se nas redes. Pouco depois, o mesmo Geny aproveitou a desertificação do interior provocada pelo êxodo dos belgas para zonas junto às margens e com uma voltinha isolou Suarez para um golo de grande requinte técnico. Antes do intervalo, o Sporting podia ainda ter ampliado o resultado, mas uma jogada de génio de Trincão terminou com um remate que tirou a tinta ao poste. 

Na etapa complementar, o Sporting procurou essencialmente gerir a vantagem no marcador. Isso acabou por provocar alguns momentos de tensão no nosso último reduto, o que não teria acontecido caso Suarez não tivesse entrado em modo carnavalesco e enfeitado demasiadamente um lance, perdendo um golo cantado. Assim, o Brugge chegou a agigantar-se, mas uma investida de Maxi (o verdadeiro "jogador à Sporting", cheio de raça) encontrou Quenda na profundidade e este centrou para Trincão, num "pas de deux" com Maxi, bailar antes de desferir um remate indefensável. Com o 3-0, o jogo terminou ali. 

Com a vitória de hoje, o Sporting entrou para o lote de 8 primeiros classificados que têm apuramento automático para os oitavos-de-final. Mais importante, tem agora uma vantagem de 4 pontos para o vigésimo quinto classificado (o primeiro excluído) e de 6 pontos para o vigésimo sexto, quando faltam apenas 3 jornadas para terminar a primeira fase. Não estamos ainda matematicamente apurados, se não fizermos fé em Pitágourinho, treinador do nosso rival (para quem 9 pontos serão suficientes), mas demos hoje um passo de gigante para garantirmos a qualificação. E sem o mágico Pote, Ioannidis e Debast, além dos lesionados de longa duração (Nuno Santos e Bragança). 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão (Geny seria uma óptima alternativa), pelas movimentações com ou sem bola que desestabilizaram por completo os belgas. 

 

22
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

In vitrum, veritas


Pedro Azevedo

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No meu tempo de criança, os miúdos sonhavam jogar em grandes palcos como o José Alvalade. Como são mais as vezes em que se sonha com os olhos fechados do que aquelas em que eles estão bem abertos, havia momentos em que a bola se transviava e acertava numa montra. A ocorrência permitia treinar questões de segurança como a rápida evacuação do improvisado recinto "desportivo" (nesse tempo denominado de "rua"), bem como praticar o sprint na fuga ao dono da loja. Lembrei-me desses sonhos de criança ao tentar captar o sentimento da maioria dos jogadores do Marinhense na antevisão da visita a Alvalade, muitos deles a pisarem a relva de um estádio grande pela primeira vez. 

 

O Marinhense trouxe o autocarro até Alvalade e o Sporting cedo procurou fazer a bola atravessar o seu pára-brisas. O Trincão conseguiu-o em duas ocasiões, mas, como a reposição do vidro não é um problema na Marinha Grande, os leirienses nem necessitaram de ir à Carglass. Salvador Blopa e Quaresma, respectivamente, foram os assistentes do primeiro e segundo golo: enquanto o Quaresma esteve majestoso a defender, o Salvador evidenciou-se pela qualidade do cruzamento, levantando a dúvida se não será já hoje uma alternativa vantajosa a Vagiannidis e a Fresneda para a posição de lateral direito.

 

Um outro jogador em destaque foi o Rodrigo Ribeiro, um miúdo com pés de veludo e compostura de craque, que se movimentou muito bem na frente do ataque e acabou por ser uma vítima da ausência do VAR (golo aparentemente mal anulado). Em contraposição, o Morita está absolutamente fora dos níveis mínimos exigíveis de rendimento. O que se passa com o nosso "Tsubasa"?

Quanto ao Marinhense, o seu dia teve tudo a ver com o material cerâmico que é ex-libris da cidade onde o clube se insere: o vidro é frágil, sim, mas tem brilho, e brilhante foi a resistência de um clube do quarto escalão do futebol português contra o bicampeão nacional. 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão 

16
Nov25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Era uma vez na América


Pedro Azevedo

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Para garantir já hoje a qualificação para o "Mundial das Américas" e não ter de andar de calculadora na mão (um "Casio" de estudo na história da nossa Selecção), Portugal necessitava de vencer a Arménia. Presente nos genes do empresário petrolífero Gulbenkian, do cantor Aznavour ou do xadrezista Kasparov, a Arménia nunca conseguiu no futebol gerar um vulto semelhante ao dos acima citados (o que mais se terá aproximado, Mkhitaryan, tinha nome de infecção fúngica por contacto, mas mesmo com ele a Arménia nunca conseguiu espalhar o pânico nos seus adversários), pelo que Portugal era amplamente favorito.  

 

Portugal não tinha Ronaldo, com quem ganhou 5-0 a este adversário em Erevan (é bom lembrar). Em compensação, Bruno Fernandes regressava e Gonçalo Ramos ia ter a sua oportunidade. Martinez optou desta vez por extremos assimétricos, com Leão a garantir largura e profundidade (uma melhoria face a Dublin), num flanco, e Bernardo a vir para dentro, no outro, e ainda os pezinhos de bailarino de Cancelo, na esquerda, a criar os desequilíbrios que Dalot não consegue tão bem promover, compensando assim melhor a ausência de Nuno Mendes. Na sequência de um livre apontado por Bruno Fernandes, Renato Veiga inaugurou o marcador, parecendo partir da posição de fora de jogo. De pronto a Arménia empatou, numa "balda" colectiva do lado esquerdo da nossa Selecção. O jogo complicou-se, mas Ramos interpôs-se num atraso arménio ao seu guarda-redes e com maestria voltou a colocar Portugal na frente. Se a margem era escassa, o talento de João Neves é transbordante: primeiro num remate de primeira a coroar uma jogada de futebol sambado a lembrar o Brasil de 82 (Semedo, Vitinha e Bruno, todos a um toque, prepararam o terreno para o remate do craque do PSG, que assim se estreou a marcar pela Selecção), depois na execução soberba de um livre directo, Neves ampliou a liderança de Portugal no jogo para três golos de diferença. Antes do intervalo, após uma pega de cernelha a Ruben Dias no encerramento da Feira da Golegã, Bruno Fernandes, de penalty, apontou o quinto golo. 

A etapa complementar serviu para lançar novos jogadores (Forbs, em estreia, Conceição, Matheus Nunes, Félix e Ruben Neves), mas João Neves e Bruno asseguraram que o ritmo continuaria alto. O médio do United conseguiu o seu hat-trick e logo Neves o imitou, recuperando assim o instinto goleador recentemente demonstrado no campeão francês. Antes do fim, Conceição apontaria ainda o nono golo. 

Após o jogo, Martinez mostrou-se crítico com os críticos. Como dizia o anúncio do Restaurador Olex, um branco de carapinha ou um preto de cabeleira loira não é natural, o que é como quem diz, "chacun a sa place": o treinador treina, os comentadores comentam. A não ser que se queira que os comentadores treinem (assim como assim, a cadela Laika não precisaria de dar a volta ao espaço para qualificar este naipe de ases de trunfo que compõe o baralho de Portugal) e o Seleccionador passe a comentador. Não se perderia grande coisa e o professor Marcelo até podia dar-lhe umas dicas...

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Neves

13
Nov25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Leprechons retiveram o Pote de Ouro


Pedro Azevedo

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Entre as coisas que fazem muito pouco sentido em Portugal está a escolha de Roberto Martinez para Seleccionador da equipa de futebol do nosso país: dá-se o paradoxo de termos alguns dos melhores futebolistas do mundo, que jogam no campeão europeu PSG ou em clubes de topo da Premier League e da Serie A italiana (e ainda Ronaldo, o maior goleador da história do futebol), a serem comandados por um homem que treinou o Wigan (na cidade, o clube de referência nem sequer é de futebol mas sim do Rugby League, a variante oval de 13 que se profissionalizou bem antes do mais conhecido Rugby Union, de 15) e um Everton muito longe dos seus melhores tempos. Não surpreende assim que o futebol de Portugal não tenha uma matriz própria (tem, sim, várias matrizes que se escondem sob a pomposa expressão "Versatilidade Táctica", mas cujo resultado é indecifrável para a maioria dos portugueses que são leigos em cálculo matricial), que a escalação do nosso onze seja habitualmente feita ao arrepio das características identitárias dos nossos adversários, ou que as substituições pareçam originadas nos bolinhos de sorte chineses. Ontem, num jogo contra uma equipa iminentemente física como a irlandesa, Martinez deixou Palhinha de fora em função de Ruben Neves (um dos fetiches de Roberto), menosprezando o impacto da primeira bola por alto e a intensidade, poder físico e raio de acção do médio do Tottenham. Depois, sabendo que não podia contar com Nuno Mendes e que o lateral esquerdo seria um pé direito e assim muito menos profundo, o Seleccionador escolheu para o acompanhar na ala um jogador sem rotina de corredor (João Félix), condenando o flanco esquerdo português à clandestinidade. Para complicar ainda mais a tarefa, Roberto Martinez apontou Bernardo para avançado pela direita, outro jogador com tendência para vir para dentro. Retirando à equipa uns bons 20 ou 30 metros de largura e outros tantos de profundidade, Martinez foi ao encontro das melhores características dos irlandeses, permitindo que se concentrassem no centro do campo e oferecendo-lhes combates de duelos corpo-a-corpo no miolo e rápidas transições nas costas da defesa lusa. E assim, se a reabilitação de Félix, tarefa que não se esperava fazer parte do cardápio de um Seleccionador. prossegue em bom ritmo, a da Irlanda acabou por ser de todo inesperada. Curiosamente (ou talvez não), uma coisa teve a ver com a outra, ou não tivesse nascido de uma total falta de compromisso defensivo de Félix, falhando a marcação ao jogador que de cabeça correspondeu a um canto, o primeiro golo irlandês. Não avisados por um prévio remate ao poste da nossa baliza, a Selecção ainda viria a sofrer um segundo golo irlandês antes do intervalo (má abordagem de Rúben Neves). 

No reatamento, Martinez fez uma substituição estapafúrdia e tirou o único homem (Cancelo) que estava a dar profundidade à nossa equipa. Também retirou aquele jogador que conseguia promover jogo interior sem oposição (Inácio) por troca com um Renato Veiga que, provavelmente contagiado pelo mais usual ambiente vivido no Aviva, impressionou no remate aos postes... de rugby. Como se já não fosse suficiente, de seguida o capitão Ronaldo fez-se canhestramente expulsar e o jogo terminou praticamente aí. Com tudo já perdido, então finalmente entraram o Trincão e o Leão, mais tarde ainda o Ramos, que após o intervalo se podia ter juntado a Ronaldo (o "Espalha-Brasas" Conceição desta vez não saiu do banco). 

No fim do jogo, o encantador de serpentes que também é Seleccionador de Portugal foi mais comedido na verve do que habitualmente. Não se estranhou. É que ontem a noite só deu palco a um papagaio (Parrott). 

Depois da qualificação pela segunda vez desperdiçada, vem aí o último match-point contra a Arménia. E há o espectro de ficarmos fora do Mundial. Para já, ontem, os leprechons retiveram o Pote de Ouro. 

Tenor "Tudo ao molho...": Vitinha

05
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Parábola da Cena Animal


Pedro Azevedo

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Um clube com o oximoro de denominar-se Juventus (juventude) e apelidar-se de "Vecchia Signora" (Velha Senhora) só por si já é de desconfiar, indicando que vem aí matreirice. Deviam por isso talvez chamar-se "Raposas", mas o único outro apodo deles conhecido é "Zebras", um animal da classe dos equídeos que ao contrário do cavalo ou do burro nunca foi domesticado e é conhecido pela velocidade e coice que desenvolveu para fugir do grande predador do seu habitat natural, o leão. Pelo que o desafio entre o Sporting e a Juventus foi uma parábola do ambiente da savana africana, com uma Juve mais veloz e agressiva nos duelos individuais e um Sporting a procurar atacar e ser letal pela certa.

 

Na antecâmara do jogo, não deixei de ficar intrigado ao observar um certo menosprezo da imprensa portuguesa por um adversário que já foi 36 vezes campeão de Itália (recordista da competição, com mais 16 títulos do que o Inter e mais 17 do que o Milão) e duas vezes vencedor da Champions. Pareceu-me uma falta de noção, como aliás o jogo viria a demonstrar. 

Se a Juve já não tem o génio de Platini e mais de meia equipa campeã do mundo em 82 (Zoff, Gentile, Scirea, Cabrini, Tardelli, Rossi), não deixa ainda assim de ter jogadores distintivos como o sérvio Vlahovic, o canadiano Jonathan David, o americano McKennie, o francês Thuram, o neerlandês Koopmeiners ou os internacionais italianos Locatelli, Cambiasso, Gatti ou Rugani. Além do português Conceição, claro. Mas, se valores individuais não faltam, é naquela matreirice táctica tão típica do futebol transalpino que estava o grande obstáculo do Sporting, frequentemente infeliz nas visitas a Itália. 

O jogo nem começou mal para os leões: Pote conseguiu encontrar Ioannidis numa diagonal longa, este amorteceu sumptuosamente de calcanhar para Trincão e a bola seguiu até Maxi que desferiu um remate colocado e inaugurou o marcador. Com o ânimo reforçado, logo Trincão enviou a bola à barra, falhando por pouco o segundo golo. Só que, na primeira parte, o Sporting ficou por aqui. Uma série de perdas de bola colocou os leões em perigo. Com a bola descoberta (sem pressão), um italiano centrou para Vlahovic, de cabeça, proporcionar a Rui Silva a defesa da noite. Seguiu-se novo duelo entre o sérvio e o nosso guarda-redes, agora num remate com o pé. O destino foi o mesmo: bola desviada para canto. Até que a Juve empatou, no aproveitamento de uma série de erros individuais dos jogadores do Sporting: Quenda foi atraído por fora pelo lateral de Turim e deixou Vagiannidis desprotegido, este não leu bem o lance e não fez falta, Hjulmand largou o seu adversário directo e deixou-o galgar metros sozinho e Inácio não encurtou o espaço para Vlahovic e permitiu que este desviasse o centro de Thuram. Com o empate, as equipas foram para intervalo. 

No segundo tempo, as constantes perdas de bola de Quenda e o pouco rendimento de Vagiannidis tornaram-se gritantes e deram um quarto de hora de avanço à Juventus. Valeram-nos Diomande e Maxi, agressivos sobre a bola e sempre bem posicionados. Subitamente, o lateral grego foi descoberto por Inácio sozinho na área da Juventus, mas na hora da definição não ajudou ter um pé chato (ou foi chato não ter um melhor pé). Rui Borges leu bem o que o jogo precisava e lançou Geny e Quaresma, mudando todo o lado direito da sua equipa. Se o moçambicano foi mais associativo e assim melhorou um pouco o nosso desempenho atacante, o português foi um "upgrade" enorme face ao grego, mostrando-se imperial nos duelos e saindo com outra fluidez para o ataque. Assim, o Sporting conseguiu finalmente estabilizar o seu jogo defensivo e com a ajuda das abelhinhas Simões e Hjulmand voltar ao meio campo dos italianos. Suarez entrou para o lugar de Ioannidis e assim reforçar o controlo de bola no meio campo adversário. Faltava ainda uma cartada e Rui Borges jogou-a bem. Em teoria, procurando em Alisson uma profundidade que este na prática ameaçou mas acabou por não dar, fugindo prematuramente da linha lateral e não procurando a linha de fundo, antes indo para zonas interiores congestionadas de tráfego e onde invariavelmente encontrou um sinal vermelho. Morita entrou também para o lugar do exausto Simões, que com um pequeno toque esteve em dúvida até à hora do jogo, mas o japonês, mesmo fresco, está sem explosão e ritmo, pelo que não faz a diferença. Nos últimos minutos, a Juventus surgiu de novo ameaçadora. Era o último assalto, mas Rui Silva não deu hipóteses aos piemonteses. Guardado ainda estava porém um susto: um exausto Maxi provou os danos que a falta de oxigénio pode provocar no cérebro ao intentar fintar três italianos sem ninguém nas costas. Perdeu a bola, houve cruzamento para área, remate, mas a bola deflectiu num jogador do Sporting e acabou por sair por cima. Não havia mais tempo e o jogo praticamente terminou ali. 

Com quatro jogos e sete pontos, o Sporting se vencer o Club Brugge fica com um pé e meio na próxima fase da Champions. Falta-nos uma vitória para cumprir o lema do nosso fundador e não deixa de ser apreciável que o timoneiro desse possível desiderato europeu seja um homem desdenhado por ser originalmente um rural, como diria o presidente Marcelo, se tivesse ao almoço os correspondentes dos jornais estrangeiros a fazerem perguntas sobre o futebol português. Já dizia o Einstein que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito, mas a exportação da "Taberna Mecânica" ou "Tiki-Taska" como triunfo da regionalização lusa na Europa ainda é capaz de vir a fazer corar de inveja o muito mais cosmopolita "Special One". Aguardemos então as cenas dos próximos capítulos. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Rui Silva 

01
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Ioannidis contra a Manobra de Heimlich


Pedro Azevedo

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Esta semana, a Reserva Federal americana (FED) baixou as taxas de juro em 25 pontos base e logo as cotações subiram nas principais bolsas internacionais. Curiosamente, na bolsa de valores de Alvalade,  as condições mais relaxadas inerentes à política monetária (e à visita a Turim) não evitaram que a cotação do Alverca descesse dos cinco golos (mercado de terça-feira) para os dois golos (sexta-feira), uma queda de 60% em apenas 3 dias. 

A explicação para o ocorrido é simples: se por um lado os juros ficaram mais acomodatívos, no fim prevaleceu a primeira lei da economia que estipula que os recursos são escassos e como tal há que geri-los de forma eficiente, no caso recorrendo à poupança. Tal foi o paradigma do primeiro tempo, período em que tanto se valorizou a procrastinação e o relax que o Trincão até exagerou no brushing. 

No segundo tempo a atitude foi outra. Suarez cedo marcou, mas o VAR interveio para aplicar a já costumeira Manobra de Heimlich a árbitros que incautamente engolem o apito. Recuperado o fôlego, António Nobre lá soprou no sentido de anular o golo. Em processo acelerado de adaptação a Portugal, Vagiannidis continuou a "não partir um prato", contrariando assim a cultura do seu país natal. Quem não esteve pelos ajustes foi o seu compatriota Ioannidis, que mal entrou quebrou a resistência do Alverca, usando tão somente a cabeça. Por falar em ter cabeça, pouco tardou até que o inteligente Pote marcasse um golo Dolly, clone de um outro que fizera ao Nacional. Pouco mais houve a registar. 

Terminado o jogo, "vade Metro, Satanás!": com milhares de pessoas em fila, sete dos onze pórticos de acesso às carruagens do Metro encontravam-se fechados, parábola perfeita do que foi a noite em Alvalade, onde só Rui Silva, Diomande, Suarez e Ioannidis cumpriram os serviços mínimos. 

 

Venha a Juventus. A dinastia Tudor acabou, mas consta que o clube de Turim já foi à Norauto pedir a substituição. Não se esperem por isso facilidades. 

Tenor "Tudo ao molho...": Ioannidis. 

29
Out25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Quinta do Blopa


Pedro Azevedo

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Há poucos dias morreu Francisco Pinto Balsemão, um arauto da democracia e da liberdade da imprensa (e de expressão), valores que hoje permitem a um blogue como "A Poesia do Drible" criticar uma Taça da Liga anti-democrática, um paradoxo tuga do pós-25 de Abril que só podia ter nascido na cabeça brilhante (com brilhantina) de Pedro Proença e que consiste no absurdo de ter em excesso na Primeira Liga um conjunto de clubes que depois está em (enorme) défice na Taça da Liga (que é uma associação composta por 34 clubes e 36 equipas profissionais). Haja quem entenda isto...

 

A noite em Alvalade provou mais uma vez que Rui Borges é um treinador subvalorizado por imprensa e adeptos. Tacticamente, a variabilidade do jogo do Sporting é por demais evidente. Hoje, por exemplo, tivemos os laterais por dentro e os interiores por fora, daí resultando duas assistências de Vagiannidis e dois golos de Salvador Blopa, um miúdo de 18 anos em estreia absoluta no onze principal do Sporting. Deu também para silenciar as vozes que aqui e ali iam criticando o Ioannidis, que não só foi de um labor extraordinário como marcou um golo fabuloso. Para continuar a ser de grande utilidade, basta que a equipa mude o "chip" e o sirva em profundidade quando ele render o Suarez. Como hoje aliás fez. E depois foi muito bonito ver o Flávio, um estagiário no escritório dos Gonçalves que eu tenho como um sucedâneo de Pote em tirocínio em Alcochete, o Rodrigo Ribeiro (nova oportunidade na A), o Rayan, o Grombahi e o Muniz em acção, num jogo onde Quenda (2 golos) e Quaresma (imperial na defesa) merecem também destaque. 

Venha a Final Four desta singular competição a 8 em que nada é deixado ao acaso e tudo é feito ao detalhe para que não falhem os 4 finalistas que antecipadamente se quer ver em compita. Fosse assim tão fácil acertar nos números do Euromilhões...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Salvador Blopa (2 golos na estreia oficial pelo Sporting). 


P.S. A Quinta do Blopa: Salvador, Flávio, Rayan, Chris e João. 

27
Out25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O Colosso de Rodes no nosso museu


Pedro Azevedo

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Caro Leitor, um grupo de arqueólogos ontem reunidos em Tondela revelou ter encontrado numa primeira fase vestígios que indicam a existência de uma réplica do Colosso de Rodes na cidade,  evidências essas mais tarde confirmadas numa peritagem observada no estádio João Cardoso. Um Colosso que afinal não foi um tributo ao deus sol (Hélios) mas sim uma homenagem a Bernardo Fontes, um gigante com 33 metros de altura e uns braços tão longos quanto os tentáculos de um polvo. Alertado para o facto, há rumores de que o Sporting prepara-se para o transferir para a capital a troco de 225 milhões ou assim, emitindo para tal um conjunto de obrigações proporcional aos pedaços de bronze (resquícios de um Verão mais largo do que o habitual) que o nosso terramoto de futebol atacante foi capaz de finalmente desmembrar. Esses fragmentos em bronze serão entregues em Alvalade através de um "private placement" do JP Morgan a fim de que o puzzle (de Fornecedores) possa ser montado e o Colosso reconstruído e apresentado como principal atração no futuro museu do clube, justificando-se assim o forte investimento. 

Com João Simões como dínamo de um futebol de grande fluidez atacante, "comendo" espaços outrora só cobertos através do passe, o Sporting cedo encostou o Tondela às cordas. Durante a maior parte do tempo, o jogo pôde resumir-se a um duelo particular entre o colombiano Suarez e o brasileiro Fontes, uma batalha sul-americana que o guarda-redes foi vencendo aos pontos. Não obstante, Suarez logrou desferir um golpe que deixou Fontes à beira do K.O.,  porém a rede abanou mais do que o guarda-redes e este acabou por chegar ao fim dos 15 assaltos (à sua baliza), um número equivalente ao dos antigos combates profissionais de boxe (entretanto reduzido para 12), ou não fosse o Colosso de uma outra era. E se o Colosso bem pode ser considerado uma das 7 maravilhas do mundo, o que dizer da Art-Deco do nosso Pote? O Pote foi tantas vezes à Fonte(s) até que a partiu, uma subtil mudança de desfecho de enredo que se ficou a dever ao génio do jogador português, primeiro tirando dois adversários do caminho através de um misto de simulação e finta, depois finalizando com um remate indefensável até para um Colosso. Vencida a resistência tondelense, tempo ainda houve para que 4 dos 5 jogadores com que Rui Borges refrescou a equipa combinassem para o terceiro golo, num lance pensado por Alisson, Kocho e Matheus e concluído por Quenda, com o treinador do Sporting a mostrar pelo segundo jogo consecutivo o seu toque de Midas nas substituições. 

Tenor "Tudo ao molho...": Suarez

23
Out25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O dia de Rui Borges (La Vie en Rose)


Pedro Azevedo

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O Bertrand Russell dizia que muitos homens cometem o erro de substituir o conhecimento pela afirmação de que é verdade aquilo que eles desejam. Depois de ouvir Rui Borges após a recepção ao Braga, cheguei a temer que isso se estivesse a passar com o nosso treinador. Mas hoje, no pré-jogo, numa mini-entrevista à SportTV, vi Rui Borges reconhecer que deveria ter utilizado o João Simões nesse jogo e percebi que ele retirou ensinamentos do erro. Fiquei aliviado, mais ainda quando vi o miúdo Simões a subir ao relvado como titular. Costuma dizer-se que Deus protege os audazes e o nosso treinador teve hoje um dia de afirmação. Um dia inteiramente merecido, porque uma coisa é a crítica construtiva e outra é o enxovalho. O amor afirma, o ódio nega. Mas por cada afirmação há milhares de negações. Assim o amor é pequeno em face do que se odeia (Vergílio Ferreira). Hoje, Rui Borges conseguiu que isso fosse mentira. E assim chegou à verdade. Com conhecimento. Fazendo substituições decisivas para a vitória, que Geny e Alisson marcaram os golos do triunfo e Ioannidis deu imenso trabalho ao Marselha, a atacar e a defender. Ainda sobre a verdade, a nota de que Simões teve dois raids com bola na primeira parte que fizeram jus ao que muitos comentadores vêm escrevendo por aqui, além de um passe para Suarez que ia dando golo e uma espectacular rotação sobre um defesa que o argentino que guarda as redes do Marselha evitou que só parasse dentro da baliza francesa. E por último, mas não menos importante ("last but not the least"), mais uma verdade, ou melhor, a VARDADE: o árbitro e os seus auxiliares cometeram 3 erros, todos em prejuízo do Sporting (penalty contra nós, golo anulado e expulsão de Maxi) que o VAR inverteu. Com o "plus" de com a anulação do penalty contra ter vindo também o segundo amarelo e concomitante expulsão de um jogador do Marselha, permitindo-nos jogar toda o segundo tempo contra dez (estranhamente, ganhámos, o que deve ter deixado a fazer contas de cabeça o "filósofo" JJ). Foi bom para o Sporting e veio na altura ideal para calar quem parece querer substituir a verdade sujeita a erros ou omissões pela mentira que criou tanta escola que chegou até a ser vista como verdadeira. 


Os jogadores e a equipa não estiveram perfeitos, a noite sim. E esperançosa, também. devido à forma como Rui Borges preparou o jogo e agiu durante o mesmo. Adensou-se porém uma dúvida: no lance do golo do Marselha, Fresneda não só deu muito espaço à recepção de Paixão como depois lhe ofereceu o lado de dentro para rematar, dois erros na mesma jogada que me fizeram questionar se ganhámos alguma coisa ao trocar um terceiro central por um lateral direito convencional. 


Há 50 anos atrás, o Marselha levou-nos o nosso imortal Yazalde. A vingança serviu-se não fria, mas como naqueles congelados da Iglo. Tanto assim foi, que teve de ir ao micro-ondas (do VAR) para se fazer justiça. Três jogos, seis pontos na Champions. Segue-se uma viagem a Turim, capital da região do Piemonte que curiosamente tem uma bandeira muito semelhante à da Dinamarca. Depois da afirmação de Rui Borges, será esse o sinal da reafirmação de Hjulmand (algo alheado esta temporada) no panorama do futebol europeu? Ou será que estou a ver "La Vie en Rose", única consequência positiva que se pode retirar da observação daquele leão (tra)vestido de pantera cor de rosa que mais parece saído de uma comédia do Blake Edwards? (Quem sabe se subliminarmente não nos estão a oferecer a parábola de um Rui Borges como uma espécie de Inspector Clouseau, algo desajeitado e errático no discurso e na acção, mas que no fim leva sempre a sua avante e sai ganhador?)


PS: Estamos a precisar do melhor de Trincão e Pote.

 

Tenor "Tudo ao molho...": Geny Catamo

19
Out25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Conta-me histórias…


Pedro Azevedo

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Houve um tempo em que visitar Paços de Ferreira era um sinal de mau agoiro. Aí, enquanto campeões em título, chegámos a ser goleados por 4-0 (2002/03), por exemplo. O Paços já não é o que era e o Sporting actuai é bem mais consistente do que nesses tempos, mas ontem foi preciso bater três vezes na madeira (uma delas com a ajuda de um "Castor") para sairmos da Capital do Móvel (faz sentido!) com a qualificação para a próxima eliminatória. 


Mais do que contrariar a lógica, o futebol destrói até o mais elementar silogismo aristotélico. Senão vejamos: há cerca de mês e meio atrás, a equipa B do Sporting espetou três golos (as tais 3 pancadinhas que dão sorte...) sem resposta nos pacenses, em jogo a contar para a Segunda Liga. Tomemos essa como a primeira proposição. Ora, se é só senso comum que a nossa equipa principal é teoricamente superior à B (segunda proposição), logo o jogo de ontem deveria ter terminado com uma goleada dos Leões (mais de 3 golos de diferença). Mas não... 

 

Fala-se muito da mudança de sistema como explicação para os piores desempenhos do Sporting. Rui Borges defende-se com as estatísticas, que mostram um Sporting que cria mais e concede menos oportunidades. O problema é que essas oportunidades que concede, geralmente produto de erros individuais, são normalmente fatais. Desde logo porque já não há o central extra que escondia melhor os erros individuais que hoje saltam mais à vista e prejudicam o colectivo. Não se pense porém que o sistema é a origem de todos os males, porque não o é. Os erros de casting de Rui Borges têm sido mais do que muitos, com especial incidência no meio campo, e esse é o maior problema. Não é só a opção de prescindir de um central para fazer entrar um lateral que não faz a diferença (e o Travassos mesmo ali ao lado... Vagiannidis não faz a diferença para Fresneda, o que quer dizer que não faz também a diferença num jogo), o ostracismo a que vem confinando o Simões é um caso de estudo de como o estatuto pode influenciar as escolhas de um treinador. Um distúrbio psicológico conhecido por Martinice, por afectar primeiramente o actual Seleccionador nacional. Sem um meio campo que filtre e com uma defesa ad-hoc, que não respeitou a linha de fora de jogo e raramente esteve alinhada (o que não acontecia com Ruben Amorim), com Vagiannidis nesse particular a abusar do mau posicionamento e Quaresma e Diomande a excederem-se nos erros individuais, o Sporting mostrou muito pouco rigor e expôs-se ao que o Paços ofensivamente conseguisse fazer. Por isso, os Castores, ainda sem vencerem esta época, estiveram por duas vezes em vantagem no marcador, ainda que as suas limitações fossem por demais evidentes. Valeu-nos então o grego Ioannidis, herdeiro de um tipo de jogo que nos valeu três campeonatos, que tanto soube explorar a profundidade como servir apoios a quem vinha de trás. Por isso esteve nos 3 golos, com uma acção preponderante no primeiro (houve um penalty sobre ele antes de a bola sobrar para Pote), um cabeceamento mortal no segundo (um "plus" face a todos os nossos avançados neste último triénio)  e estando na linha da bola na assistência de Fresneda para o terceiro, que um pacense tentou até à última impedir sem  conseguir evitar introduzir a bola na sua própria baliza. 

Foi pobre o jogo do Sporting e paupérrima vem sendo a nossa ideia de participação na Champions, encarada como uma forma de ganhar uns cobres, com a concomitante ideia peregrina de poupar jogadores na maior competição planetária de futebol, nesse transe relegada para um plano inferior a uma "Taça da Carica" (Taça da Liga). Algo inadmissível (e insólito) num clube que tem como lema "Tão grandes como os maiores da Europa" e que bem precisaria de fazer valer a sua marca na grande montra do futebol. Porém, tanto disparate vem produzindo uma virtude: é uma oportunidade para vermos em acção o João Simões, um miúdo, tal como outros miúdos como o Flávio Gonçalves ou o Mauro Couto, com quem efectivamente Rui Borges não conta, o que dá razão àquela expressão de William Bruce Cameron, quando disse: "Nem tudo o que pode ser contado, conta". E sobre Simões, não houve até hoje ninguém capaz de nos contar tantas histórias como o mister Rui Borges. Histórias que acabam com uma moral: o miúdo a assistir na bancada (Braga) ao jogo dos mais velhos - "É o que é!"

Tenor "Tudo ao molho...": Fotis Ioannidis

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