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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

29
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Liga do Schopenhauer


Pedro Azevedo

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A vida não está nada fácil para o Rui Costa. A doutrina de Schopenhauer explica tudo: o mundo que o presidente do Benfica percepciona é uma elucubração em que os sentidos recebem contributos do exterior que depois o seu cérebro traduz ("Representação") de forma minimalista em cores vermelhas ou verdes. Segundo essa mesma filosofia, no comportamento instintivo de Rui Costa ("Os Comunicados") afirmam-se tendências que não são mais do que disfarces sob os quais se oculta uma vontade única ("O Condicionamento"), como se as formas reconhecidas de consciência não passassem de ilusórias aparências e a essência das coisas fosse totalmente alheia à racionalidade. Assim, focado obsessivamente no adversário, Rui Costa tem preferido procurar incendiar o ambiente à volta do Sporting do que apagar o fogo que grassa na sua própria casa. 

 

Logo no dia em que decidiu trocar os binóculos de infra-vermelhos, com que espreita continuadamente a actividade do Sporting, por um telescópio instalado no Bom Jesus, o presidente do Benfica viu Braga por um canudo. Com o Benfica a ir de empate a empate até à derrota final (contratando Mourinho, o clube da Luz parece ter comprado uma derrota a prazo a ser paga em suaves prestações mensais), o Sporting é agora o único obstáculo do Porto no caminho para o título. Hoje, em Alvalade, a dinâmica tardou em aparecer, mas bastaram 8 minutos no segundo tempo para o triunfo se consolidar sem discussão. Para tal, um trio maravilha foi fundamental: Maxi, Suárez e Quaresma. O uruguaio foi o catalisador do jogo atacante do Sporting, o colombiano traduziu em eficácia essa catálise e o português foi o inibidor que interrompeu qualquer tentativa de reacção vilacondense. 

Tendo boa consciência das teorias de Schopenhauer, mas fiel à dialéctica hegeliana, o Sporting sabe que o Porto chega ao fim do ano com uma tese alinhavada sobre ser campeão e tem procurado comunicar no relvado a sua oposição ("antítese") a essa pretensão, desejando que no final a síntese lhe seja favorável. Porque os jogos vencem-se nos relvados, e não em comunicados para a imprensa, e é aí que o Sporting comunica da forma mais eloquente (entre marcados e sofridos, uma diferença positiva de 9 golos para o FC Porto e de 15 golos para o Benfica). Apesar do "Empata One", tão especial...

Tenor "Tudo ao molho...": Luis Suárez 

24
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Vertigens


Pedro Azevedo

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Depois da ameaça de participações à FIFA, UEFA, ONU, Comissão Europeia, Instituto de Socorros a Náufragos, Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (organismo responsável pela protecção da Águia-Real), que teve continuidade numas quantas visitas de Rui Costa ao Muro das Lamentações - tudo embrulhado na emissão ininterrupta de quantidades de CO2 ("COMUNICADOS") suficientes para poluir inapelavelmente o ambiente desportivo nacional -, o clube da Luz recebeu de presente um penalty com a assinatura do Pai Natal do VAR.  Um ponto (ou melhor, três) a favor de Rui Costa, que fiel ao ditado de que "Quem não chora, não mama" foi capaz de deixar todos os funcionários do seu clube à sua espera para jantar enquanto ele via, com a habitual gula comunicativa, um jogo do rival Sporting. Chorassem! [Para estimular o apetite do Rui, um Comunicado duas vezes ao dia produz-lhe o efeito placebo equivalente à toma de Complexo B(enfica) Forte.] 

 

Confesso que esta coisa de ter o Rui Costa com binóculos de infra-vermelhos em punho sempre a espreitar para nossa casa me incomoda um bocadinho. Desde logo porque se associa muito o Benfica a vouchers mas não tanto a voyeurs (se excluirmos as solícitas "Toupeiras", claro). Por isso, a ideia de sentir o presidente das águias do outro lado da Segunda Circular a fazer-nos vigilância, enquanto fuma dois maços de Marlboro encarnado e rói uns torresmos bem durinhos que o Mourinho lhe preparou num Tupperware para as vigílias nocturnas, faz-me lembrar umas cenas do "Vertigo", do Hithcock, com um Rui Costa muito obcecado e cheio de medo (e de vertigens) do patamar alto em que o Sporting tem estado neste último triénio. 

Para continuar em alta, o Sporting precisava de entrar no Natal com uma vitória em Guimarães. Sem Pote e com Rui Borges renitente em apostar num jogador com características semelhantes (Flávio Gonçalves), preferindo assim mudar a forma de jogar da equipa (inclusão de mais um ponta de lança) enquanto espera também ele por um presente do Pai Natal Var...andas que objectivamente será um castigo de Sísifo aplicado ao trabalho da Formação. 

Como bom grego que é, Ioannidis não é homem para se pensar que não parte um prato. Pelo contrário, se o deixarem, quebra mesmo a louça toda. Dizem que dá sorte! Vai daí, esteve em 3 golos do Sporting, mostrando que não é só um jogador de procura de "profundidade" (o Júlio Verne e as suas 20.000 Léguas Submarinas são uma inspiração para o jornalismo desportivo, também ele à míngua de um Capitão Nemo que o salve do naufrágio) mas também tem técnica e visão de jogo para actuar atrás do ponta de lança. Além de que há anos que não tínhamos um ponta de lança tão bom de cabeça, o que é uma valência que acumula com uma frieza na hora da finalização que não tem comparação com a de Suarez (enquanto a baliza para o grego é o Rossio, ao colombiano, em tudo o resto um bom jogador, assemelha-se à Rua da Betesga).

 

Com Rui Borges mais uma vez a surpreender através de uma dinâmica nova, com Maxi mais por dentro e Mangas como "cavalo à solta a galopar contra a ternura" (Ary dos Santos) em todo o corredor esquerdo, o Sporting conseguiu uma superioridade numérica no meio campo através do uruguaio e de Simões, Trincão e Ioannidis, havendo sempre um homem livre a encontrar espaço dentro do bloco do Vitória. Isso, associado ao bar aberto que constituiu o lado direito da defesa do Vitória, esteve na origem da vitória gorda do Sporting, que, quando parecia que tudo estava na paz dos céus, chegou a ser ameaçada por um Arcanjo dissidente e com um nome (Telmo) que nem consta na Bíblia, certamente por não ser portador de boas notícias. Também não ajudou ao Sporting o facto de Rui Silva ter aberto a capoeira... 

 

Esta coisa de um Arcanjo desavindo pôr em causa a vontade de Deus deu logo azo à aplicação da Lei do Talião: olho por olho, frango por frango, a punição ao Vitória surgiu através de uma punição exactamente proporcional ao dano a nós causado. Um caso de Justiça Retributiva, mas sem a participação da AT. Tempo ainda houve para Maxi colocar o 4-1 final no marcador, num jogo em que o mago Trincão encantou no esplendor de toda a sua fantasia.  

Entretanto, na Luz, sozinho no seu gabinete e de televisor já arrancado intempestivamente da ficha, por entre sinais de fumo enviados a Mourinho a pedir explicações para os 11 golos de diferença face ao rival lisboeta (estas coisas fazem-se em código), Rui Costa prepara a redação de mais um Comunicado para a noite de Consoada. Para consumir com o bacalhau (mas já sem o Brás para lhe fazer companhia)...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão 

22
Dez25

É Natal!!!


Pedro Azevedo

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"A Poesia do Drible", num rigoroso exclusivo mundial, tomou conhecimento a partir de notícias plantadas na imprensa pela Comunicação do Sporting que Três Magos licenciados pela FIFA (é preciso ser Mago ou muito sábio para desencantar um craque a bom preço nesta janela de mercado), provenientes da Índia, Pérsia e Arábia Saudita, se juntaram nos Açores (a razão pela qual escolheram a Rota do Atlântico permanece desconhecida, mas pode trazer "água no bico") e desde aí têm estado a guiar-se pela estrelinha (de campeão) que se desloca na direcção de Alcochete, onde contam chegar na madrugada de 24 para 25 a fim de oferecerem um presente ao menino Rui Borges. Na cerimónia não estará presente o professor Tomaz Morais, nem a ocasião será favorável para a apresentação do seu Modelo de Formação Centrado no Jogador. Até porque qualquer modelo de Formação só será viável se centrado no treinador da equipa principal, e este, fazendo fé nas "Escrituras", só muito mais tarde se irá rebelar contra os "Vendilhões do Templo". 

PS: Umas Festas felizes a todos os Leitores e Comentadores de "A Poesia do Drible". 

19
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Modernidade Líquida de Bauman


Pedro Azevedo

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Sob o impulso de uma cabeça brilhante (Pedro Proença), o Renascimento Tuga voltou ontem a dar ao mundo um glorioso exemplo de como por cá brotam em catarse as ideias mais inovadoras: nos Açores, a Taça de Portugal ganhou um toque de modernidade com a introdução mundial dos três prolongamentos (em bom rigor, um "varlongamento" a anteceder dois prolongamentos). A concorrer para essa novidade esteve uma unha (en)cravada de um jogador do Santa Clara no pescoço sensível do Hjulmand. Dada a proximidade com a carótida esquerda do dinamarquês, dizem as más línguas que a delicada operação terá sido entregue à precisão do bisturi de um reputado cirurgião, mas "A Poesia do Drible" está em condições de garantir ao Leitor que a intervenção foi tão só conduzida por uma manicure de Ovar, o que justificará os 15 minutos de tagarelice perdidos e a coscuvilhice que se lhe seguirá durante semanas, com o clube da mão de Vata, da Taça da Carica, dos vouchers, Mala Ciao e das toupeiras logo a emitir um comunicado onde se queixou da desventura (e não Boaventura) e aquele italiano que fala "ingalês" em Portugal (é sempre curioso ouvir um italiano a falar "ingalês" em qualquer parte do mundo) a dar uma alfinetada na Modernidade Líquida de Bauman, em que a ciência e a técnica se sobrepõem à incessante busca da verdade consubstanciada em ancestrais tradições como as do "Golden Whistle", sendo esta um último resquício da Modernidade Sólida que em Portugal perdurou até ao primeiro lustro do novo milénio (em Portugal há tradições que demoram sempre mais um bocadinho a serem erradicadas).  

Todos aqui sabem que sou um grande defensor do trabalho do nosso treinador, mas ontem Rui Borges fez quase tudo o que estava ao seu alcance para perder o jogo. Comecemos pelo fim (para variar): nas últimas semanas, vários adeptos do nosso clube vêm-me sugerindo que lançar o Flávio de início seria queimar o jogador, que o mais recomendado seria pô-lo em campo só quando os jogos já estivessem resolvidos a nosso favor, de preferência após as torres de iluminação se apagarem e tudo (acrescento eu). Pois bem, depois de desperdiçar mais de uma hora com aquele electrizante sósia do James Brown que desconhece por completo a razão pela qual os ingleses (que criaram o jogo) designam o futebol pelo termo "association" (é mais um réu do solo do que um rei do soul) e de ter perdido o controlo do jogo com a troca de Simões por Kochorashvili, Borges decidiu finalmente mandar o Flávio para o relvado como o salvador da pátria, aos 90 minutos e com a equipa em desvantagem no marcador. Não foi um queimanço qualquer, mas sim um crematório inteiro, o que demonstra como todos os considerandos sobre o tema partiram de um pressuposto errado, que na verdade a gestão de Rui Borges obedece a uma burocrática pirâmide vertical de múltiplas hierarquias onde na base se encontra a Formação (foi preciso perdermos 7 pontos no campeonato para o Simões ser indiscutível para o treinador). Contudo, como a verdade é tal qual o algodão, o jovem logo se destacou com 2 passes açucarados para golo, um evitado in-extremis por um açoriano, outro ingloriamente desperdiçado pelo Ponytailshvili, entre outras combinações interessantes com o Ioannidis (com o Mangas não há combinações possíveis, apenas arranjos ou remendos, que ele só obedece a estímulos como o da lebre mecânica nas corridas de galgos). 

Mas não foi só o Borges que esteve em dia não. O Inácio, por exemplo, entrou em campo com uma bomba relógio no lugar do GPS, ameaçando fazer-se explodir (e tudo à sua volta) de cada vez que a bola se acercava de si. Pelo que o Quaresma teve de ser um Ministro da Defesa actuante, que liderou pelo exemplo, saindo do gabinete para no terreno tratar de desmontar a maioria das múltiplas minas e armadilhas que o Inácio lhe colocou pelo caminho. Com o Trincão a evidenciar toda a sua classe... turística, a nossa esperança residia ainda assim no Maxi, só que este viu-se obrigado a jogar fora da sua posição, produto de um arranjo táctico de Rui Borges que privilegiou que o Alisson mantivesse a sua posição na esquerda (não admira que a esquerda esteja como todos sabemos). 

Do jogo retira-se de positivo um grande golo de Simões, numa acção de "campião" (campeão já ele é) em que primeiro amorteceu a bola e depois inverteu o seu movimento para rodar no sentido dos ponteiros do relógio e meter a bola à hora certa dentro da baliza do Santa Clara. E depois houve a confirmação de Ioannidis como temível goleador de cabeça, marcando o golo que nos deu a passagem à próxima eliminatória. O resto expôs à saciedade a razão pela qual um brilhante táctico como Rui Borges ainda não é consensual, qual general preso no seu próprio labirinto de hierarquias com que procura manter o balneário satisfeito (e a Formação na cave). 

Tenor "Tudo ao molho...": João Simões 

17
Dez25

A Causa das Coisas


Pedro Azevedo

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No princípio era o sortilégio da bola, aquela "criatura" rebelde que eu via animada de livre arbítrio enquanto rolava e saltitava à minha frente. Não podendo ser domada, ensinada, adestrada, havia pelo menos que poder dominá-la, controlá-la, impôr-lhe a nossa vontade, e esse era todo um desafio. Jogar à bola era só a consumação do amor, mas primeiro era preciso merecê-lo, nem que para isso fosse necessário recorrer à manufactura caseira para improvisar um objecto redondo a partir de umas meias de vidro. Outras vezes havia que estudar a relação da bola com o vento, que parecia soprar com mais ou menos nós conforme a bola fosse de plástico ou de borracha. A bola de cautchu era o nirvana de qualquer miúdo, o banquete para todos os sentidos. Com uma bola "oficial" nas mãos, a ideia de jogador da bola ficava completa com a camisola do clube de eleição no dorso. A minha, a do Sporting, foi comprada na Socidel, a casa que anteriormente havia sido do melhor de nós todos, o incontornável Peyroteo. 

 

Aos 8 anos, o sortilégio passou a ser o estádio. A paixão que me chegou por uma onda média (rádio) agigantou-se num tsunami. A minha primeira ida a Alvalade, o coração a bater aceleradamente no caminho, as luzes, o público, as balizas, a relva. Que emoção! Uma estreia de fogo, contra o Porto. E uma vitória, concludente, por 5-1, que se tornou inesquecível. No estádio vi passar todos os meus ídolos, com uma única e honrosa excepção: o meu primeiro ídolo nunca vi jogar ao vivo. Ouvi-o, imaginei-o, como naquela tarde contra o Benfica em que através da telefonia sem fios o relatador gritava a plenos pulmões um golo de cabeça apontado a 20/30 centímetros do solo, ou como naquela tarde de passeio de automóvel dominical em que marcou 5 golos a um guarda-redes do Oriental que curiosamente se chamava Azevedo (não há coincidências) como eu. Também o vi, fugazmente, pela televisão, num tempo em que "a bola" raramente passava no pequeno ecrã. Falo-vos de Yazalde, que eu associo sempre à minha ideia de Sporting. A minha paixão pelo clube nasceu com ele, e o primeiro amor nunca se esquece.

 

O tempo foi passando e durante muitos anos o meu ídolo foi o Manuel Fernandes. Chegou Keita, Jordão ou Oliveira, mas eu mantive-me fiél ao Manél de Sarilhos. Pequenos de nascimento, grandes para os adversários. Durante alguns anos essa minha idolatria foi partilhada com outros dois jogadores geniais. Eram o Damas, que falava com os pássaros e era esteticamente irrepreensível nesses seus vôos, e o Fraguito, o primeiro homem que eu vi usar a trivela, classe pura ao ritmo do samba que os Vapores do Rego entoavam da bancada e um GPS no seu pé direito. Infelizmente, os joelhos não deixaram o transmontano ir mais longe, para meu desgosto e pesar de todos quantos amam o futebol. Quando o Samuel (primeiro), o Manuel (depois) e o Vítor (por fim) acabaram, senti um vazio. Gostei das "unhas" Douglas e Silas, mas o meu coração palpitava mais por duas estrelas que nunca confirmaram o seu imenso potencial. Eram o Litos e o Xavier, já que o Futre, de quem tanto gostava, nos deixou prematuramente. Do Xavier guardo uma memória mais recente: num torneio do Clube Sétimo, ali para os lados do Parque Eduardo VIIº, a minha empresa defrontou-o na fase de grupos. Calhou-me vigiá-lo durante alguns minutos, que é como quem diz marcá-lo com os olhos e poder de perto admirar o esplendor da sua ainda prodigiosa e intacta técnica - "Ó Xavier, também não havia necessidade daquele "elástico", não é assim?" - , ao serviço de uma equipa onde também figuravam o seu irmão Pedro, o Carraça (a fazer jus ao nome, sempre a agarrar), o José Eduardo (durinho...), o Sotil, entre outros. Quis o sortilégio que ambas as equipas se tivessem apurado para a fase a eliminar, eles em primeiro como é óbvio, nós em segundo. E no mata-mata lá fomos sobrevivendo até ambos chegarmos à final. Ainda sonhámos - estivemos a ganhar por 3-1 muito à conta do pé leve do Pestana e da garra do Vilhena - , mas eles acordaram ainda a tempo e bateram-nos por 5-3. Na cerimónia de entrega dos prémios, a classe demonstrada na quadra pelo Xavier transferiu-se para a sala de jantar: um senhor. E eu, esmagado pela idolatria, senti-me pequenino para lhe dizer que ele era um dos meus eleitos...

 

Na década de 90, presenciei um quarteto de cordas de enormíssimo nível: o Sousa, o Cherba, o Bala e o "Pastlhas" tocavam uma música diferente de todos os outros, eles eram os "Fab Four". A seguir houve um hiato. Eu sei, tivemos João Pinto, Quaresma, Jardel, mas aquele que mais se aproximou do meu afecto foi o André Cruz, que parado mexia mais no jogo do que 10 formiguinhas trabalhadoras. Voltei a acalentar esperanças com Matias Fernandez, um jogador que poderia ter sido um dos imortais, mas a quem sempre pareceu que a vontade não acompanhava a capacidade ilimitada que tinha com os pés. Depois, um longo interregno. Muita burocracia, por vezes mais eficácia, mas a ausência daquele toque de genialidade. Até que vi o Bruno Fernandes, o Pote e o Gyokeres e eles reconciliaram-me com as memórias de outros tempos. 

 

O Sporting no seu estado puro é isto. Nesse estado, a paixão pelo clube confunde-se com o amor que temos ao jogo e a quem nele se destaca. Os jogadores são a razão disto tudo, a bola também. O estádio oferece a moldura perfeita. Sem espectadores, o futebol é como manteiga sem sal. Um artista sublima a sua arte perante uma audiência, sem ela perde a razão da sua existência. O segredo é a partilha, e é isso aquilo que um futebolista oferece ao seu adepto. Reparem que neste texto nunca falei de presidentes. E porquê? Porque se não são eles a razão do nosso amor pelo clube, também não podem ser a razão do nosso afastamento. Viva o Sporting! Viva o Futebol!

 

(*) Escolhi o título de um livro para mim marcante, de Miguel Esteves Cardoso, por ser aquele que melhor ilustra a relevância da origem desta paixão, algo que vejo negligenciado em muitos adultos que se esquecem que um dia foram também eles crianças. 

14
Dez25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O melhor do mundo e de Mirandela


Pedro Azevedo

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Se um treinador se medisse só pelo seu modelo de jogo e qualidade das dinâmicas nele empregues, o Rui Borges seria provavelmente o melhor treinador do mundo e arredores e também de Mirandela (o pleonasmo aqui usado foi só para que a Sofia Oliveira não se chateasse, que ela tem o preconceito de que atrás dos montes há um micro-cosmos onde só existem tabernas e uma obsessão com a imagem do Rui Borges à mesa a escrevinhar tácticas em toalhas de papel manhoso enquanto manda abaixo uns penáltis... de verde). Sendo isso o essencial, não é tudo. Há depois que fazer correctas escolhas de jogadores (o elenco para a época e para cada jogo), manter a personalidade da equipa independentemente da adversidade (ou adversário, ou currículo do treinador adversário) e saber comunicar para dentro e fora [no caso do Sporting implica ser muitas vezes treinador-presidente, as mesmas em que o presidente se ausenta para tratar da fisiatria dos portugueses ou para servir o país, na Junta de Freguesia, em Kandahar ou simplesmente jogando à sueca (fomento das relações bilaterais entre 2 países).]


Durante a semana acalentei a esperança de que o Flávio Gonçalves ocupasse o lugar do Pote. Fi--lo não olhando ao bilhete de identidade, mas tão somente à semelhança de características que unem o Flávio ao Pedro e às boas prestações recentes do primeiro na B, Youth League e selecções jovens de Portugal. Mas o Rui Borges não me fez a vontade (raramente a faz quando se trata de jovens) e apresentou Mangas de entrada. Ora, toda a gente sabe que Mangas nem para entrada, nem para prato principal, só mesmo para sobremesa, pelo que logo aí se percebeu que a escolha foi bizarra. Não contente, o Rui lançou mais tarde aquele rapaz que fomos desencantar à "(Mo)town" de Leiria, o desconcertante Alisson, que, pelo razoável desconhecimento do jogo e simultaneamente forma electrizante como se entrega ao mesmo, a gente vê mais a entoar o "What's Going On?" do Marvin Gaye ou a fazer de duplo do James Brown no frenético "Night Train" do que efetivamente a jogar à bola. E assim, num jogo que dava para tudo, desperdiçou-se a oportunidade de também dar mais minutos ao Salvador. O Kochorashvili também jogou. Se o futebol para Javier Marías é a recuperação semanal da infância, a utilização do georgiano serve o propósito de nos recordar semanalmente porque perdemos 5 pontos contra o Porto e o Braga. Não é mau jogador, claro, mas ou evolui muito ou será sempre curto para o Sporting, qual Kocho amputado do "rashvili" (só sobrou o rabo de cavalo). 

 

Quando não lhe esfregam durante uma semana o currículo do Mourinho na cara, o Rui Borges pode concentrar-se naquilo que é muito bom: aprimorar o seu formidável modelo  de jogo e preparar a próximo encontro. Foi o que aconteceu antes da recepção ao AVS, um clube com um nome em forma de assim, que em forma de assim também é um campeonato em que o Casa Pia joga em Rio Maior e onde um nome sem clube lá dentro (B SAD) jogou durante anos no Estádio Nacional, assim mesmo, Nacional, para que o paradoxo da situação fosse inequivocamente bem português. E assim, contra um clube com um nome feito na hora, à hora de jogo já o seu desfecho estava mais do que feito. Na verdade até antes, que os primeiros golos vieram em trio, como nas corridas de touros, com um picanço inicial sob a forma de tércio de varas, seguido por um tércio de bandarilhas, para terminar num tércio de capa e espada. Tudo em acelerado, que, como consequência, o AVS morreu na arena (relvado) em 5 minutos. A coisa poderia ter ficado por aí, mas quando se tem um jogador como Maxi Araújo todos os jogos são para serem levados a sério, não há tempo para brincadeiras. (O uruguaio por vezes parece um bebé com raivinha nos dentes, num desassossego permanente, nesse transe não deixando dormir quem esteja à sua volta.) Suarez, Maxi e Catamo marcaram na primeira parte e voltaram a fazê-lo no segundo tempo, ao jeito de uma peladinha que muda aos três e acaba em meia-dúzia. E mais não foram porque Rúben Semedo, outro produto da nossa Formação, não permitiu, deixando-nos a amarga sensação do seu presente (em Aves) não ser mais aquilo que o passado chegou a augurar para o seu futuro. Por falta de cabeça, como outros com igual ou até superior talento. 

Tenor "Tudo ao molho...": Maxi Araújo 

12
Dez25

A angústia da bola antes do craque


Pedro Azevedo

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Há vários dias que a bola se sentia vazia, sem ar, frouxa, à beira de ver os seus planos furados porque tratada ao pontapé e exposta aos maus tratos e tortura daqueles que com ela não sabendo lidar a magoavam mesmo sem querer. Ainda que com as orelhas a arder, caprichosa, orgulhosa, qual Mustang ela resistia ao domínio de quem a queria adestrar, nem que para isso tivesse de produzir alguns efeitos concebidos apenas para ludibriar. Até que conheceu o craque. Mal tomou contacto com ele, a bola reconheceu imediatamente o toque diferenciado de quem sabia o que estava a fazer, o trato seguro e confiante daquele que nunca mais deixou de a ter por perto, intimamente. Trocaram carícias. Nesse instante, o seu estado de alma alterou-se. Inchou de alegria com a sua nova conquista, ficou mais redondinha, tornou-se dócil e meiga. Já não precisaria mais de correr inebriadamente sem sentido ou de voar para parte incerta. Com o craque, bola e chuteira fundiram-se num só, unidos numa "ligadura funcional" onde não se percebia onde terminava o esférico e começava o pé. E viveram felizes para sempre, para gáudio dos meninos que todos os dias ensinam os mais graúdos que o essencial do futebol é a bola e os jogadores e o que está à sua volta é como uma moldura, que pode ser neutra, melhorar ou piorar a obra de arte original. 

11
Dez25

O que os ecos da Luz nos dizem


Pedro Azevedo

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Considero os ecos do jogo da Luz e nomeadamente o desagrado dos nossos adeptos com a exibição (mais do que com o resultado) como um sinal muito positivo, de exigência mas também de evolução. Empatámos na Luz, onde ontem o campeão italiano e líder do seu campeonato perdeu, e perdemos em Munique pelo mesmo resultado que o campeão do mundo Chelsea foi derrotado e contra uma equipa que já nesta edição da Liga dos Campeões havia vencido em Paris o actual detentor do troféu maior do futebol europeu. Como consequência, houve muitas críticas. Mas isso é bom, na medida em que não se vai longe pensando pequeno. Ademais, os adeptos só têm essa exigência para com a equipa porque ela já provou ser capaz de jogar um bom futebol, na minha opinião o mais elaborado tacticamente entre os clubes portugueses. E isso é também produto do muito mérito de Rui Borges, um treinador muito forte no trabalho de campo e que tem uma bela ideia de jogo, a quem só faltará uma outra conscencialização da sua própria competência (por vezes a humildade em excesso do líder, que é um valor que enobrece qualquer indivíduo, limita o colectivo que está à sua volta e a prossecução de objectivos mais ambiciosos) e a destruição de certos preconceitos com a idade dos jogadores da Formação, alguns deles a já mereceram mais oportunidades. [ Para jogar no espaço entrelinhas onde Pote é rei, Flávio Gonçalves é muito melhor opção do que Alisson porque replica muito melhor os movimentos do habitual titular da posição, enquanto Alisson é essencialmente um jogador que estica o jogo no corredor mas não compreende tão bem o jogo por dentro. A consequência de Flávio não vir eventualmente a ser testado será mais uma corrida ao mercado e um investimento de umas dezenas de milhões de euros, ficando-se sem perceber se a solução não estaria em casa.]

10
Dez25

Tudo o molho e fé em Gyokeres

Orgulho e Preconceito


Pedro Azevedo

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O Einstein, que não era propriamente desprovido de inteligência, dizia que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito. No Sporting, o preconceito é a Formação. Todos a elogiamos e dela nos orgulhamos quando é preciso puxar o lustro às carreiras que Cristiano Ronaldo, Luís Figo ou Paulo Futre fizeram, embora na verdade todos se tenham evidenciado muito mais fora do que dentro do clube. Mas, depois, só realmente nela apostamos sem rodeios quando não há dinheiro. Caso contrário, o adepto é comido de cebolada com a ideia de que o jovem está a crescer e ainda não está preparado, razão sine-qua-non para mais uma voltinha ao mercado. Há voltas e voltas. Por exemplo, o Phileas Fogg deu a volta ao mundo em 80 dias. No Sporting, dá-se 80 dias no Verão para dar uma voltinha às segundas divisões de Espanha e Portugal. E vem um Kochorashvili e um Alisson, que sentam o Simões e o Flávio. Entretanto, após perdido o jogo com o Porto e empatado outro contra o Braga, ambos em casa, logo se descobre que afinal o Simões por artes de magia e mestria do treinador já está preparado para a competição do mais alto nível, pelo que sai o Kocho e entra o jovem da nossa Formação e se percebe que em dois meses perdemos 60 dias e talvez o campeonato. Desatamos a ganhar os jogos todos internos, mas quando toca a ir à Luz logo o miúdo volta ao banco e concomitantemente voltamos a não vencer. Será coincidência? 

Quando esta manhã propus que o Flávio Gonçalves, um émulo de Pote, de apenas 18 anos, que cresce em Alcochete e já leva 12 golos marcados esta época, entre equipa B, Youth League e selecções jovens de Portugal, fosse titular em Munique, logo, aqui d'El Rei, houve quem mostrasse a preocupação de que o jogador poderia ficar queimado. Enfim, há quem sinta o Sporting como quem vive a Queima das Fitas, sempre em festa com nova contratação, que um jovem pode ser queimado e não tendo a certeza é melhor jogar pelo seguro, isto é, torrar antes o dinheiro no mercado. Nesses pequenos pormenores percebemos a vantagem do Estado Social e sua providência de serviços de saúde que incluem por exemplo a triagem que é feita antes da inscrição na Unidade de Queimados. No Sporting também há esse Estad(I)o Social. Noutros países, muito menos avançados que nós, as coisas acontecem de outra forma. Por exemplo, na Alemanha, mais concretamente na Baviera, há um "pequeno" clube que dá pelo nome de Bayern onde hoje entrou como titular um miúdo de 17 anos que dá pelo nome de Lennart Karl. Se fosse português, haveria a preocupação de não o queimar. Como é alemão, apesar da idade e dos seus 1,68m distribuídos por 67kg que estão longe da ideia do Adónis jogador de futebol que por cá se tornou obsessão, foi lançado para a fogueira (a nossa é de vaidades). No fim, quem se queimou foi o Sporting, porque o miúdo marcou o golo que deu vantagem aos bávaros. É caso para dizer que o Karl está em boa Kompany (treinador do Bayern)! 

Temos um treinador tacticamente muito competente, super versátil nas dinâmicas que emprega à equipa, com óptima formação humana e extremamente conhecedor do jogo, mas depois falhamos na mentalidade nos jogos grandes e na nossa permeabilidade face ao preconceito. Ora, há que destruir o preconceito antes que ele nos destrua a nós. Ou não, porque cada vez que o preconceito nos destrói logo aparece um Nuno Mendes que se impõe a um Acuña, um Inácio que destrona um Mathieu, um Matheus Nunes que senta um Battaglia ou um Quaresma (o Quaresma tem ainda de viver com um problema que ocorreu na Idade Média ou com os adeptos que ainda vivem na Idade Média e não sabem o que é o Renascimento). E renascemos. E volta o preconceito, qual trabalho de Sísifo que também é um castigo dos deuses imposto aos Sportinguistas. 

Tenor "Tudo ao molho...": João Simões (por uma milha de diferença) 

09
Dez25

Ameaça ou Oportunidade?


Pedro Azevedo

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Quando escrita em chinês, a palavra crise (lê-se "Weiji") é composta por 2 caracteres: um significa "perigo", o outro "oportunidade". Por exemplo, Pelé jogou, encantou e foi campeão do mundo pelo Brasil em 58 na sequência de uma lesão do ponta de lança titular (Mazzola, também conhecido por Altafini, que mais tarde viria a tirar uma Taça dos Campeões ao Benfica) e Zidane só assumiu a batuta da selecção francesa após os castigos ou indisponibilidade de jogadores como Ginola ou Cantona. Por isso, a ausência de um jogador, ainda que da estirpe dos grandes como Pote ou Trincão, não deve ser vista só como uma ameaça, especialmente se existirem boas alternativas a bater à porta da titularidade, como é o caso de Flávio Gonçalves, um miúdo de apenas 18 anos que vem deslumbrando na nossa equipa B, líder da Segunda Liga. Espero assim que Rui Borges crie a oportunidade para este jovem (a alternativa principal seria passar Geny para o meio, manter Alisson a vir da esquerda e lançar Salvador Blopa na direita, mas não me parece a ideal porque Catamo é essencialmente um jogador de ala que quando em zonas interiores revela dificuldade na compreensão do tempo e espaço de execução, a outra passaria por adaptar Simões numa posição mais adiantada em relação a Hjulmand e Morita). O Flávio é, na minha opinião, o maior prospecto actual da nossa Formação. Tem muita coisa do Pedro Gonçalves, na inteligência como se move em espaços curtos e na forma como remata passando à baliza. Por isso, tem de ter a sua oportunidade para crescer e mostrar o seu futebol, quem sabe poupando assim umas dezenas de milhões de euros aos cofres do clube que estavam destinadas às contratações (entretanto falhadas) de Yeremay ou de Kevin. Porque apostar na Formação é também apostar na nossa própria sustentabilidade, e o risco (perigo ou ameaça) é sempre menor quando o objecto dessa aposta é um craque em gestação como o Flávio, internacional sub-19 por Portugal e já com 12 golos marcados esta época entre clube e selecções jovens do nosso país. 

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