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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

28
Fev26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O Futebol regressa dentro de momentos


Pedro Azevedo

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Em Portugal, um jogo de futebol é tudo aquilo que acontece depois do jogo propriamente dito terminar e enquanto não começa um outro. Nesse sentido (não proibido, mas sim absolutamente obrigatório para os amantes do futebol em Portugal), os doutores da bola reuniram-se em fora (a Edite Estrela não foi convidada, o que justifica que muitos editores não saibam que o plural do sufixo do latim "um" é "a" e não "uns") televisivos a fim de discutirem se a inovação técnico-táctica  "maricón" adicionaria leveza ou peso ao desenho táctico "mono" que alguns juram ter existido em campo. A suportar a discussão, ao fundo ouvia-se aquela musiquinha do Ney Matogrosso, que reza assim:

"O que a gente fazÉ por debaixo dos panoPrá ninguém saber (...)
É debaixo dos panoQue a gente não tem medoPode guardar segredoDe tudo que se temÉ debaixo dos panoQue a gente fala do fulano E diz o que convém 
É debaixo dos panoQue eu me afogoQue eu me danoSem ver meu bem
É debaixo dos panoQue eu me afogoQue eu me danoSem ver meu bem (...)
É debaixo dos panoQue a gente esconde tudoE não se fica mudoE tudo quer fazerÉ debaixo dos panoQue a gente comete um enganoSem ninguém saber."
 
 
Não sei se os doutores terão lido Kundera e o seu "A Insustentável Leveza do Ser", mas a Direcção do Benfica certamente não o leu porque se o tivesse lido saberia que o excesso de leveza no presente conduz a um enorme peso no futuro (em sentido contrário, o Luisão leu-o, o que credibiliza as teorias de Darwin sobre a girafa e o seu papel na evolução das espécies). Bom, a discussão ia rica e intensa como sempre que o assunto (não) é futebol ou em que o futebol é usado apenas para nos mostrar a fragilidade da natureza humana. Eis então que chega uma nova jornada do campeonato nacional e para grande enfado dos tais doutores o assunto do momento tem de ficar a marinar em alhos, vinho e limão num saco hermético colocado no frigorífico de cada estação de TV. É chegada a hora da recepção do Sporting ao Estoril, uma daquelas estopadas burocráticas que quem gosta de futebol em Portugal tem de aturar até poder voltar a pronunciar-se sobre temas que verdadeiramente interessam. 

 
O Estoril é uma equipa dissimulada, camaleónica: apresenta-se com o apelido Praia, o que faz pressupor um time de veraneantes, mas os seus melhores resultados foram obtidos neste Inverno. E para o reforçar ainda usa como apodo o termo "Canarinhos", para que os tomemos em Copacabana ou no Leblon, ou imaginemos uma escola de samba, embora do seu onze base não conste nenhum brasileiro. Tem também um Guitane cujos impostos são retidos na fonte, só para contrariar a narrativa do Ventura, o que demonstra uma forte propensão de combate ao arrivismo, bem corroborada na atitude sensata do seu treinador, um homem sereno e cheio de boas ideias, que tem subido a pulso na carreira e sem se pôr em bicos de pés, pisar ou necessitar de favores de alguém. 


Se a sina do Sporting vinha sendo ganhar com golos decisivos no fim, o enredo da noite passada foi o inverso do que vinha sendo costume. Foi assim um Sporting à Benjamim Button aquele que se apresentou em Alvalade, maduro o suficiente para marcar a dobrar logo de início e assim sentenciar o jogo. Para tal muito contribuiu Suárez: se Estoril lembra costa, o colombiano soube espraiar-se nas costas estorilistas, estendendo-se por uma vasta área insuficientemente vigiada, que é sabido que o Instituto de Socorros a Náufragos só presta apoio em época balnear. Se cedo marcou, logo o Sporting procrastinou. Foram vários os avanços estorilistas até à nossa área, mas o nosso quarteto defensivo irredutível tudo conseguiu controlar. Até que o jogo acabou como começou, com novo golo do Sporting, com Bragança investido como a fénix (não confundir com Félix) que renasce das cinzas, superando as adversidades e mostrando-se mais forte e renovado - uma celebração da resiliência. 


Entretanto, o Porto ganhou, na sequência de uma oportuna biqueirada de Fofana no tornozelo de um jogador arouquense, e não haveria melhor parábola para descrever um dos calcanhares de Aquiles do futebol português. Por isso, acima de tudo, convém que não levemos esse futebol a sério, propósito aliás plenamente satisfeito pela existência dos tais programas de TV. Perdoem-nos então esta avaria, este breve interlúdio, o futebol português segue dentro de momentos. 


Tenor "Tudo ao molho...": Suárez
 
24
Fev26

Próximo adversário do Sporting?


Pedro Azevedo

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Hoje, no mítico San Siro (Giuseppe Meazza), haverá um dos mais interessantes duelos dos play-offs desta edição da Liga dos Campeões (20:00, SportTV 5). De um lado teremos o todo poderoso Inter, do outro o surpreendente Bodo/Glimt, uma espécie de bíblico David que ainda resiste num mundo de Golias. E a verdade é que os noruegueses partem em vantagem (3-1 na primeira mão), contando com um jogador que eu referenciei no blogue Castigo Máximo em Setembro de 2000. Trata-se de Jens Petter Hauge, tem actualmente 26 anos, e conhece bem o estádio onde jogará esta noite, em virtude de já ter alinhado pelo grande rival do Inter, o AC Milan. Será o homem a acompanhar, ele que nesta edição da Champions leva 5 golos e 3 assistências, em 11 jogos, precisamente os mesmos números de Kasper Hogh, o outro jogador em evidência nos noruegueses. Num momento do futebol mundial em que o investimento de oligarcas e de estados tem contribuído para o desaparecimento nos patamares mais altos de históricos clubes europeus, a emergência de um clube de uma pequena cidade nórdica (pouco mais de 50.000 habitantes, sensivelmente a capacidade do Estádio José Alvalade) é refrescante. Logo à noite vou estar a torcer por eles, evidentemente, podendo até acontecer (50% de probabilidade, caso ultrapassem os italianos) que venham a ser o próximo adversário do nosso Sporting. 

23
Fev26

Neemias Queta arrasador


Pedro Azevedo

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Houve uma rivalidade muito grande entre os Bulls de Michael Jordan e os Pistons de Isiah Thomas, mas o grande clássico da NBA ainda é qualquer jogo entre os LA Lakers e os Boston Celtics. Ontem houve Clássico, e não foi um qualquer, desde logo porque serviu como pretexto para descerrar a estátua que os Lakers mandaram erigir como homenagem a Pat Riley, o mítico treinador do período "Showtime" da equipa de LA, com este, Magic e Kareem Abdul-Jabbar, entre outros, presentes no pavilhão. Desmancha-prazeres, os Celtics estragaram a festa preparada em Los Angeles. Para tal muito contribuíram Payton Pritchard and Jaylen Brown, mas também Neemias Queta, que além de um duplo-duplo (10 pontos, 12 ressaltos) destacou-se defensivamente por 2 abafanços ("blocos") a LeBron James e ofensivamente por um afundanço em cima da estrela Luka Doncic ("poster"), numa exibição arrasadora do ponto de vista defensivo a que acrescentou apenas 1 lançamento de campo falhado.  Apesar de pouco solicitado ofensivamente, Neemias está cada vez melhor em todos os aspectos do seu jogo. 

22
Fev26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O Desanuviamento após a Guerra Fria


Pedro Azevedo

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Depois da reedição do clássico Fischer-Spassky, em ambiente de Guerra Fria, transferido do Laugardalshöll (Reykjavik) para o Dragão (ainda assim o Dragão mais islandês de sempre, ou não existisse uma crença popular na Islândia que atribui aos Huldofólk o desaparecimento de bolas), o Sporting deslocou-se a Moreira de Cónegos para defrontar uma equipa com um xadrez estampado no peito. O Moreirense com a vantagem de jogar em casa, o Sporting a jogar de (camisolas) pretas. E o que se pode dizer é que o jogo correu muito bem ao Sporting. Aliás, os 2 jogos com o Moreirense foram porventura os mais conseguidos do Sporting neste campeonato. Essencialmente porque foram jogos de 90 minutos e não de 60, 45 ou 30, em que os Leões tiveram uma irrepreensível atitude competitiva. No jogo de ontem, com uma única excepção: aquele louco minuto à Pink Floyd (o Sporting vencia já por 2-0), de momentâneo lapso de razão, em que de uma assentada concedemos 3 oportunidades à equipa de Moreira de Cónegos.

A ala esquerda formada por Maxi e Luís Guilherme foi tão instrumental no desempenho colectivo do Sporting quanto o conhecimento que o Grande-Mestre Rui Borges tem de um adversário que treinou até há 1 ano e meio atrás. Pressionando a saída de bola de Gilberto Baptista, um possante antigo central das nossas camadas jovens cuja carreira não evoluiu ainda para outros patamares por um histórico de acumulação de desconcentrações comprometedores durante os jogos, o Sporting recuperava rapidamente a bola para depois lançar essencialmente a ala esquerda. Aí, a raça de Maxi misturada com a velocidade com bola de Luís Guilherme, ambos suportados numa excelente habilidade com bola, cedo fizeram a diferença apesar da boa luta que Dinis Pinto deu. E se na primeira parte três excelentes oportunidades foram desperdiçadas por Trincão (duas vezes) e Suárez, no segundo tempo outras três acabaram no fundo da baliza do Moreirense. Primeiro, por Trincão, após exímia jogada colectiva que teve em Luís Guilherme e Maxi os seus criadores. Depois, por Geny, num golo que seria digno de  correr o mundo se tivesse sido apontado por um daqueles proto-craques made-in Seixal, que, qual Mousse Alsa, instantaneamente valem muitas dezenas de milhões nos jornais até desaparecerem com igual velocidade para nunca mais ninguém ouvir falar deles. Finalmente, por Suárez, após um seu já habitual surgimento furtivo ao segundo poste.  

Com 3-0 no marcador e minguos 15 minutos por jogar, pensou-se que seria desta que Rui Borges daria uma oportunidade ao Flávio Gonçalves, mais uma vez pregado (com estacas) no banco. Mas não. Na verdade ele só lá está por ser membro de uma geração habituada a conviver com a tecnologia. E assim poder dar formação a Rui Borges em manuseamento de tablets. Do plano consta uma hora e meia ao fim de semana, com um quarto de hora de intervalo para o treinador ir fazer um xi-xi.  Em compensação, Rui Borges ensina-lhe nos treinos um jogo tradicional leonino: pegar num pedregulho, subir com ele uma ladeira e de lá de cima lançá-lo ladeira abaixo. De forma repetitiva, que já se sabe ser da repetição no treino que vem a excelência. 

Boa vitória do Sporting que no entanto revelou que neste tipo de jogos Quaresma pode dar muito mais à equipa do que Diomande. Quanto ao apagão de Simões, a REN e a E-Redes ainda estão a investigar as suas causas, esperando-se que não se esteja a dever a um qualquer súbito aumento de tensão. 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão. Luís Guilherme, Suárez e Maxi estiveram igualmente em bom plano. 

19
Fev26

O ausente omnipresente


Pedro Azevedo

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Embora qualquer referência ao seu nome tenha estado ausente na generalidade dos comentários da imprensa desportiva, a semana futebolística ficou marcada pela omnipresença de Fernando Madureira. Sim, esse mesmo: Fernando Madureira, o líder dos Super Dragões. Surpreendidos? Eu explico. Na terça feira, na Luz, o Prestianni alegadamente confundiu o Vinícius com o Madureira e a medo denunciou qualquer coisa que fez o árbitro accionar o protocolo (anti-pretoriano) com tanta rapidez e eficácia que até o primeiro-ministro, presente na Tribuna do estádio, ficou com vontade de o convidar para presidir ao SIRESP. A omnipresença do Fernando na Luz foi um autentico "Vini (Jr, no original Veni), Vidi, Vici". Nem o Júlio César ao passar o Rubicão, só mesmo o Fernando ao sair da prisão ... (A Comunicação do Benfica bem podia ter prestado este esclarecimento em vez de explicações tão débeis que mais soaram a falecimento por vontade própria.)

 

A semana também foi de bate-boca entre Porto e Sporting. Motivo: também Villas-Boas sentiu no Dragão a pressão do regresso de Madureira. Vai daí, logo recuperou aquelas velhas práticas rupestres da instituição que fazem as delícias dos adeptos mais radicais das claques do futebol. Paradoxalmente, um clube que já foi a bandeira da descentralização é hoje o clube da centralização: do vídeo, do ar condicionado, das bolas de futebol... Sempre com a Lei de Lavoisier no pensamento: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Exemplo: na baliza do Sporting já não entram bolas impulsionadas por apanha-bolas (que agora as escondem). Em compensação, da baliza do Sporting saem uns atoalhados manhosos que caem que nem um luva num daqueles WCs ambulantes que o Porto disponibiliza para a malta das obras, que obra é um adepto prestar-se a ser visita no Estádio do Dragão. É a natureza a transformar-se, o que encontra o hospedeiro ideal naquele princípio liberal de "laissez-faire la nature" que caracteriza os supervisores do futebol português. O problema é que sem regras (ou regras lassas) logo surgem as ervas daninhas e trabalho adicional emerge para quem só joga na relva...

16
Fev26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Ir à guerra sem um “sniper”


Pedro Azevedo

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Um tipo (Nel) fazer escola nas forças armadas, especializar-se como "sniper" e na hora de ir para a guerra ser substituído pelo maestro da banda sinfónica do exército (Pote) não é natural, o que é natural é "cada macaco no seu galho" ou "o seu a seu dono", como o povo, na sua infinita sabedoria, não se cansa de dizer. O mesmo povo, aquele que clama por mais justiça social e valorização profissional, a que Rui Borges tanto reivindica pertencer, ainda que demasiadas vezes faça ouvidos moucos ao eco das suas palavras. 

O "povo" a que Rui Borges pertence é afinal a mesma nova burguesia do mestre Jorge Jesus, com gosto por compras em mercados requintados, que também tem os seus provérbios, como aquele que nos dizia que um jovem da Formação precisaria de nascer 10 vezes para substituir um Matic (na realidade, apareceu logo a seguir o Renato Sanches, que ironicamente ajudou a roubar um campeonato ao JJ), servindo aqui o sérvio de paradigma da titularidade num grande. "É o que é", e nesse sentido mais valeria arrendar Alcochete à ANA para servir de alternativa à Portela. Assim como assim, os jovens da nossa Academia já andam a ver passar os aviões há muitos tempo...

 

O problema de Rui Borges não foi nem nunca será o Casio, mas sim o "quart(z)o de hora" que foi dado ao Nel, que deveria ter jogado de início, não perdendo a equipa a referência de ataque. Entretanto, o Flávio voltou a passar o tempo todo sem sair do banco. A continuar assim, ainda chega a gerente...

 

Por ironia do destino foi o Daniel Bragança, produto da nossa Formação e em boa hora aposta de Ruben Amorim não como titular absoluto mas como jogador da rotação, quem nos deu a vitória. É essa a nossa sorte: apesar dos desequilíbrios evidentes de qualidade no plantel, a qualidade extra dos nossos melhores jogadores destaca-se tanto da dos de outros clubes, outros grandes de Portugal incluídos, que no fim não ganhar é quase impossível. Por muitas asneiras que se cometam. Ora, isso é estimulante, na medida em que, podendo ser cometidas asneiras, o desafio passa a ser inventar novas todas as semanas. 

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança. Gostei também de Luís Guilherme no primeiro tempo e de Maxi, Inácio e Diomande no tempo todo. 

13
Fev26

I see u later, alligator…


Pedro Azevedo

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As práticas atribuídas na CS ao Porto de Villas-Boas são uma combinação infeliz entre a Lei de Lavoisier - "Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - e o cinismo expresso por Lampedusa em "O Leopardo", quando, no contexto da unificação italiana protagonizada por Garibaldi, Tancredi Falconeri diz ao seu tio, o Príncipe de Salina, que para perpetuar a nobreza siciliana "É preciso mudar alguma coisa, de forma a que tudo fique igual". Bill Haley cantava "I see you later, alligator; in a while, crocodile". Depois de "O Velho Crocodilo", dêem as boas graças ao "Jacaré" Villas-Boas...

10
Fev26

Um jogo de xadrez


Pedro Azevedo

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O jogo do título foi afinal o jogo do medo. Duas equipas que mais pareceram ser duas companhias de seguros (e resseguros), medindo escrupulosamente os riscos, multiplicando-se em cálculos atuariais e procurando evitar terem de recorrer a avaliadores de sinistros. Dois treinadores apostados em servir de exemplo à Protecção Civil e assim pouparem o show-off telefónico ao ministro Leitão Amaro, de tanto investirem na prevenção. E jogadores autómatos, peões de circunstância, tele-comandados, reféns dos joysticks nas mãos dos seus treinadores. Para enquadrar tudo isto, um roteiro escrito antecipadamente e cumprido na íntegra pelos actores presentes no relvado. Com uma honrosa excepção: Rodrigo Mora, o miúdo que se rebeliou contra o espartilho táctico e soltou a criatividade e o imprevisto. Ir contra um guião pré-estabelecido em nome da liberdade de expressão é um crime que os treinadores do nosso tempo não estão dispostos a tolerar. Seguir-se-á certamente um degredo semelhante ao que o jovem craque já vem experenciando, que o tempo no futebol moderno é o de glorificação do azelha, do Fresneda, um tipo sem o menor jeito para jogar à bola, que durante o jogo nada mais fez do que cruzar contra o primeiro pino que lhe apareceu pela frente até ser bafejado pelo sortilégio raro de encontrar um pino com asas. Está assim o futebol, e é uma grande chatice. Um jogo de xadrez assistido ao vivo por mais de 50.000 pessoas, em ambiente de Guerra Fria (propaganda à parte, o André Villas-Boas é tão regenerador do futebol português quanto o Trump é defensor dos direitos dos emigrantes na América), mas sem o Fischer ou o Spassky para nos deleitarem com o seu génio. Um futebol amordaçado, de liberdade condicionada e cheio de atitudes pidescas como as amplamente reportadas ontem no Dragão. É o que acontece quando se entrega o seu destino a treinadores e presidentes de clubes. Até ao dia em que os jogadores se sublevem e reclamem para si o protagonismo. Aí, sim, mais do que a liberdade, regressará a arte. E com ela se moldará também uma nova classe de adeptos, amantes de um bom espectáculo e não fanáticos radicalizados e apostados em ganhar a qualquer preço. 

10
Fev26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O medo sobrepôs-se à ambição


Pedro Azevedo

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O Oscar Wilde, que ainda conseguiu viver o suficiente para ver nascer o futebol, disse um dia ironicamente que a ambição é o último recurso do fracassado. Tal bem que podia ser aplicado à exibição do Sporting no Dragão, primeiro especulando com o jogo à italiana, preferindo a segurança à ousadia e assim evitando os habituais envolvimentos de jogo interior, depois arriscando tudo já a perder, procurando evitar uma derrota comprometedora que deixasse o campeonato já arrumado. O facto de não termos entrado com tudo demonstra que tivemos mais medo de perder do que vontade de vencer, preferindo depender de terceiros que nos ajudem a anular a desvantagem na classificação do que sermos competentes no que dependa exclusivamente de nós. E a verdade é que perdemos uma enorme oportunidade de encurtarmos a distância para o Porto para 1 ponto porque o rival pareceu uma equipa cansada e a acumular lesões, e o Sporting não soube aumentar a intensidade e pressionar o Porto no campo todo para expor assim ainda mais essas limitações. Para jogar à italiana e ter sucesso, não correndo riscos no meio, o Sporting precisaria de ter jogadores nas alas que fizessem a diferença. Só que Maxi ficou sacrificado em tarefas defensivas e Fresneda desperdiçou todas as liberdades para atacar que teve no seu flanco, comprometendo também no golo portista (a sua constrangedora exibição acabou salva por uma mão de Moura). Assim, o Sporting limitou-se a controlar o Porto, ao invés de o procurar desequilibrar. Sendo certo que a manterem-se os 4 pontos de diferença, o Porto só será campeão no final da penúltima jornada do campeonato, não é menos verdade que se estranha que Rui Borges não tenha pensado ser um fracasso sair do Dragão sem encurtar essa desvantagem. Assim, o Sporting só arriscou quando se apanhou a perder. E ainda foi a tempo de minorar o prejuízo face a uma equipa de muito trabalho mas pouco talento e que se dá ao luxo de deixar de fora durante largos períodos um dos poucos jogadores que efectivamente desequilibra individualmente neste campeonato. Refiro-me a Rodrigo Mora, o tal que é pequenino e impróprio para o Inverno (dizem os "entendidos") e ontem venceu um duelo aéreo com Fresneda antes de sobre ele fazer gato e sapato e estar na origem do golo portista.  Foi então o tempo para Rui Borges deixar de lado a "riqueza táctica" e as preocupações com anular o adversário. E, nos últimos 15 minutos, o Sporting fez muito mais do que nos primeiros 75, levantando a questão sobre o porquê de não o tentar ter feito desde o início.

 

A auto-limitação a que Rui Borges se impôs não teve a ver com jogar com mais ou menos avançados, mas sim com o receio que demonstrou de tentar jogar o seu habitual futebol, evitando ao máximo os passes entrelinhas por receio de perdas de bola comprometedoras no centro do terreno. Também me pareceu que a substituição de Morita por Simões foi retardada ad-nauseam (ao ponto de já não ocorrer), o que mais uma vez evidenciou a dificuldade que o nosso treinador tem em apostar nos jogadores formados em Alcochete. Simões que continua a manter a impressionante estatística de ter estado presente em todos os jogos do campeonato em que o Sporting não perdeu pontos (ausente com Porto e Braga na primeira volta e Porto na segunda, substituído antes do Gil ter empatado), com a excepção do jogo da Luz, em que não foi titular e entrou já com o empate final no marcador. 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi 

06
Fev26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Angústia para o jantar


Pedro Azevedo

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A insistência pode ser vista como persistência inteligente ou como resistência (teimosia) cega. Para encaixar Luís Guilherme de uma forma produtiva e assim justificar o elevado investimento na sua contratação, Rui Borges colocou-o à direita. Foi a quarta titularidade do brasileiro em outros tantos jogos domésticos, o que indica bem a aposta do treinador leonino nele, uma coisa impensável de acreditar poder ocorrer com um jogador da nossa equipa B (em que as convicções são ténues). Individualmente a coisa correu bem, mas colectivamente não. E porquê? Porque Trincão, o melhor jogador do Sporting neste momento (Pote ainda está a recuperar a melhor forma), foi deslocado para a ala esquerda, perdendo assim o Sporting aqueia porta giratória de onde o antigo jogador do Barcelona parte para atacar o adversário pelo centro do terreno. No centro jogou Bragança, também ele deslocado da sua posição de médio. E voltou a não correr bem, à semelhança do já ocorrido em Bilbau. Refiro-me à fluidez do nosso jogo ofensivo e à sua prestação face ao que Trincão nos costuma dar nessa posição, porque em termos do impacto do Daniel no resultado final as coisas poderiam ter sido bem diferentes, nomeadamente se aquele seu desvio após cabeceamento de Suárez tem entrado na baliza em vez de embatido na barra ou se o VAR tem chamado o árbitro para marcar um penalty a nosso favor e não desvalorizado uma ofensa gritante à masculinidade do médio formado em Alcochete, um facto que escapou a Narciso e nunca deveria ter escapado logo a um Narciso, que já se sabe ser alguém muito preocupado com a sua aparência física. 

Adicionalmente, com Hjulmand muito abaixo do seu valor, Kochorashvili dentro da bitola meã a que nos habituou, Vagiannidis alternando o bom com o péssimo, Mangas num registo menos ofensivo e o sempre vertiginoso Quaresma desta vez claramente limitado no jogo aéreo (condicionado pela máscara), o Sporting nunca conseguiu sufocar o AVS. Pelo que, apesar dos dois golos de vantagem que entretanto havia logrado alcançar, o Sporting foi sempre dando razão aos avenses para acreditarem poder voltar ao jogo. E assim aconteceu, primeiro após uma mão na área de Hjulmand que me pareceu erradamente interpretada pelo VAR, depois na sequência de um abalroamento infantil de Vagiannidis a um avançado avense, lance desta vez muito bem analisado pelo vídeo-árbitro. E assim dos serviços mínimos passámos a um estado de alerta e até de emergência. E a um indesejável prolongamento em vésperas de deslocação ao Dragão. Já sem Trincão, entretanto substituído pelo festejado regresso do infortunado Nuno Santos, repetindo Rui Borges o mesmo erro que cometeu na meia final da Taça da Liga. Até que Catamo, respeitando o AvisoPROCIV que recomendava que os indivíduos se afastassem das margens, "bolinou" para dentro e marcou um golaço de Geny(o). Um alívio tardio, ainda que reconfortante, porque a noite podia ter acabado em sobressalto se em cima do fim do tempo regulamentar um isolado avançado avense tem acertado bem na bola. Mas não acertou, o Sporting ganhou e para o Dragão se moralizou. Foi como terminou um jogo em forma de assim (O'Neill), que em forma de assim também é aquela coisa a que dão o nome de AVS (ou AFS, ou lá o que é). Vamos!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Geny Catamo 

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