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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

29
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Alisson, o Herói de San Mamés


Pedro Azevedo

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Já aqui escrevi que não acredito em coincidências. Observem o ocorrido ontem: o estádio do Athletic denomina-se "San Mamés". Ora, Mamés em português traduz-se para (como) Mamede. Refere-se a Mamede de Capadócia, um santo e mártir cristão do Século III que tinha uma relação singular com os leões, ao ponto de estes não o terem atacado na arena como os romanos esperariam quando o enviaram para o Circo, obrigando estes a fazer uso de outros expedientes para o executarem. Pois bem, Mamés pode ser reverenciado pelos leões bascos, mas Mamede (Fernando) é o nome do não menos estimado nosso campeoníssimo agora desaparecido, também ele com uma relação de uma vida com os leões. Acreditam por isso que o Sporting ter ido ganhar ao Estádio de San Mamés logo no momento em que choramos a morte do nosso Mamede foi um acaso, ou será que tudo obedece a uma ordem determinada das coisas? Quem sabe se lá no céu o nosso Mamede não começou já a meter uma cunha por nós...!? Ou talvez Deus nos tenha querido compensar por tamanha perda...

Com esta vitória ao soar do gongo, como tal ainda mais saborosa, o Sporting conseguiu o feito histórico de se qualificar automaticamente para os oitavos de final da Champions. Com uma média de 2 pontos por jogo, os leões ficaram dentro das 8 equipas primeiras classificadas (num total de 36). Vale a pena observar quem foram as outras: Arsenal, Bayern, Liverpool, Tottenham, Barcelona, Chelsea e Manchester City. Ou seja, 5 clubes ingleses (dominadores), 1 alemão e 1 espanhol, nenhum italiano, nenhum francês. Uma grande proeza do Sporting e do futebol português, portanto. 

Com Pote a necessitar de ser gerido, o Sporting entrou de início com Bragança. Não resultou bem, não tanto pela presença do Daniel mas porque assim o Trincão teve de ser deslocado da sua posição habitual no centro. Também não ajudou à festa o ressalto infeliz da bola em Hjulmand e a ingenuidade de Matheus Reis que proporcionaram dois golos ao Bilbau. Pelo meio, marcámos um golo, por Diomande após canto de Maxi. 

Se o primeiro tempo nos tinha deixado um travo amargo na boca, a segunda parte não trouxe grandes novidades até às entradas de Pote e de Quaresma (e Morita). Finalmente com um adiantado mental no relvado, alguém capaz de pensar na solução uns décimos de segundo à frente de todos os outros, o Sporting começou a tomar conta do jogo, para o que também contribuiu o facto de termos passado a ter um central capaz de levar a bola para a frente (Quaresma). E foi na sequência de uma arrancada do central formado em Alcochete que Pote combinou a meias com Trincão e um pé (faz sentido!) basco pelo caminho e o Sporting empatou a partida. Depois, Suárez marcou um golo anulado por uma biqueira de uma bota e o VAR reverteu um penalty sobre Geny que numa segunda fase da abordagem do defesa espanhol pareceu mesmo ter existido (primeiro toca na bola, depois aplica uma chave de pernas ao moçambicano). Ainda houve um remate perigoso de Geny que Simon defendeu. Até que Bilbau e Sporting decidiram arriscar tudo: o Athletic porque marcando se qualificaria para os play-offs (à custa do Benfica, sabe-se agora), o Sporting porque se qualificaria directamente para os oitavos de final. E foi o Sporting a consegui-lo, já na fase de desespero dos bascos, beneficiando de um contra-ataque em que primeiro Suárez falhou na cara do golo e depois Alisson acelerou no seu acompanhamento, travou de repente e derrapou um pouco, mas conseguiu não só manter-se de pé como impedir 2 adversários de chegarem à bola e marcar. Alisson, o herói de San Mamés!!! Quem diria? Ou como 3 golos na Champions e nenhum no somatório das outras competições mostra à saciedade que o brasileiro precisa de latifúndios para aplicar velocidade e finta. Mas que remata bem à baliza, lá isso remata. E é uma arma-secreta que pode idealmente ser lançada no decorrer de uma partida, especialmente se melhorar os seus jogo interior e sentido colectivo. 

Entretanto, no seguimento de uma brilhante vitória sobre o Real Madrid, o Benfica conseguiu em cima do gongo classificar-se para os play-offs da Liga dos Campeões. Graças também ao Sporting, porque, se o Athletic nos tem ganho, o Benfica teria sido o vigésimo quinto no final e assim o primeiro dos eliminados. Será que na Luz se prepara um comunicado... de agradecimento?

 

Tenor "Tudo ao molho...": Alisson 

28
Jan26

Fernando Mamede


Pedro Azevedo

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"...E esse teu ar grave e sério
Num rosto de cantaria
Que nos oculta o mistério
Dessa luz bela e sombria

Ver-te assim abandonado
Nesse timbre pardacento
Nesse teu jeito fechado
De quem mói um sentimento..." 

(Porto Sentido, Rui Veloso e Carlos Tê)

 

Como é que alguém que ganhou o direito à imortalidade pode morrer? Não pode, evidentemente, viverá para sempre no nosso pensamento. 

O Fernando Mamede era único, tanto no seu talento superlativo como na sua hipersensibilidade. Há uns anos tive uma breve conversa com ele no contexto de um acto eleitoral do nosso clube. Apareceu-me com um ar destroçado, chorando copiosamente. O motivo? Tinha estado com o ex-presidente Dias da Cunha à boca das urnas e ficara impressionado por o ver tão doente. O Mamede era assim, um homem com um coração enorme, bom, o mesmo coração que o viria a trair no dia do seu desaparecimento. Como atleta, no seu esplendor, era uma máquina, uma locomotiva humana. Era resistente e tinha uma mudança de velocidade impossível de acompanhar pelos seus adversários. Assim aconteceu em Estocolmo, onde fez uns 500 metros finais de sonho, imparável a caminho de pulverizar o recorde do mundo dos 10.000 metros. Aí, na cidade onde morreu a razão (Descartes, acometido de uma pneumonia fatal enquanto dava tutoria à Rainha Cristina), renasceu a emoção de ser português. É certo que nunca ganhou uma medalha olímpica, que a pressão competitiva levou sempre a melhor sobre a sua fisiologia singular. Mas as Selecções da Hungria de 54, da Holanda de 74 e do Brasil de 82 também nada ganharam, mas não deixaram de ficar para sempre no coração de quem as viu, mais até do que os vencedores. Tal como o Mamede, que tinha a estamina de um queniano e a aceleração de um jamaicano, como se John Ngugi e Usain Bolt se tivessem fundido num só. Com o seu desaparecimento, que se soma ao de Moniz Pereira, Carlos Lopes é agora o único sobrevivente de uma ínclita trindade leonina que dificilmente se repetirá no tempo. RIP, enorme campeão!!!

27
Jan26

Craque ou Crack?


Pedro Azevedo

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Há uma necessidade natural do adepto que é satisfeita quando o seu clube vai ao mercado. O adepto gosta da novidade: relva nova, cadeira nova, camisola nova, jogador novo. E não há sortilégio maior para ele do que um presente no sapatinho. Se o futebol é, como dizia o Javier Marías, a recuperação semanal da infância, a chegada de um novo jogador à Portela é a recriação semestral (dois mercados) da figura do Pai Natal a aterrar o trenó com as suas renas junto a uma chaminé perto de si. Sim, porque a idade emocional de um adepto da bola é a de um pré-adolescente, ingénuo, sem filtros e cheio de sonhos e de ilusões. E quando lhe anunciam um craque - há anunciantes que só podem andar a dar no crack -, há todo um imaginário que é preenchido.  Enquanto um jogador oriundo da Formação é já um velho conhecido e como tal visto como um presente em segunda mão, a novidade do mercado é como se trouxesse consigo o terceiro segredo de Fátima por revelar, aguçando assim a curiosidade. A maioria das vezes a curiosidade mata o gato, mas, ainda que avisado, o adepto nem por isso deixa de se atirar como gato a bofe de cada vez que o seu clube vai ao mercado. E se no fim tudo acabar em lágrimas (é sabido que os gatos detestam água), haverá sempre um novo mercado para combater a desilusão, que o passado num pré-adolescente ocupa pouco espaço de memoria. . 

24
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Um golo de café(tero) evitou a azia


Pedro Azevedo

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Há cerca de 1 mês atrás, Flávio Gonçalves foi integrado na equipa principal. Desde aí, a nossa equipa B perdeu 5 jogos consecutivos. Ok, a missão principal das equipas de formação não é ganhar campeonatos, mas sim desenvolver jogadores para a equipa principal, dir-se-á. Só que o Flávio jogou apenas 1 jogo a titular, contra o Vitória e depois saiu (com o resultado favorável de 1-0, no fim perdemos 1-2) e nunca mais voltou a pisar o terreno de jogo. Era uma oportunidade para um menino criado em Alcochete e uma ocasião para justificar a bondade do projecto de modelo centrado na jogador, mas Varandas meteu o projecto na gaveta e de uma assentada foi ao mercado comprar Luís Guilherme e Faye, num investimento conjunto de 20 milhões de euros. Em resumo, não só perdemos a liderança na Segunda Liga e 5 jogos consecutivos como também conseguimos desmoralizar toda uma geração de jogadores made-in Alcochete que certamente prestou atenção ao que aconteceu com o Flávio e agora sabe que precisa de nascer 10 vezes para ter uma oportunidade decente. E para quê? É Luís Guilherme um craque? Até agora não pareceu. É sequer melhor do que o Flávio? Não acredito, tem até um conhecimento muito inferior do jogo interior, só sabendo jogar por fora. Assim, a única diferença "positiva" entre o Luís Guilherme e o Flávio são os 14 (+3) milhões de investimento nos seus direitos económicos (que no Balanço alimentam a rubrica de "Activos Intangíveis") porque em potencial para mim é inferior e certamente está muito menos preparado para o modelo de jogo implementado por Rui Borges. Quanto a Varandas, também fica a perder, na medida em que desperdiçou a oportunidade de mostrar que a ideia do modelo centrado no jogador é para ser levada a sério e não apenas mera propaganda de ocasião. Porque na altura certa mandou às malvas as convicções (se é que as tinha) e foi dar mais uma voltinha no carrossel do mercado. Nada de novo, portanto, apesar das lendas e narrativas. Culpo menos Rui Borges do que Frederico Varandas. Desde logo porque muito poucos treinadores têm o perfil e a ousadia de apostar na formação (Luís Enrique, Leonardo Jardim, Flick...), pelo que se puderem rodeiam-se do máximo de jogadores possível. O que não faz sentido é uma política desportiva que implica ir-se ao mercado gastar fortunas em jogadores de idade equivalente às que temos em Alcochete. Porque ninguém contesta a aposta de mercado em jogadores que já provaram, mas estranha-se o investimento em quem ainda nada provou. Porque não somos um clube da Premier League que pode especular no mercado com aquilo que um jovem jogador se poderá desenvolver (o que muitas vezes é zero), a não ser que o seu custo de aquisição seja residual (e mesmo assim deveremos sempre considerar o custo de oportunidade de tapar um jovem proveniente da Academia).

Se a contratação de Luís Guilherme, à luz da propaganda do modelo centrado no jogador (da Formação) e dos avultados investimentos efectuados em Alcochete, fez muito pouco sentido, Rui Borges ter obrigado toda a linha avançada a rodar de posição em função da colocação de Luís Guilherme na direita (mais tarde regressou à posição inicial na esquerda) não fez sentido nenhum. Com isso, a equipa perdeu ritmo, rotinas e descaracterizou-se. Isso, associado à forma pouco intensa como entrámos para o segundo tempo, esteve na origem do Arouca ter voltado ao jogo, após Suarez ter-nos adiantado no marcador depois de ter iludido 3 adversários numa cabine telefónica. Não sei se Luís Guilherme é bom ou não, nem esse é o ponto. O que sei é que desconhece o país, a equipa e o campeonato português. E está sem ritmo, quase não jogou em Inglaterra. Além de que é muito jovem. Pelo que seria desaconselhável estar a lançá-lo prematuramente. Só que aqui entra na equação o avultado valor de investimento e a necessidade de justificá-lo. E assim, as oportunidades que são dadas a um jogador nestas circunstâncias estão nos antípodas das concedidas a um jogador da nossa Formação. Apesar das obras em Alcochete, dos Power Points e das várias narrativas plantadas nos jornais e nas TVs do costume. As coisas são o que são, e não o que gostaríamos que fossem ou o que quem nos toma por tolos quer nos fazer crer que são. Realidades e percepções, ou a arte da prestidigitação. 

Bom, o jogo caminhava para o fim com um empate no marcador que era um castigo justo para quem tantos erros conceptuais cometeu. Só que apareceu de novo Suarez e resolveu. Foi com a cabeça e o ombro, a fazer lembrar um outro colombiano (Teo Gutierrez) que era perito em marcar com partes do corpo nada ortodoxas. Este Suarez foi um achado, neste caso com mérito total da Estrutura. Com outra maturidade (27 anos), foi uma contratação de menos risco. E é impossível não ficar ainda hoje pasmado com o que trabalha, joga e marca (e falha, mas continua sempre a tentar). Um abono de família! 

Ganhámos, mas não ganhámos para o susto, que os nossos já antecipadamente débeis sinais de vida estiveram por um fio no que respeita à saúde neste campeonato. Já a respirarmos por um ventilador, esta vitória tardia foi uma lufada de ar fresco que pode indicar que a sorte mudou de lado, do norte para Lisboa. A ser assim, não deixaria de ser irónico que esses ventos da fortuna tivessem aparecido logo no momento em que fizemos tudo para que a sorte não nos bafejasse. Mas é assim a vida, e às vezes a sorte aparece quando menos a esperamos (ou merecemos). 

Tenor "Tudo ao molho...": Suarez 

 

20
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Suarez contra o saco de dinheiro


Pedro Azevedo

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Numa perfeita recuperação da alegoria de David e Golias, Suarez desferiu duas fisgadas no saco de dinheiro dos qataris patrões do todo poderoso PSG, campeão europeu em título. Com esses dois golpes, o saco rompeu-se, pareceu subitamente haver uma redistribuição da riqueza e o jogo democratizou-se, recordando-nos nostalgicamente a Europa de futebol do final dos anos 70, início dos 80, com os "underdogs" Forest, Anderlecht ou Aberdeen, onde até não faltaram (há sempre exageros próprios de uma época) as permanentes de cabelo "à Grease" do Mangas. 

 

Cruijff, um génio do futebol mundial (como jogador e treinador), disse uma vez que nunca tinha visto um saco de dinheiro ganhar um jogo. As equipas podem ter orçamentos exponencialmente diferentes, mas dentro do campo são 11 contra 11 e num jogo tão democrático como o futebol tudo pode acontecer (inclusive uma equipa com um Kocho vencer). E aconteceu, ontem, em Alvalade. 

 

O saco de dinheiro, apesar de muito pesado, revelou-se muito móvel, obrigando os jogadores do Sporting a correrem para trás e para a frente e da esquerda para a direita (e vice-versa) a fim de o acompanharem. A manobrá-lo no "joystick", um português: Vitinha, o homem da PlayStation do jogo do Monopólio (do PSG). O Sporting tentou durante todo o tempo ligar o jogo com Suarez. Quando o elástico não se partia pelo caminho, a bola chegava lá, mas durante o primeiro tempo faltou quase sempre o desdobramento nas costas do colombiano, papel que estaria destinado essencialmente a Geny (mais explosivo que Maxi e Trincão, estes mais organizadores), que foi sempre muito bem marcado pelo "nosso" Nuno Mendes. 

Suarez é astuto como uma raposa e sabe posicionar-se muito bem nas bolas paradas, sempre furtivamente em busca de espaços desocupados. Ontem, dessa forma, assaltou em duas ocasiões o galinheiro francês. Na primeira, beneficiando de uma bola de ressaca deflectida em Vagiannidis, de seguida numa recarga após defesa do guarda-redes gaulês a um remate de Trincão. Se após o primeiro golo, os parisienses tremeram (mas Kvaratskhelia serenou-os), o segundo produziu-lhes um efeito de "knock-out" semelhante ao que Marques Mendes experenciou quando tomado de assalto por Gouveia e Melo. Como resultado, até ficaram a ver estrelas (no Céu). Não descobrindo a Polar, jamais voltariam a encontrar o norte. 

Rui Borges mostrou de novo à saciedade aquilo que não nos cansamos aqui de referir: tacticamente é um treinador brilhante. Falta o resto: um melhor aproveitamento dos diamantes lapidados em Alcochete em detrimento da aposta em zircónio comprado na Feira do Relógio do futebol europeu. Ontem, vários desses diamantes estavam lá, no banco, metaforicamente mostrando-nos que a aposta neles é dinheiro no banco. E, bem geridos, um saco bem gordo de dinheiro. Como nos mostram os Ronaldo, Figo, Nani, Simão, Quaresma, Viana e Quenda, mas também Simões, um miúdo de 18 anos que joga como gente grande, embora, para jogar assim nos grandes palcos, primeiro tenha tido que se mostrar nos terrenos baldios e quintais das nossas provas domésticas, oportunidade que Flávio Gonçalves e os demais ainda aguardam por acontecer e já deveria ter ocorrido consistentemente em tantos jogos antecipada ou prematuramente ganhos. É por isso uma pena que Rui Borges ainda não tenha dado esse passo, que também seria um passo em frente na nossa sustentabilidade, porque de resto é um treinador de enormíssima qualidade, que imprime às suas equipas dinâmicas difíceis de contrariar até para um campeão europeu. Sem Diomande (ou Quaresma), Hjulmand, Quenda ou Pote, é bom relembrar. Para não falar em Nuno Santos, "O Desejado", raça de leão num émulo de D. Sebastião que numa manhã de nevoeiro esperamos voltar a ver em Alvalade (o jogo até deverá ser antecipado festivamente para uma hora matinal e tudo). 

Com esta vitória, o Sporting garantiu o apuramento para a próxima fase da Liga dos Campeões. E pode até apurar-se directamente para os oitavos de final da prova milionária, assim vença em Bilbau, o que nos leva à pergunta: iremos lá vestir o traje de gala ou quedar-nos-emos em "pelota" (basca)?

 

Tenor "Tudo ao molho...": o "cafetero" Suarez 

16
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Ah Geny(o) do “Catamo”!


Pedro Azevedo

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Gerir é antecipar o futuro. Vai daí, visionário como nenhum outro, Varandas fez obras em Alcochete. Não serviu para que, por exemplo, Flávio Gonçalves tivesse oportunidades na equipa principal (na sequência da sua promoção à primeira equipa, o Sporting gastou 20 milhões de euros em Luís Guilherme e Faye e viu a B perder o primeiro lugar na Segunda Liga, um loose-loose), mas pelo menos teve a virtude de abrir espaço para que lá fosse montado um hospital de campanha que abrigasse os mártires da nossa Unidade de Performance. 

Entretanto, a aposta na Formação (do Palmeiras) prossegue em bom ritmo: o Luís Guilherme estreou-se a titular e o que se pode dele dizer é que, face ao Flávio, o Sporting ganhou... 1 ano (19 contra 18). Como diria o Palma, enquanto houver dinheiro, a gente vai continuar... o modelo centrado ... no mercado (vulgo "gestão de roulotte", que nesta actividade, de trading de jogadores com futebol lá dentro, o dinheiro é nómada e chapa ganha-chapa gasta). 

Fresneda podia ter sido destacado para central pela direita, mas Rui Borges "nesse sentido" pô-lo na esquerda. "É o que é", ou seja, com o Luís Guilherme completamente "fora dela", valeu-nos o Matheus Reis, esse sim um utilitário que fez sentido trazer para Alvalade (desde que focado em pisar somente a bola). Muito por culpa de Geny, um jogador em que cientificamente acreditávamos tanto que deixámos ficar até muito recentemente 75% dos seus direitos económicos no Amora (nem todos os acasos implicam ocasos), o Sporting adiantou-se primeiro no marcador e a seguir reforçou a sua vantagem. Este segundo golo foi um hino ao futebol, desde o passe (à Beckenbauer) do Inácio até à recepção orientada com o peito e concomitante remate do moçambicano. 

Depois, o Simões e o Trincão pegaram no jogo e o Sporting foi montando o seu habitual carrossel, fazendo esquecer as inúmeras ausências de jogadores importantes. De Bragança até Lisboa foram 11 meses de viagem, mas o Daniel ainda veio a tempo de colorir mais o marcador. Um regresso que se saída, de um jogador que veio da nossa Formação ("et pour cause", não custa nada relembrar). Inevitavelmente, lá teve de entrar o Alisson: olhos postos no chão, correria à jamaicano, dois colegas sozinhos a pedirem a bola e remate ingloriamente para fora - "I rest my case!"

 

Rui Borges tacticamente tem o brilhantismo científico de um Dr Jekyll, mas depois é ensombrado por um lado de Mr Hyde que violenta a nossa Formação e o faz curvar-se perante adversários de semelhante igualha (é bom relembrar que o Simões não estava em campo em todos os jogos domésticos que não ganhámos, considerando que na Luz já entrou com o jogo empatado). Conseguirá Jekyll sobrepor-se a Hyde? Ou, tal como na novela de Robert Louis Stevenson, o Hyde tomará conta dele? É que disso não dependerá só esta época, mas (estou absolutamente convencido) também o nosso futuro. Para já, no presente, ganhámos...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Geny Catamo 

07
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

As Causas dos “Acasos”


Pedro Azevedo

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Rui Borges finalmente deu a titularidade a Flávio Gonçalves, que mostrou bons pormenores técnicos e inteligentes movimentações nem sempre aproveitadas pelos colegas. Depois, no segundo tempo, aceitou com brio uma missão de sacrifício e que até não assentaria bem a um jogador inexperiente que não tivesse um entendimento tão grande do jogo como ele, recuando no terreno para ajudar Maxi a estancar o lado direito do ataque do Vitória. Saiu com o Sporting a ganhar por 1-0, rendido por Morita que não teve mais um dia não porque foi mesmo péssimo, desperdiçando um golo cantado (não acertou bem na bola) e dando o toque imprudente que possibilitou a reviravolta no marcador. Com a saída do Flávio, o Sporting entregou o jogo ao Vitória, aparecendo na frente só pontualmente, em transição, e deixando de impor a melhor qualidade dos seus jogadores e a superior dinâmica colectiva, jogando como equipa pequena. Uma reprise de Barcelos, mas com danos ainda maiores. Evidentemente, as lesões complicaram a nossa vida, especialmente a que vitimou o Quaresma (a saída de Ioannidis também implicou a perda de um jogador capaz de esticar o jogo). Mas o Flávio não saiu por lesão e o Simões e o Trincão também não, este último substituído pelo treinador quando já se sabia que iriam ser jogados 11 minutos adicionais de compensação. Para o seu lugar entrou o Luís Guilherme, recém-chegado, sem ritmo de jogo, conhecimento dos colegas e das dinâmicas da equipa. Estava a leste quando o Vitória entrou pelo nosso lado direito (um bar aberto) e marcou o segundo golo, tal como Alisson no lance do primeiro golo em que o Sporting permitiu um 2x1 no seu lado esquerdo. Antes, mesmo a acabar o primeiro tempo, a 2 metros da baliza e quando o bom senso aconselharia um toque suave na chicha para desviá-la do guarda-redes, o Alisson tentou assassinar o Charles, usando a bola como o móbil (e que "móbil"!!!) do crime. (Há adeptos de futebol, muito apreciadores das correrias do Alisson, que nos dias dos nossos jogos deviam ir para o Estádio Universitário bater palmas aos atletas que evoluem nas pistas de tartã.)

A ideia que tudo acontece por casualidade ou por azar, devendo-se ao aleatório ou ao mau-olhado, faz tão pouco sentido quanto o discurso deprimente (des)conexo do nosso treinador na conferência de imprensa que se seguiu ao jogo, em que não faltou uma pergunta muleta de um jornalista a dar o ar que o que correu mal deveu-se a ter de se apostar na Formação e bom mesmo seria ir ao mercado. A resposta de Rui Borges foi o único momento dessa conferência que fez sentido, mostrando a esse jornalista que não se pode ter um plantel de 40 jogadores quando se recuperarem os lesionados. Não, a casualidade (ou contingência) não tem necessariamente de acontecer, tem a ver com o livre-arbítrio do decisor e é uma construção da mente que resulta da ignorância da suas causas, como defende Leibniz. E o azar, se entendermos que a sorte é quando a oportunidade encontra a preparação correcta,  então ocorre quando surge uma ameaça e não estamos suficientemente preparados para a enfrentar. Como foi o caso de ontem, com substituições essas sim feitas de modo aleatório, cujo eventual único critério foi dar minutos a jogadores e que em cascata produziram o efeito de carambolas de bolas de snooker todas a caírem no nosso saco. Nesse sentido, expressão cara a Rui Borges, fica a nota que todos os jogos que o Sporting não ganhou domesticamente ocorreram com Simões fora do campo (não jogou com Porto e Braga, entrou tarde na Luz e com o jogo já empatado, saiu em Barcelos e com o Vitória com o Sporting na frente). Será por acaso ou porque é preciso insistir em Morita e em Kochorashvili até à morte (à nossa morte, entenda-se)? Aliás, mesmo as escolhas de jogadores da B, excluindo Flávio e talvez Blopa (se este puder ser adaptado a lateral), fazem pouco ou nenhum sentido. Felicíssimo, por exemplo, esta época nunca foi chamado e talvez não perdesse a bola como Kocho num lance que desequilibrou totalmente a equipa. Rayan Lucas impressionou na pré-época, mas desde aí seguiu-se um apagão. E o Mendonça, pilar da B, simplesmente não conta, assim como o Mauro Couto, que, em vez de evoluir face ao muito bom ano anterior, está a regredir, porque demorou-se uma eternidade a chamar o Flávio à equipa principal e assim este tapou-lhe o lugar. Quem parece contar é o Romulus (e não o Muniz, nosso desde sempre), com nome de legionário do Império Romano (talvez por isso lhe pesando as botas), que fomos desencantar ao mercado. O mercado do nosso descontentamento, aquele da "Feira do Relógio" (ou das vaidades), onde não moram os Gyokeres, Hjulmands ou Maxis (ontem, excepcionalmente, com um jogo muito mau). É a nossa atração pelo abismo, mas também a vaidade e sobranceria de uma Direcção que assim vai minando tudo o que de bom anteriormente foi feito. Até ao dia em que se conclua que as boas ideias afinal não passaram dos power-points. O momento "é o que é", e não há narrativa que o possa negar. Mas podemos arrepiar caminho, reconhecer os erros próprios e dar a volta (e não a narrativa) por cima. Haverá vontade e ânimo? Ou o fantasma de Amorim já anda por aí? 

Tenor "Tudo ao molho...": Quaresma (depois dele, o marasmo). 

 

05
Jan26

(De)formação


Pedro Azevedo

O discurso apocalíptico a propósito das lesões no Sporting incomoda-me enquanto alguém que sempre se focou em soluções e não em problemas. Afinal, para que queremos a Formação, se nem quando faltam jogadores admitimos utilizá-la? Um clube sustentável constrói-se com uma boa base de jogadores de qualidade misturada com o resultado da sua linha de produção. Se Barcelona, Bayern ou PSG apostam na Formação com os resultados que se veem, por que há-de o Sporting, um clube com menos recursos financeiros, não o fazer? Uma crise, seja qual for a sua origem, é também uma oportunidade, como o provam Nuno Mendes, Matheus Nunes, Gonçalo Inácio, Eduardo Quaresma ou João Simões. Não se pode é depois ir ao mercado sempre que há lesões e se abre uma janela de mercado, porque assim os jovens nunca terão uma oportunidade. Ou comprar por comprar, como são os casos de Sotiris, Tanlongo, Alisson, Kochorashvili ou Vagiannidis, que não são só um investimento mas também trazem consigo um custo de oportunidade: a cada nova insistência na sua titularidade há um activo da Formação que não se valoriza por estar tapado. O que está a acontecer, por exemplo, com Flávio Gonçalves. Considero que este caso é um escândalo. Temos um jogador com características semelhantes às de Pote, com muito menos experiência é certo, mas, mesmo a ganharmos por 4-0 ao Rio Ave aos 60 minutos de jogo, o treinador prioriza o Alisson. Esta cegueira já aconteceu no passado com o Matheus Nunes, que se calhar não teria uma carreira caso Amorim não tivesse chegado a Alvalade, uma vez que Silas nunca o pôs a jogar. Era o tempo de Bolasie, Fernando e Jesé, essa troika que para não fugir à regra esteve associada a um grande défice. Por isso, há que perguntar o que é que Luís Guilherme, de 19 anos, tem a mais do que o Flávio, que tem 18. A resposta óbvia são 14 milhões de euros, o custo da sua aquisição. Mas isso é financeiro. Desportivamente, o Luís Guilherme ainda não marcou um golo em campeonatos nacionais (1 assistência), enquanto o Flávio Gonçalves tem marcado e assistido com consistência na nossa Segunda Liga. E com isto não quero tirar mérito absoluto a Luís Guilherme, um velocista ao jeito da tendência actual dos treinadores de futebol serem grandes adeptos de atletismo. E driblador, também, ainda que com muito menos conhecimento do jogo do que o Flávio, se quisermos relativizar. Mais do que palavras bonitas como qualificação dos treinadores, investimentos em Alcochete e power-points sobre modelos centrados no jogador, são estes actos de gestão que nos mostram a convicção (ou falta dela) que temos na nossa Formação. O resto é propaganda. Uma treta, como a ideia da aposta na Formação. A não ser que estejamos a falar da formação de outros. Nessa apostamos muito. Se ainda todos fossem como o Gyokeres...

02
Jan26

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Modelo de Formação centrado no mercado


Pedro Azevedo

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Não se entende porque se gastam tantos recursos na Formação e se cria um modelo centrado no jogador, se depois o treinador prefere um Alisson Bolt a um Flávio Gonçalves. O paradoxo da coisa é a palavra-chave da Formação ser "centrado" e o treinador da equipa principal preterir um jovem em função de um jogador que lá para 2028 é capaz de vir a realizar um centro, tão incapaz é de entender o jogo colectivo (talvez porque não se desenvolveu na nossa Formação). Não havendo Pote, o substituto natural seria o Flávio, mas Rui Borges preferiu um velocista com pinta de cromo da Motown a um jogador de futebol e foi "compensado" com o golo do empate quando Alisson se atirou para o chão e abriu uma passadeira vermelha para um gilista marcar à vontade. 

O jogo começou logo mal com a opção de Rui Borges por dois laterais inoperantes no jogo ofensivo (Mangas ausente por lesão). Sem "carrileros" nas alas que atraíssem marcações para libertar Maxi e Trincão no jogo por dentro, o Sporting ficou totalmente dependente do seu jogo interior. Dada a enorme concentração de jogadores gilistas na faixa central, apenas um passe muito preciso poderia isolar alguém no comprimento. E isso aconteceu, quando Quaresma acionou o gps e fez a bola chegar ao destino que Suarez pretendia para a um só toque colocar a bola dentro da baliza do Gil. Como o golo aconteceu mesmo em cima do apito para o intervalo, o Sporting regressou ao balneário em vantagem no marcador. 


No segundo tempo, Suarez desperdiçou um penalty em movimento após boa movimentação de Trincão. Como Maxi não estava a ter bola, Rui Borges pensou em recuá-lo para lateral, a ver se a equipa conseguia ter comprimento e largura. Mas com isso veio o equívoco: em vez de escolher um jogador interior, Borges optou por Alisson. Se a ideia era ter espaço nas alas, a entrada do brasileiro atraiu mais um adversário para o marcar, o que significou que o corredor ficou sobredotado de jogadores, sem nenhum benefício para o jogo interior porque Maxi havia recuado no terreno. É que o futebol é tempo (execução) e espaço (destino), e a esse espaço deve chegar-se à hora certa, não antes (lá estacionado) nem depois (atrasado). Para complicar ainda mais as coisas, Inácio fez-se expulsar por défice de velocidade e a Alisson foi pedido que passasse para a direita. Com o Gil sempre a despejar bolas para o segundo poste e a tirar muitos centros da esquerda para a direita da nossa defesa, tal opção foi desastrosa, até porque já antes Fresneda (jogo péssimo) havia falhado a marcação e só por milagre Rui Silva conseguira evitar o golo. Mas, ainda assim, Rui Borges decidiu-se por esse verdadeiro hara-kiri e o resultado foi o que se viu. 

Com este tipo de opções do seu treinador, o Sporting não perde só o campeonato, perde também o futuro. Por muito que Tomaz Morais apresente modelos de Formação centrados no desenvolvimento do jogador jovem, o treinador da equipa principal vai sempre pedir uns presentes no sapatinho de Natal (que, dada a dimensão requerida, é feito sob medida nos estaleiros da Lisnave). E o presidente anui, dando a imagem para dentro (sócios e adeptos) de que deu tudo ao seu treinador para ele ganhar. Então vêm o Luís Guilherme e depois o Faye, a Formação é colocada numa gaveta ou mesmo mandada às urtigas, Frederico Pilatos lava as mãos ou assobia para o lado  e no fim do campeonato dá-se mais uma voltinha ao mercado. Para disfarçar, no defeso far-se-ão mais umas obras em Alcochete, nomeadamente com a construção de uma ladeira, do alto da qual se poderá projectar esse pedregulho chamado Formação, que na verdade não é mais do que um Castigo de Sísifo imposto aos Sportinguistas. A Centrai de Comunicação logo ecoará umas lendas&narrativas (uma "cava" de cave, que não é Alexandre Herculano quem quer) e tudo continuará na paz ido Senhor. Bater-se-ão umas palminhas, que Alcochete é uma casa bonita e com "cachet" para mostrar aos amigos, e mudar-se-á somente o essencial para que tudo fique exactamente na mesma. Como no Leopardo, do Lampedusa, ainda que nós sejamos leões. Fica tudo em família...

Nota complementar: o Barcelona tem na sua equipa principal doze jogadores sub-23 formados em La Masía já utilizados esta época em La Liga, seis deles ainda sub-18 (dois com apenas 17 anos). E não são visitas esporádicas, para "inglês ver". 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma (o melhor defesa por uma milha de diferença e o jogador que mais acções com critério realizou em todo o jogo)

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