Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Um golo de café(tero) evitou a azia
Pedro Azevedo

Há cerca de 1 mês atrás, Flávio Gonçalves foi integrado na equipa principal. Desde aí, a nossa equipa B perdeu 5 jogos consecutivos. Ok, a missão principal das equipas de formação não é ganhar campeonatos, mas sim desenvolver jogadores para a equipa principal, dir-se-á. Só que o Flávio jogou apenas 1 jogo a titular, contra o Vitória e depois saiu (com o resultado favorável de 1-0, no fim perdemos 1-2) e nunca mais voltou a pisar o terreno de jogo. Era uma oportunidade para um menino criado em Alcochete e uma ocasião para justificar a bondade do projecto de modelo centrado na jogador, mas Varandas meteu o projecto na gaveta e de uma assentada foi ao mercado comprar Luís Guilherme e Faye, num investimento conjunto de 20 milhões de euros. Em resumo, não só perdemos a liderança na Segunda Liga e 5 jogos consecutivos como também conseguimos desmoralizar toda uma geração de jogadores made-in Alcochete que certamente prestou atenção ao que aconteceu com o Flávio e agora sabe que precisa de nascer 10 vezes para ter uma oportunidade decente. E para quê? É Luís Guilherme um craque? Até agora não pareceu. É sequer melhor do que o Flávio? Não acredito, tem até um conhecimento muito inferior do jogo interior, só sabendo jogar por fora. Assim, a única diferença "positiva" entre o Luís Guilherme e o Flávio são os 14 (+3) milhões de investimento nos seus direitos económicos (que no Balanço alimentam a rubrica de "Activos Intangíveis") porque em potencial para mim é inferior e certamente está muito menos preparado para o modelo de jogo implementado por Rui Borges. Quanto a Varandas, também fica a perder, na medida em que desperdiçou a oportunidade de mostrar que a ideia do modelo centrado no jogador é para ser levada a sério e não apenas mera propaganda de ocasião. Porque na altura certa mandou às malvas as convicções (se é que as tinha) e foi dar mais uma voltinha no carrossel do mercado. Nada de novo, portanto, apesar das lendas e narrativas. Culpo menos Rui Borges do que Frederico Varandas. Desde logo porque muito poucos treinadores têm o perfil e a ousadia de apostar na formação (Luís Enrique, Leonardo Jardim, Flick...), pelo que se puderem rodeiam-se do máximo de jogadores possível. O que não faz sentido é uma política desportiva que implica ir-se ao mercado gastar fortunas em jogadores de idade equivalente às que temos em Alcochete. Porque ninguém contesta a aposta de mercado em jogadores que já provaram, mas estranha-se o investimento em quem ainda nada provou. Porque não somos um clube da Premier League que pode especular no mercado com aquilo que um jovem jogador se poderá desenvolver (o que muitas vezes é zero), a não ser que o seu custo de aquisição seja residual (e mesmo assim deveremos sempre considerar o custo de oportunidade de tapar um jovem proveniente da Academia).
Se a contratação de Luís Guilherme, à luz da propaganda do modelo centrado no jogador (da Formação) e dos avultados investimentos efectuados em Alcochete, fez muito pouco sentido, Rui Borges ter obrigado toda a linha avançada a rodar de posição em função da colocação de Luís Guilherme na direita (mais tarde regressou à posição inicial na esquerda) não fez sentido nenhum. Com isso, a equipa perdeu ritmo, rotinas e descaracterizou-se. Isso, associado à forma pouco intensa como entrámos para o segundo tempo, esteve na origem do Arouca ter voltado ao jogo, após Suarez ter-nos adiantado no marcador depois de ter iludido 3 adversários numa cabine telefónica. Não sei se Luís Guilherme é bom ou não, nem esse é o ponto. O que sei é que desconhece o país, a equipa e o campeonato português. E está sem ritmo, quase não jogou em Inglaterra. Além de que é muito jovem. Pelo que seria desaconselhável estar a lançá-lo prematuramente. Só que aqui entra na equação o avultado valor de investimento e a necessidade de justificá-lo. E assim, as oportunidades que são dadas a um jogador nestas circunstâncias estão nos antípodas das concedidas a um jogador da nossa Formação. Apesar das obras em Alcochete, dos Power Points e das várias narrativas plantadas nos jornais e nas TVs do costume. As coisas são o que são, e não o que gostaríamos que fossem ou o que quem nos toma por tolos quer nos fazer crer que são. Realidades e percepções, ou a arte da prestidigitação.
Bom, o jogo caminhava para o fim com um empate no marcador que era um castigo justo para quem tantos erros conceptuais cometeu. Só que apareceu de novo Suarez e resolveu. Foi com a cabeça e o ombro, a fazer lembrar um outro colombiano (Teo Gutierrez) que era perito em marcar com partes do corpo nada ortodoxas. Este Suarez foi um achado, neste caso com mérito total da Estrutura. Com outra maturidade (27 anos), foi uma contratação de menos risco. E é impossível não ficar ainda hoje pasmado com o que trabalha, joga e marca (e falha, mas continua sempre a tentar). Um abono de família!
Ganhámos, mas não ganhámos para o susto, que os nossos já antecipadamente débeis sinais de vida estiveram por um fio no que respeita à saúde neste campeonato. Já a respirarmos por um ventilador, esta vitória tardia foi uma lufada de ar fresco que pode indicar que a sorte mudou de lado, do norte para Lisboa. A ser assim, não deixaria de ser irónico que esses ventos da fortuna tivessem aparecido logo no momento em que fizemos tudo para que a sorte não nos bafejasse. Mas é assim a vida, e às vezes a sorte aparece quando menos a esperamos (ou merecemos).
Tenor "Tudo ao molho...": Suarez









