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Em Portugal, um jogo de futebol é tudo aquilo que acontece depois do jogo propriamente dito terminar e enquanto não começa um outro. Nesse sentido (não proibido, mas sim absolutamente obrigatório para os amantes do futebol em Portugal), os doutores da bola reuniram-se em fora (a Edite Estrela não foi convidada, o que justifica que muitos editores não saibam que o plural do sufixo do latim "um" é "a" e não "uns") televisivos a fim de discutirem se a inovação técnico-táctica "maricón" adicionaria leveza ou peso ao desenho táctico "mono" que alguns juram ter existido em campo. A suportar a discussão, ao fundo ouvia-se aquela musiquinha do Ney Matogrosso, que reza assim:
"O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber (...)
É debaixo dos pano
Que a gente não tem medo
Pode guardar segredo
De tudo que se tem
É debaixo dos pano
Que a gente fala do fulano
E diz o que convém
É debaixo dos pano
Que eu me afogo
Que eu me dano
Sem ver meu bem
É debaixo dos pano
Que eu me afogo
Que eu me dano
Sem ver meu bem (...)
É debaixo dos pano
Que a gente esconde tudo
E não se fica mudo
E tudo quer fazer
É debaixo dos pano
Que a gente comete um engano
Sem ninguém saber."
Não sei se os doutores terão lido Kundera e o seu "A Insustentável Leveza do Ser", mas a Direcção do Benfica certamente não o leu porque se o tivesse lido saberia que o excesso de leveza no presente conduz a um enorme peso no futuro (em sentido contrário, o Luisão leu-o, o que credibiliza as teorias de Darwin sobre a girafa e o seu papel na evolução das espécies). Bom, a discussão ia rica e intensa como sempre que o assunto (não) é futebol ou em que o futebol é usado apenas para nos mostrar a fragilidade da natureza humana. Eis então que chega uma nova jornada do campeonato nacional e para grande enfado dos tais doutores o assunto do momento tem de ficar a marinar em alhos, vinho e limão num saco hermético colocado no frigorífico de cada estação de TV. É chegada a hora da recepção do Sporting ao Estoril, uma daquelas estopadas burocráticas que quem gosta de futebol em Portugal tem de aturar até poder voltar a pronunciar-se sobre temas que verdadeiramente interessam.
O Estoril é uma equipa dissimulada, camaleónica: apresenta-se com o apelido Praia, o que faz pressupor um time de veraneantes, mas os seus melhores resultados foram obtidos neste Inverno. E para o reforçar ainda usa como apodo o termo "Canarinhos", para que os tomemos em Copacabana ou no Leblon, ou imaginemos uma escola de samba, embora do seu onze base não conste nenhum brasileiro. Tem também um Guitane cujos impostos são retidos na fonte, só para contrariar a narrativa do Ventura, o que demonstra uma forte propensão de combate ao arrivismo, bem corroborada na atitude sensata do seu treinador, um homem sereno e cheio de boas ideias, que tem subido a pulso na carreira e sem se pôr em bicos de pés, pisar ou necessitar de favores de alguém.
Se a sina do Sporting vinha sendo ganhar com golos decisivos no fim, o enredo da noite passada foi o inverso do que vinha sendo costume. Foi assim um Sporting à Benjamim Button aquele que se apresentou em Alvalade, maduro o suficiente para marcar a dobrar logo de início e assim sentenciar o jogo. Para tal muito contribuiu Suárez: se Estoril lembra costa, o colombiano soube espraiar-se nas costas estorilistas, estendendo-se por uma vasta área insuficientemente vigiada, que é sabido que o Instituto de Socorros a Náufragos só presta apoio em época balnear. Se cedo marcou, logo o Sporting procrastinou. Foram vários os avanços estorilistas até à nossa área, mas o nosso quarteto defensivo irredutível tudo conseguiu controlar. Até que o jogo acabou como começou, com novo golo do Sporting, com Bragança investido como a fénix (não confundir com Félix) que renasce das cinzas, superando as adversidades e mostrando-se mais forte e renovado - uma celebração da resiliência.
Entretanto, o Porto ganhou, na sequência de uma oportuna biqueirada de Fofana no tornozelo de um jogador arouquense, e não haveria melhor parábola para descrever um dos calcanhares de Aquiles do futebol português. Por isso, acima de tudo, convém que não levemos esse futebol a sério, propósito aliás plenamente satisfeito pela existência dos tais programas de TV. Perdoem-nos então esta avaria, este breve interlúdio, o futebol português segue dentro de momentos.
Tenor "Tudo ao molho...": Suárez