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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

14
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O melhor do mundo e de Mirandela


Pedro Azevedo

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Se um treinador se medisse só pelo seu modelo de jogo e qualidade das dinâmicas nele empregues, o Rui Borges seria provavelmente o melhor treinador do mundo e arredores e também de Mirandela (o pleonasmo aqui usado foi só para que a Sofia Oliveira não se chateasse, que ela tem o preconceito de que atrás dos montes há um micro-cosmos onde só existem tabernas e uma obsessão com a imagem do Rui Borges à mesa a escrevinhar tácticas em toalhas de papel manhoso enquanto manda abaixo uns penáltis... de verde). Sendo isso o essencial, não é tudo. Há depois que fazer correctas escolhas de jogadores (o elenco para a época e para cada jogo), manter a personalidade da equipa independentemente da adversidade (ou adversário, ou currículo do treinador adversário) e saber comunicar para dentro e fora [no caso do Sporting implica ser muitas vezes treinador-presidente, as mesmas em que o presidente se ausenta para tratar da fisiatria dos portugueses ou para servir o país, na Junta de Freguesia, em Kandahar ou simplesmente jogando à sueca (fomento das relações bilaterais entre 2 países).]


Durante a semana acalentei a esperança de que o Flávio Gonçalves ocupasse o lugar do Pote. Fi--lo não olhando ao bilhete de identidade, mas tão somente à semelhança de características que unem o Flávio ao Pedro e às boas prestações recentes do primeiro na B, Youth League e selecções jovens de Portugal. Mas o Rui Borges não me fez a vontade (raramente a faz quando se trata de jovens) e apresentou Mangas de entrada. Ora, toda a gente sabe que Mangas nem para entrada, nem para prato principal, só mesmo para sobremesa, pelo que logo aí se percebeu que a escolha foi bizarra. Não contente, o Rui lançou mais tarde aquele rapaz que fomos desencantar à "(Mo)town" de Leiria, o desconcertante Alisson, que, pelo razoável desconhecimento do jogo e simultaneamente forma electrizante como se entrega ao mesmo, a gente vê mais a entoar o "What's Going On?" do Marvin Gaye ou a fazer de duplo do James Brown no frenético "Night Train" do que efetivamente a jogar à bola. E assim, num jogo que dava para tudo, desperdiçou-se a oportunidade de também dar mais minutos ao Salvador. O Kochorashvili também jogou. Se o futebol para Javier Marías é a recuperação semanal da infância, a utilização do georgiano serve o propósito de nos recordar semanalmente porque perdemos 5 pontos contra o Porto e o Braga. Não é mau jogador, claro, mas ou evolui muito ou será sempre curto para o Sporting, qual Kocho amputado do "rashvili" (só sobrou o rabo de cavalo). 

 

Quando não lhe esfregam durante uma semana o currículo do Mourinho na cara, o Rui Borges pode concentrar-se naquilo que é muito bom: aprimorar o seu formidável modelo  de jogo e preparar a próximo encontro. Foi o que aconteceu antes da recepção ao AVS, um clube com um nome em forma de assim, que em forma de assim também é um campeonato em que o Casa Pia joga em Rio Maior e onde um nome sem clube lá dentro (B SAD) jogou durante anos no Estádio Nacional, assim mesmo, Nacional, para que o paradoxo da situação fosse inequivocamente bem português. E assim, contra um clube com um nome feito na hora, à hora de jogo já o seu desfecho estava mais do que feito. Na verdade até antes, que os primeiros golos vieram em trio, como nas corridas de touros, com um picanço inicial sob a forma de tércio de varas, seguido por um tércio de bandarilhas, para terminar num tércio de capa e espada. Tudo em acelerado, que, como consequência, o AVS morreu na arena (relvado) em 5 minutos. A coisa poderia ter ficado por aí, mas quando se tem um jogador como Maxi Araújo todos os jogos são para serem levados a sério, não há tempo para brincadeiras. (O uruguaio por vezes parece um bebé com raivinha nos dentes, num desassossego permanente, nesse transe não deixando dormir quem esteja à sua volta.) Suarez, Maxi e Catamo marcaram na primeira parte e voltaram a fazê-lo no segundo tempo, ao jeito de uma peladinha que muda aos três e acaba em meia-dúzia. E mais não foram porque Rúben Semedo, outro produto da nossa Formação, não permitiu, deixando-nos a amarga sensação do seu presente (em Aves) não ser mais aquilo que o passado chegou a augurar para o seu futuro. Por falta de cabeça, como outros com igual ou até superior talento. 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi Araújo 

10
Dez25

Tudo o molho e fé em Gyokeres

Orgulho e Preconceito


Pedro Azevedo

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O Einstein, que não era propriamente desprovido de inteligência, dizia que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito. No Sporting, o preconceito é a Formação. Todos a elogiamos e dela nos orgulhamos quando é preciso puxar o lustro às carreiras que Cristiano Ronaldo, Luís Figo ou Paulo Futre fizeram, embora na verdade todos se tenham evidenciado muito mais fora do que dentro do clube. Mas, depois, só realmente nela apostamos sem rodeios quando não há dinheiro. Caso contrário, o adepto é comido de cebolada com a ideia de que o jovem está a crescer e ainda não está preparado, razão sine-qua-non para mais uma voltinha ao mercado. Há voltas e voltas. Por exemplo, o Phileas Fogg deu a volta ao mundo em 80 dias. No Sporting, dá-se 80 dias no Verão para dar uma voltinha às segundas divisões de Espanha e Portugal. E vem um Kochorashvili e um Alisson, que sentam o Simões e o Flávio. Entretanto, após perdido o jogo com o Porto e empatado outro contra o Braga, ambos em casa, logo se descobre que afinal o Simões por artes de magia e mestria do treinador já está preparado para a competição do mais alto nível, pelo que sai o Kocho e entra o jovem da nossa Formação e se percebe que em dois meses perdemos 60 dias e talvez o campeonato. Desatamos a ganhar os jogos todos internos, mas quando toca a ir à Luz logo o miúdo volta ao banco e concomitantemente voltamos a não vencer. Será coincidência? 

Quando esta manhã propus que o Flávio Gonçalves, um émulo de Pote, de apenas 18 anos, que cresce em Alcochete e já leva 12 golos marcados esta época, entre equipa B, Youth League e selecções jovens de Portugal, fosse titular em Munique, logo, aqui d'El Rei, houve quem mostrasse a preocupação de que o jogador poderia ficar queimado. Enfim, há quem sinta o Sporting como quem vive a Queima das Fitas, sempre em festa com nova contratação, que um jovem pode ser queimado e não tendo a certeza é melhor jogar pelo seguro, isto é, torrar antes o dinheiro no mercado. Nesses pequenos pormenores percebemos a vantagem do Estado Social e sua providência de serviços de saúde que incluem por exemplo a triagem que é feita antes da inscrição na Unidade de Queimados. No Sporting também há esse Estad(I)o Social. Noutros países, muito menos avançados que nós, as coisas acontecem de outra forma. Por exemplo, na Alemanha, mais concretamente na Baviera, há um "pequeno" clube que dá pelo nome de Bayern onde hoje entrou como titular um miúdo de 17 anos que dá pelo nome de Lennart Karl. Se fosse português, haveria a preocupação de não o queimar. Como é alemão, apesar da idade e dos seus 1,68m distribuídos por 67kg que estão longe da ideia do Adónis jogador de futebol que por cá se tornou obsessão, foi lançado para a fogueira (a nossa é de vaidades). No fim, quem se queimou foi o Sporting, porque o miúdo marcou o golo que deu vantagem aos bávaros. É caso para dizer que o Karl está em boa Kompany (treinador do Bayern)! 

Temos um treinador tacticamente muito competente, super versátil nas dinâmicas que emprega à equipa, com óptima formação humana e extremamente conhecedor do jogo, mas depois falhamos na mentalidade nos jogos grandes e na nossa permeabilidade face ao preconceito. Ora, há que destruir o preconceito antes que ele nos destrua a nós. Ou não, porque cada vez que o preconceito nos destrói logo aparece um Nuno Mendes que se impõe a um Acuña, um Inácio que destrona um Mathieu, um Matheus Nunes que senta um Battaglia ou um Quaresma (o Quaresma tem ainda de viver com um problema que ocorreu na Idade Média ou com os adeptos que ainda vivem na Idade Média e não sabem o que é o Renascimento). E renascemos. E volta o preconceito, qual trabalho de Sísifo que também é um castigo dos deuses imposto aos Sportinguistas. 

Tenor "Tudo ao molho...": João Simões (por uma milha de diferença) 

30
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

“Mas que nada”


Pedro Azevedo

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Não sei se elogio demais aqueles jogadores que fazem a diferença. Creio até que nessa abundância exaltativa sou pouco português, que por cá o que não sai de moda é elogiar ao melhor estilo do cinema mudo e insultar de megafone em punho. Vem este arrazoado a propósito de Francisco Trincão, um jogador que faz-me lembrar aquele slogan escrito pelo Fernando Pessoa para a Coca-Cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Por isso, ele foi tudo menos consensual nos seus primeiros tempos em Alvalade. E confesso que chegou até a ser uma das minhas irritações de estimação (as irritações, tal como os canários, os cães ou os gatos, não só são alimentadas diariamente como nos fazem muita companhia, daí serem muito estimadas, demasiadamente até na sociedade actual), como o arquivo deste blogue inequivocamente ilustrará. Mas, depois, tal como aquelas crianças que têm um desenvolvimento tardio gerado na hipófise, ele acelerou o seu processo de crescimento enquanto outros o estabilizaram, tornando-se um dos jogadores mais influentes do plantel. Hoje, voltou a ser decisivo: os nossos dois primeiros golos foram originados nos seus pés. Não esquecendo aquele slalom curto que fez um jogador do Estrela assemelhar-se àquelas bandeiras (portas) que existem no ski e servem para delimitar o percurso, infelizmente concluído com um remate torto. Bom, mas se o Trincão não se pode queixar de falta de atenção deste blogue, hoje a noite foi de Quaresma. Que maravilha! Não foi só ter inaugurado o marcador, o que é sempre importante. Não, o Quaresma deu um festival de bem defender, rápido quanto baste para fazer face aos velozes avançados do Estrela e sempre no sítio certo, no ar ou pelo chão, para evitar sobressaltos maiores. O Quaresma é um excelente jogador, todavia carrega com ele o peso do "mas". Na boca de cada um dos adeptos Sportinguistas, mais do que a pasta medicinal Couto, a constatação da sua evidente qualidade como futebolista vem sempre acompanhada por um "mas". É um "mas" essencialmente preconceituoso, porque advém de erros próprios da juventude e cometidos no tempo em que os animais ainda falavam. Só que, como um dia disse Einstein: "É mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito". Pelo que o Quaresma há-de ser um veterano e alguém ainda recordar-lhe-á uma falha ocorrida no tempo do paleolítico inferior. Talvez tenha a ver com o seu feitio extrovertido e jeito sorridente, coisa que o português pretere a quem tenha cara de enterro (o que causa uma sensação de seriedade e por isso faz parte do personagem criado pelos burlões mais requintados), ou então faz justiça ao Oscar Wilde quando sentenciou: "A cada bela impressão que causamos, criamos um inimigo; para se ser popular é indispensável ser-se medíocre". Para mim, o Quaresma foi indiscutivelmente o melhor em campo. Brilhantismo e zero erros. 

Voltando ao jogo, o nosso segundo golo fez-me lembrar o Brasil de 82. O Trincão parecia o Zico ou o Sócrates, primeiro a procurar o apoio frontal do Suarez, depois a isolá-lo com um toque de magia. Só faltou o lance ser acompanhado na bancada pelos batuques dos Vapores do Rego para um regresso ao passado: aos ecos de Sevilha, no tal Mundial, e ao ambiente da Superior Sul, no Sporting de Allison desse mesmo tempo. Nem de propósito, logo a seguir, o Quenda teve um remate a tirar tinta ao poste que mimetizou a "patada atómica" do Éder, outra grande figura dessa "Canarinha" do Mundial de Espanha. O terceiro, porém, acabaria por chegar ainda antes do intervalo, com Fresneda a cabecear para as redes após livre marcado por Geny. Seguiu-se uma etapa complementar de serviços mínimos, que na sexta-feira há ida à Luz e havia que poupar energia e salvaguardar o registo disciplinar. Deu ainda para Suarez bisar e para Morita figurar na assistência, um regresso aos números que se saúda de quem ultimamente parecia configurar uma qualquer anomalia estatística. Ainda bem, mas na Luz espero ver o João Simões. E assim terminou um jogo do campeonato português com um clube que em si mesmo é um oximoro, ou não houvesse uma equipa Amadora num escalão iminentemente profissional. 

Venha então o Benfica, que há uma derrota amarga na Supertaça para tirar a desforra...

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma

 

P.S. Ah, será que quem desvaloriza a riqueza táctica que Rui Borges traz ao futebol do Sporting reparou naquele pormenor do Fresneda subir uma linha e encostar a um médio e ser o Geny a fechar como lateral? 

26
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Carta de Brugge


Pedro Azevedo

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Depois do jogo de ontem, em Amesterdão, a contar para a Liga dos Últimos, o futebol português regressou à Champions com a recepção do Sporting ao Club Brugge. De Brugge enviou Pedro, o das Sete Partidas e um dos vultos mais brilhantes da nossa história, uma carta ao irmão, D. Duarte, rei de Portugal. Nela, entre vários conselhos à governação sobre justiça, educação, finanças públicas e administração geral do reino, o infante advertia para a urgência da acção, que "aqueles que tarde vencem, ficam vencidos". Não sei se Rui Borges leu a Carta, mas o treinador do Sporting seguiu o princípio pouco português de que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, nesse transe praticamente carimbando o passaporte para a fase seguinte da "Liga Milionária". Para isso, na ausência dos salões faustosos da corte do tempo de Pedro, Rui escolheu o relvado do José Alvalade para dar um baile ao treinador do Brugge. Um verdadeiro banho táctico que assentou na atracção à marcação homem a homem, seguida da dissuasão que levou os defesas do Brugge para longe da sua área e abriu espaços nas suas costas para a entrada de jogadores nossos vindos de trás. Se isto é alheira(bol), como dizem os afectados snobs seus detractores (sempre hipervalorizando a forma em detrimento do conteúdo), então foi demasiado indigesta para os da Flandres, não faltando ainda o ovo a cavalo (qualificação quase garantida) e os grelos (que são verdes, a cor da esperança) em vez das batatas fritas que seriam mais do agrado dos belgas (com as "moules", que assim quem se "lixou" foi o mexilhão). 


O Sporting cedo se adiantou no marcador após uma perfuração pela direita de Geny ter sido concluída com um remate deflectido pelo guarda-redes belga para as costas de Quenda, que abriu o baile com um rodopio que fez a bola anichar-se nas redes. Pouco depois, o mesmo Geny aproveitou a desertificação do interior provocada pelo êxodo dos belgas para zonas junto às margens e com uma voltinha isolou Suarez para um golo de grande requinte técnico. Antes do intervalo, o Sporting podia ainda ter ampliado o resultado, mas uma jogada de génio de Trincão terminou com um remate que tirou a tinta ao poste. 

Na etapa complementar, o Sporting procurou essencialmente gerir a vantagem no marcador. Isso acabou por provocar alguns momentos de tensão no nosso último reduto, o que não teria acontecido caso Suarez não tivesse entrado em modo carnavalesco e enfeitado demasiadamente um lance, perdendo um golo cantado. Assim, o Brugge chegou a agigantar-se, mas uma investida de Maxi (o verdadeiro "jogador à Sporting", cheio de raça) encontrou Quenda na profundidade e este centrou para Trincão, num "pas de deux" com Maxi, bailar antes de desferir um remate indefensável. Com o 3-0, o jogo terminou ali. 

Com a vitória de hoje, o Sporting entrou para o lote de 8 primeiros classificados que têm apuramento automático para os oitavos-de-final. Mais importante, tem agora uma vantagem de 4 pontos para o vigésimo quinto classificado (o primeiro excluído) e de 6 pontos para o vigésimo sexto, quando faltam apenas 3 jornadas para terminar a primeira fase. Não estamos ainda matematicamente apurados, se não fizermos fé em Pitágourinho, treinador do nosso rival (para quem 9 pontos serão suficientes), mas demos hoje um passo de gigante para garantirmos a qualificação. E sem o mágico Pote, Ioannidis e Debast, além dos lesionados de longa duração (Nuno Santos e Bragança). 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão (Geny seria uma óptima alternativa), pelas movimentações com ou sem bola que desestabilizaram por completo os belgas. 

 

22
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

In vitrum, veritas


Pedro Azevedo

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No meu tempo de criança, os miúdos sonhavam jogar em grandes palcos como o José Alvalade. Como são mais as vezes em que se sonha com os olhos fechados do que aquelas em que eles estão bem abertos, havia momentos em que a bola se transviava e acertava numa montra. A ocorrência permitia treinar questões de segurança como a rápida evacuação do improvisado recinto "desportivo" (nesse tempo denominado de "rua"), bem como praticar o sprint na fuga ao dono da loja. Lembrei-me desses sonhos de criança ao tentar captar o sentimento da maioria dos jogadores do Marinhense na antevisão da visita a Alvalade, muitos deles a pisarem a relva de um estádio grande pela primeira vez. 

 

O Marinhense trouxe o autocarro até Alvalade e o Sporting cedo procurou fazer a bola atravessar o seu pára-brisas. O Trincão conseguiu-o em duas ocasiões, mas, como a reposição do vidro não é um problema na Marinha Grande, os leirienses nem necessitaram de ir à Carglass. Salvador Blopa e Quaresma, respectivamente, foram os assistentes do primeiro e segundo golo: enquanto o Quaresma esteve majestoso a defender, o Salvador evidenciou-se pela qualidade do cruzamento, levantando a dúvida se não será já hoje uma alternativa vantajosa a Vagiannidis e a Fresneda para a posição de lateral direito.

 

Um outro jogador em destaque foi o Rodrigo Ribeiro, um miúdo com pés de veludo e compostura de craque, que se movimentou muito bem na frente do ataque e acabou por ser uma vítima da ausência do VAR (golo aparentemente mal anulado). Em contraposição, o Morita está absolutamente fora dos níveis mínimos exigíveis de rendimento. O que se passa com o nosso "Tsubasa"?

Quanto ao Marinhense, o seu dia teve tudo a ver com o material cerâmico que é ex-libris da cidade onde o clube se insere: o vidro é frágil, sim, mas tem brilho, e brilhante foi a resistência de um clube do quarto escalão do futebol português contra o bicampeão nacional. 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão 

16
Nov25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Era uma vez na América


Pedro Azevedo

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Para garantir já hoje a qualificação para o "Mundial das Américas" e não ter de andar de calculadora na mão (um "Casio" de estudo na história da nossa Selecção), Portugal necessitava de vencer a Arménia. Presente nos genes do empresário petrolífero Gulbenkian, do cantor Aznavour ou do xadrezista Kasparov, a Arménia nunca conseguiu no futebol gerar um vulto semelhante ao dos acima citados (o que mais se terá aproximado, Mkhitaryan, tinha nome de infecção fúngica por contacto, mas mesmo com ele a Arménia nunca conseguiu espalhar o pânico nos seus adversários), pelo que Portugal era amplamente favorito.  

 

Portugal não tinha Ronaldo, com quem ganhou 5-0 a este adversário em Erevan (é bom lembrar). Em compensação, Bruno Fernandes regressava e Gonçalo Ramos ia ter a sua oportunidade. Martinez optou desta vez por extremos assimétricos, com Leão a garantir largura e profundidade (uma melhoria face a Dublin), num flanco, e Bernardo a vir para dentro, no outro, e ainda os pezinhos de bailarino de Cancelo, na esquerda, a criar os desequilíbrios que Dalot não consegue tão bem promover, compensando assim melhor a ausência de Nuno Mendes. Na sequência de um livre apontado por Bruno Fernandes, Renato Veiga inaugurou o marcador, parecendo partir da posição de fora de jogo. De pronto a Arménia empatou, numa "balda" colectiva do lado esquerdo da nossa Selecção. O jogo complicou-se, mas Ramos interpôs-se num atraso arménio ao seu guarda-redes e com maestria voltou a colocar Portugal na frente. Se a margem era escassa, o talento de João Neves é transbordante: primeiro num remate de primeira a coroar uma jogada de futebol sambado a lembrar o Brasil de 82 (Semedo, Vitinha e Bruno, todos a um toque, prepararam o terreno para o remate do craque do PSG, que assim se estreou a marcar pela Selecção), depois na execução soberba de um livre directo, Neves ampliou a liderança de Portugal no jogo para três golos de diferença. Antes do intervalo, após uma pega de cernelha a Ruben Dias no encerramento da Feira da Golegã, Bruno Fernandes, de penalty, apontou o quinto golo. 

A etapa complementar serviu para lançar novos jogadores (Forbs, em estreia, Conceição, Matheus Nunes, Félix e Ruben Neves), mas João Neves e Bruno asseguraram que o ritmo continuaria alto. O médio do United conseguiu o seu hat-trick e logo Neves o imitou, recuperando assim o instinto goleador recentemente demonstrado no campeão francês. Antes do fim, Conceição apontaria ainda o nono golo. 

Após o jogo, Martinez mostrou-se crítico com os críticos. Como dizia o anúncio do Restaurador Olex, um branco de carapinha ou um preto de cabeleira loira não é natural, o que é como quem diz, "chacun a sa place": o treinador treina, os comentadores comentam. A não ser que se queira que os comentadores treinem (assim como assim, a cadela Laika não precisaria de dar a volta ao espaço para qualificar este naipe de ases de trunfo que compõe o baralho de Portugal) e o Seleccionador passe a comentador. Não se perderia grande coisa e o professor Marcelo até podia dar-lhe umas dicas...

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Neves

05
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Parábola da Cena Animal


Pedro Azevedo

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Um clube com o oximoro de denominar-se Juventus (juventude) e apelidar-se de "Vecchia Signora" (Velha Senhora) só por si já é de desconfiar, indicando que vem aí matreirice. Deviam por isso talvez chamar-se "Raposas", mas o único outro apodo deles conhecido é "Zebras", um animal da classe dos equídeos que ao contrário do cavalo ou do burro nunca foi domesticado e é conhecido pela velocidade e coice que desenvolveu para fugir do grande predador do seu habitat natural, o leão. Pelo que o desafio entre o Sporting e a Juventus foi uma parábola do ambiente da savana africana, com uma Juve mais veloz e agressiva nos duelos individuais e um Sporting a procurar atacar e ser letal pela certa.

 

Na antecâmara do jogo, não deixei de ficar intrigado ao observar um certo menosprezo da imprensa portuguesa por um adversário que já foi 36 vezes campeão de Itália (recordista da competição, com mais 16 títulos do que o Inter e mais 17 do que o Milão) e duas vezes vencedor da Champions. Pareceu-me uma falta de noção, como aliás o jogo viria a demonstrar. 

Se a Juve já não tem o génio de Platini e mais de meia equipa campeã do mundo em 82 (Zoff, Gentile, Scirea, Cabrini, Tardelli, Rossi), não deixa ainda assim de ter jogadores distintivos como o sérvio Vlahovic, o canadiano Jonathan David, o americano McKennie, o francês Thuram, o neerlandês Koopmeiners ou os internacionais italianos Locatelli, Cambiasso, Gatti ou Rugani. Além do português Conceição, claro. Mas, se valores individuais não faltam, é naquela matreirice táctica tão típica do futebol transalpino que estava o grande obstáculo do Sporting, frequentemente infeliz nas visitas a Itália. 

O jogo nem começou mal para os leões: Pote conseguiu encontrar Ioannidis numa diagonal longa, este amorteceu sumptuosamente de calcanhar para Trincão e a bola seguiu até Maxi que desferiu um remate colocado e inaugurou o marcador. Com o ânimo reforçado, logo Trincão enviou a bola à barra, falhando por pouco o segundo golo. Só que, na primeira parte, o Sporting ficou por aqui. Uma série de perdas de bola colocou os leões em perigo. Com a bola descoberta (sem pressão), um italiano centrou para Vlahovic, de cabeça, proporcionar a Rui Silva a defesa da noite. Seguiu-se novo duelo entre o sérvio e o nosso guarda-redes, agora num remate com o pé. O destino foi o mesmo: bola desviada para canto. Até que a Juve empatou, no aproveitamento de uma série de erros individuais dos jogadores do Sporting: Quenda foi atraído por fora pelo lateral de Turim e deixou Vagiannidis desprotegido, este não leu bem o lance e não fez falta, Hjulmand largou o seu adversário directo e deixou-o galgar metros sozinho e Inácio não encurtou o espaço para Vlahovic e permitiu que este desviasse o centro de Thuram. Com o empate, as equipas foram para intervalo. 

No segundo tempo, as constantes perdas de bola de Quenda e o pouco rendimento de Vagiannidis tornaram-se gritantes e deram um quarto de hora de avanço à Juventus. Valeram-nos Diomande e Maxi, agressivos sobre a bola e sempre bem posicionados. Subitamente, o lateral grego foi descoberto por Inácio sozinho na área da Juventus, mas na hora da definição não ajudou ter um pé chato (ou foi chato não ter um melhor pé). Rui Borges leu bem o que o jogo precisava e lançou Geny e Quaresma, mudando todo o lado direito da sua equipa. Se o moçambicano foi mais associativo e assim melhorou um pouco o nosso desempenho atacante, o português foi um "upgrade" enorme face ao grego, mostrando-se imperial nos duelos e saindo com outra fluidez para o ataque. Assim, o Sporting conseguiu finalmente estabilizar o seu jogo defensivo e com a ajuda das abelhinhas Simões e Hjulmand voltar ao meio campo dos italianos. Suarez entrou para o lugar de Ioannidis e assim reforçar o controlo de bola no meio campo adversário. Faltava ainda uma cartada e Rui Borges jogou-a bem. Em teoria, procurando em Alisson uma profundidade que este na prática ameaçou mas acabou por não dar, fugindo prematuramente da linha lateral e não procurando a linha de fundo, antes indo para zonas interiores congestionadas de tráfego e onde invariavelmente encontrou um sinal vermelho. Morita entrou também para o lugar do exausto Simões, que com um pequeno toque esteve em dúvida até à hora do jogo, mas o japonês, mesmo fresco, está sem explosão e ritmo, pelo que não faz a diferença. Nos últimos minutos, a Juventus surgiu de novo ameaçadora. Era o último assalto, mas Rui Silva não deu hipóteses aos piemonteses. Guardado ainda estava porém um susto: um exausto Maxi provou os danos que a falta de oxigénio pode provocar no cérebro ao intentar fintar três italianos sem ninguém nas costas. Perdeu a bola, houve cruzamento para área, remate, mas a bola deflectiu num jogador do Sporting e acabou por sair por cima. Não havia mais tempo e o jogo praticamente terminou ali. 

Com quatro jogos e sete pontos, o Sporting se vencer o Club Brugge fica com um pé e meio na próxima fase da Champions. Falta-nos uma vitória para cumprir o lema do nosso fundador e não deixa de ser apreciável que o timoneiro desse possível desiderato europeu seja um homem desdenhado por ser originalmente um rural, como diria o presidente Marcelo, se tivesse ao almoço os correspondentes dos jornais estrangeiros a fazerem perguntas sobre o futebol português. Já dizia o Einstein que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito, mas a exportação da "Taberna Mecânica" ou "Tiki-Taska" como triunfo da regionalização lusa na Europa ainda é capaz de vir a fazer corar de inveja o muito mais cosmopolita "Special One". Aguardemos então as cenas dos próximos capítulos. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Rui Silva 

01
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Ioannidis contra a Manobra de Heimlich


Pedro Azevedo

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Esta semana, a Reserva Federal americana (FED) baixou as taxas de juro em 25 pontos base e logo as cotações subiram nas principais bolsas internacionais. Curiosamente, na bolsa de valores de Alvalade,  as condições mais relaxadas inerentes à política monetária (e à visita a Turim) não evitaram que a cotação do Alverca descesse dos cinco golos (mercado de terça-feira) para os dois golos (sexta-feira), uma queda de 60% em apenas 3 dias. 

A explicação para o ocorrido é simples: se por um lado os juros ficaram mais acomodatívos, no fim prevaleceu a primeira lei da economia que estipula que os recursos são escassos e como tal há que geri-los de forma eficiente, no caso recorrendo à poupança. Tal foi o paradigma do primeiro tempo, período em que tanto se valorizou a procrastinação e o relax que o Trincão até exagerou no brushing. 

No segundo tempo a atitude foi outra. Suarez cedo marcou, mas o VAR interveio para aplicar a já costumeira Manobra de Heimlich a árbitros que incautamente engolem o apito. Recuperado o fôlego, António Nobre lá soprou no sentido de anular o golo. Em processo acelerado de adaptação a Portugal, Vagiannidis continuou a "não partir um prato", contrariando assim a cultura do seu país natal. Quem não esteve pelos ajustes foi o seu compatriota Ioannidis, que mal entrou quebrou a resistência do Alverca, usando tão somente a cabeça. Por falar em ter cabeça, pouco tardou até que o inteligente Pote marcasse um golo Dolly, clone de um outro que fizera ao Nacional. Pouco mais houve a registar. 

Terminado o jogo, "vade Metro, Satanás!": com milhares de pessoas em fila, sete dos onze pórticos de acesso às carruagens do Metro encontravam-se fechados, parábola perfeita do que foi a noite em Alvalade, onde só Rui Silva, Diomande, Suarez e Ioannidis cumpriram os serviços mínimos. 

 

Venha a Juventus. A dinastia Tudor acabou, mas consta que o clube de Turim já foi à Norauto pedir a substituição. Não se esperem por isso facilidades. 

Tenor "Tudo ao molho...": Ioannidis. 

29
Out25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Quinta do Blopa


Pedro Azevedo

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Há poucos dias morreu Francisco Pinto Balsemão, um arauto da democracia e da liberdade da imprensa (e de expressão), valores que hoje permitem a um blogue como "A Poesia do Drible" criticar uma Taça da Liga anti-democrática, um paradoxo tuga do pós-25 de Abril que só podia ter nascido na cabeça brilhante (com brilhantina) de Pedro Proença e que consiste no absurdo de ter em excesso na Primeira Liga um conjunto de clubes que depois está em (enorme) défice na Taça da Liga (que é uma associação composta por 34 clubes e 36 equipas profissionais). Haja quem entenda isto...

 

A noite em Alvalade provou mais uma vez que Rui Borges é um treinador subvalorizado por imprensa e adeptos. Tacticamente, a variabilidade do jogo do Sporting é por demais evidente. Hoje, por exemplo, tivemos os laterais por dentro e os interiores por fora, daí resultando duas assistências de Vagiannidis e dois golos de Salvador Blopa, um miúdo de 18 anos em estreia absoluta no onze principal do Sporting. Deu também para silenciar as vozes que aqui e ali iam criticando o Ioannidis, que não só foi de um labor extraordinário como marcou um golo fabuloso. Para continuar a ser de grande utilidade, basta que a equipa mude o "chip" e o sirva em profundidade quando ele render o Suarez. Como hoje aliás fez. E depois foi muito bonito ver o Flávio, um estagiário no escritório dos Gonçalves que eu tenho como um sucedâneo de Pote em tirocínio em Alcochete, o Rodrigo Ribeiro (nova oportunidade na A), o Rayan, o Grombahi e o Muniz em acção, num jogo onde Quenda (2 golos) e Quaresma (imperial na defesa) merecem também destaque. 

Venha a Final Four desta singular competição a 8 em que nada é deixado ao acaso e tudo é feito ao detalhe para que não falhem os 4 finalistas que antecipadamente se quer ver em compita. Fosse assim tão fácil acertar nos números do Euromilhões...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Salvador Blopa (2 golos na estreia oficial pelo Sporting). 


P.S. A Quinta do Blopa: Salvador, Flávio, Rayan, Chris e João. 

27
Out25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O Colosso de Rodes no nosso museu


Pedro Azevedo

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Caro Leitor, um grupo de arqueólogos ontem reunidos em Tondela revelou ter encontrado numa primeira fase vestígios que indicam a existência de uma réplica do Colosso de Rodes na cidade,  evidências essas mais tarde confirmadas numa peritagem observada no estádio João Cardoso. Um Colosso que afinal não foi um tributo ao deus sol (Hélios) mas sim uma homenagem a Bernardo Fontes, um gigante com 33 metros de altura e uns braços tão longos quanto os tentáculos de um polvo. Alertado para o facto, há rumores de que o Sporting prepara-se para o transferir para a capital a troco de 225 milhões ou assim, emitindo para tal um conjunto de obrigações proporcional aos pedaços de bronze (resquícios de um Verão mais largo do que o habitual) que o nosso terramoto de futebol atacante foi capaz de finalmente desmembrar. Esses fragmentos em bronze serão entregues em Alvalade através de um "private placement" do JP Morgan a fim de que o puzzle (de Fornecedores) possa ser montado e o Colosso reconstruído e apresentado como principal atração no futuro museu do clube, justificando-se assim o forte investimento. 

Com João Simões como dínamo de um futebol de grande fluidez atacante, "comendo" espaços outrora só cobertos através do passe, o Sporting cedo encostou o Tondela às cordas. Durante a maior parte do tempo, o jogo pôde resumir-se a um duelo particular entre o colombiano Suarez e o brasileiro Fontes, uma batalha sul-americana que o guarda-redes foi vencendo aos pontos. Não obstante, Suarez logrou desferir um golpe que deixou Fontes à beira do K.O.,  porém a rede abanou mais do que o guarda-redes e este acabou por chegar ao fim dos 15 assaltos (à sua baliza), um número equivalente ao dos antigos combates profissionais de boxe (entretanto reduzido para 12), ou não fosse o Colosso de uma outra era. E se o Colosso bem pode ser considerado uma das 7 maravilhas do mundo, o que dizer da Art-Deco do nosso Pote? O Pote foi tantas vezes à Fonte(s) até que a partiu, uma subtil mudança de desfecho de enredo que se ficou a dever ao génio do jogador português, primeiro tirando dois adversários do caminho através de um misto de simulação e finta, depois finalizando com um remate indefensável até para um Colosso. Vencida a resistência tondelense, tempo ainda houve para que 4 dos 5 jogadores com que Rui Borges refrescou a equipa combinassem para o terceiro golo, num lance pensado por Alisson, Kocho e Matheus e concluído por Quenda, com o treinador do Sporting a mostrar pelo segundo jogo consecutivo o seu toque de Midas nas substituições. 

Tenor "Tudo ao molho...": Suarez

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