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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

30
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

“Mas que nada”


Pedro Azevedo

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Não sei se elogio demais aqueles jogadores que fazem a diferença. Creio até que nessa abundância exaltativa sou pouco português, que por cá o que não sai de moda é elogiar ao melhor estilo do cinema mudo e insultar de megafone em punho. Vem este arrazoado a propósito de Francisco Trincão, um jogador que faz-me lembrar aquele slogan escrito pelo Fernando Pessoa para a Coca-Cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Por isso, ele foi tudo menos consensual nos seus primeiros tempos em Alvalade. E confesso que chegou até a ser uma das minhas irritações de estimação (as irritações, tal como os canários, os cães ou os gatos, não só são alimentadas diariamente como nos fazem muita companhia, daí serem muito estimadas, demasiadamente até na sociedade actual), como o arquivo deste blogue inequivocamente ilustrará. Mas, depois, tal como aquelas crianças que têm um desenvolvimento tardio gerado na hipófise, ele acelerou o seu processo de crescimento enquanto outros o estabilizaram, tornando-se um dos jogadores mais influentes do plantel. Hoje, voltou a ser decisivo: os nossos dois primeiros golos foram originados nos seus pés. Não esquecendo aquele slalom curto que fez um jogador do Estrela assemelhar-se àquelas bandeiras (portas) que existem no ski e servem para delimitar o percurso, infelizmente concluído com um remate torto. Bom, mas se o Trincão não se pode queixar de falta de atenção deste blogue, hoje a noite foi de Quaresma. Que maravilha! Não foi só ter inaugurado o marcador, o que é sempre importante. Não, o Quaresma deu um festival de bem defender, rápido quanto baste para fazer face aos velozes avançados do Estrela e sempre no sítio certo, no ar ou pelo chão, para evitar sobressaltos maiores. O Quaresma é um excelente jogador, todavia carrega com ele o peso do "mas". Na boca de cada um dos adeptos Sportinguistas, mais do que a pasta medicinal Couto, a constatação da sua evidente qualidade como futebolista vem sempre acompanhada por um "mas". É um "mas" essencialmente preconceituoso, porque advém de erros próprios da juventude e cometidos no tempo em que os animais ainda falavam. Só que, como um dia disse Einstein: "É mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito". Pelo que o Quaresma há-de ser um veterano e alguém ainda recordar-lhe-á uma falha ocorrida no tempo do paleolítico inferior. Talvez tenha a ver com o seu feitio extrovertido e jeito sorridente, coisa que o português pretere a quem tenha cara de enterro (o que causa uma sensação de seriedade e por isso faz parte do personagem criado pelos burlões mais requintados), ou então faz justiça ao Oscar Wilde quando sentenciou: "A cada bela impressão que causamos, criamos um inimigo; para se ser popular é indispensável ser-se medíocre". Para mim, o Quaresma foi indiscutivelmente o melhor em campo. Brilhantismo e zero erros. 

Voltando ao jogo, o nosso segundo golo fez-me lembrar o Brasil de 82. O Trincão parecia o Zico ou o Sócrates, primeiro a procurar o apoio frontal do Suarez, depois a isolá-lo com um toque de magia. Só faltou o lance ser acompanhado na bancada pelos batuques dos Vapores do Rego para um regresso ao passado: aos ecos de Sevilha, no tal Mundial, e ao ambiente da Superior Sul, no Sporting de Allison desse mesmo tempo. Nem de propósito, logo a seguir, o Quenda teve um remate a tirar tinta ao poste que mimetizou a "patada atómica" do Éder, outra grande figura dessa "Canarinha" do Mundial de Espanha. O terceiro, porém, acabaria por chegar ainda antes do intervalo, com Fresneda a cabecear para as redes após livre marcado por Geny. Seguiu-se uma etapa complementar de serviços mínimos, que na sexta-feira há ida à Luz e havia que poupar energia e salvaguardar o registo disciplinar. Deu ainda para Suarez bisar e para Morita figurar na assistência, um regresso aos números que se saúda de quem ultimamente parecia configurar uma qualquer anomalia estatística. Ainda bem, mas na Luz espero ver o João Simões. E assim terminou um jogo do campeonato português com um clube que em si mesmo é um oximoro, ou não houvesse uma equipa Amadora num escalão iminentemente profissional. 

Venha então o Benfica, que há uma derrota amarga na Supertaça para tirar a desforra...

Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma

 

P.S. Ah, será que quem desvaloriza a riqueza táctica que Rui Borges traz ao futebol do Sporting reparou naquele pormenor do Fresneda subir uma linha e encostar a um médio e ser o Geny a fechar como lateral? 

28
Nov25

Francisco Trincão


Pedro Azevedo

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Não é fácil encontrarmos o paradigma do típico jogador português, na medida em que a assimilação de várias culturas de treinadores estrangeiros que marcaram uma época em Portugal (Eriksson, Allison, Robson, Guttmann, Ivic, Szabo...) e o próprio êxodo dos nossos principais craques para os melhores campeonatos europeus tornam complicado encontrar essa identidade própria.  Mas se tivéssemos de escolher um jogador que transporta em si a carga genética de um futebol que no seu estado puro e não contaminado pelos espartilhos tácticos é feito de improviso, um herdeiro de Chalana, então esse futebolista daria pelo nome de Trincão. 

Quando Trincão dá aquela rodinha para se voltar de frente para o jogo é o vira minhoto que lhe exalta o movimento. E sempre que ousa sair da sua bolha e avançar por atalhos que nem o próprio sabe que destino terão, então é o espírito aventureiro das caravelas e dos marinheiros lusos dos Descobrimentos que o animam. Porque Trincão traz novos mundos ao futebol do Sporting, caminhos nunca antes explorados, portos exóticos onde acostar, especiarias raras. Como tantas outras expedições portuguesas no passado, as suas nem sempre terminam em glória, sendo até muitas vezes condenadas ao fracasso. Mas basta uma ser bem empreendida para logo se criar o mito. Como o da equipa gravitar toda à sua volta, uma perspectiva diferente de ver o modelo centrado no jogador. No caso, centrado num só jogador, Francisco Trincão. 

26
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Carta de Brugge


Pedro Azevedo

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Depois do jogo de ontem, em Amesterdão, a contar para a Liga dos Últimos, o futebol português regressou à Champions com a recepção do Sporting ao Club Brugge. De Brugge enviou Pedro, o das Sete Partidas e um dos vultos mais brilhantes da nossa história, uma carta ao irmão, D. Duarte, rei de Portugal. Nela, entre vários conselhos à governação sobre justiça, educação, finanças públicas e administração geral do reino, o infante advertia para a urgência da acção, que "aqueles que tarde vencem, ficam vencidos". Não sei se Rui Borges leu a Carta, mas o treinador do Sporting seguiu o princípio pouco português de que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje, nesse transe praticamente carimbando o passaporte para a fase seguinte da "Liga Milionária". Para isso, na ausência dos salões faustosos da corte do tempo de Pedro, Rui escolheu o relvado do José Alvalade para dar um baile ao treinador do Brugge. Um verdadeiro banho táctico que assentou na atracção à marcação homem a homem, seguida da dissuasão que levou os defesas do Brugge para longe da sua área e abriu espaços nas suas costas para a entrada de jogadores nossos vindos de trás. Se isto é alheira(bol), como dizem os afectados snobs seus detractores (sempre hipervalorizando a forma em detrimento do conteúdo), então foi demasiado indigesta para os da Flandres, não faltando ainda o ovo a cavalo (qualificação quase garantida) e os grelos (que são verdes, a cor da esperança) em vez das batatas fritas que seriam mais do agrado dos belgas (com as "moules", que assim quem se "lixou" foi o mexilhão). 


O Sporting cedo se adiantou no marcador após uma perfuração pela direita de Geny ter sido concluída com um remate deflectido pelo guarda-redes belga para as costas de Quenda, que abriu o baile com um rodopio que fez a bola anichar-se nas redes. Pouco depois, o mesmo Geny aproveitou a desertificação do interior provocada pelo êxodo dos belgas para zonas junto às margens e com uma voltinha isolou Suarez para um golo de grande requinte técnico. Antes do intervalo, o Sporting podia ainda ter ampliado o resultado, mas uma jogada de génio de Trincão terminou com um remate que tirou a tinta ao poste. 

Na etapa complementar, o Sporting procurou essencialmente gerir a vantagem no marcador. Isso acabou por provocar alguns momentos de tensão no nosso último reduto, o que não teria acontecido caso Suarez não tivesse entrado em modo carnavalesco e enfeitado demasiadamente um lance, perdendo um golo cantado. Assim, o Brugge chegou a agigantar-se, mas uma investida de Maxi (o verdadeiro "jogador à Sporting", cheio de raça) encontrou Quenda na profundidade e este centrou para Trincão, num "pas de deux" com Maxi, bailar antes de desferir um remate indefensável. Com o 3-0, o jogo terminou ali. 

Com a vitória de hoje, o Sporting entrou para o lote de 8 primeiros classificados que têm apuramento automático para os oitavos-de-final. Mais importante, tem agora uma vantagem de 4 pontos para o vigésimo quinto classificado (o primeiro excluído) e de 6 pontos para o vigésimo sexto, quando faltam apenas 3 jornadas para terminar a primeira fase. Não estamos ainda matematicamente apurados, se não fizermos fé em Pitágourinho, treinador do nosso rival (para quem 9 pontos serão suficientes), mas demos hoje um passo de gigante para garantirmos a qualificação. E sem o mágico Pote, Ioannidis e Debast, além dos lesionados de longa duração (Nuno Santos e Bragança). 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão (Geny seria uma óptima alternativa), pelas movimentações com ou sem bola que desestabilizaram por completo os belgas. 

 

22
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

In vitrum, veritas


Pedro Azevedo

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No meu tempo de criança, os miúdos sonhavam jogar em grandes palcos como o José Alvalade. Como são mais as vezes em que se sonha com os olhos fechados do que aquelas em que eles estão bem abertos, havia momentos em que a bola se transviava e acertava numa montra. A ocorrência permitia treinar questões de segurança como a rápida evacuação do improvisado recinto "desportivo" (nesse tempo denominado de "rua"), bem como praticar o sprint na fuga ao dono da loja. Lembrei-me desses sonhos de criança ao tentar captar o sentimento da maioria dos jogadores do Marinhense na antevisão da visita a Alvalade, muitos deles a pisarem a relva de um estádio grande pela primeira vez. 

 

O Marinhense trouxe o autocarro até Alvalade e o Sporting cedo procurou fazer a bola atravessar o seu pára-brisas. O Trincão conseguiu-o em duas ocasiões, mas, como a reposição do vidro não é um problema na Marinha Grande, os leirienses nem necessitaram de ir à Carglass. Salvador Blopa e Quaresma, respectivamente, foram os assistentes do primeiro e segundo golo: enquanto o Quaresma esteve majestoso a defender, o Salvador evidenciou-se pela qualidade do cruzamento, levantando a dúvida se não será já hoje uma alternativa vantajosa a Vagiannidis e a Fresneda para a posição de lateral direito.

 

Um outro jogador em destaque foi o Rodrigo Ribeiro, um miúdo com pés de veludo e compostura de craque, que se movimentou muito bem na frente do ataque e acabou por ser uma vítima da ausência do VAR (golo aparentemente mal anulado). Em contraposição, o Morita está absolutamente fora dos níveis mínimos exigíveis de rendimento. O que se passa com o nosso "Tsubasa"?

Quanto ao Marinhense, o seu dia teve tudo a ver com o material cerâmico que é ex-libris da cidade onde o clube se insere: o vidro é frágil, sim, mas tem brilho, e brilhante foi a resistência de um clube do quarto escalão do futebol português contra o bicampeão nacional. 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão 

16
Nov25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Era uma vez na América


Pedro Azevedo

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Para garantir já hoje a qualificação para o "Mundial das Américas" e não ter de andar de calculadora na mão (um "Casio" de estudo na história da nossa Selecção), Portugal necessitava de vencer a Arménia. Presente nos genes do empresário petrolífero Gulbenkian, do cantor Aznavour ou do xadrezista Kasparov, a Arménia nunca conseguiu no futebol gerar um vulto semelhante ao dos acima citados (o que mais se terá aproximado, Mkhitaryan, tinha nome de infecção fúngica por contacto, mas mesmo com ele a Arménia nunca conseguiu espalhar o pânico nos seus adversários), pelo que Portugal era amplamente favorito.  

 

Portugal não tinha Ronaldo, com quem ganhou 5-0 a este adversário em Erevan (é bom lembrar). Em compensação, Bruno Fernandes regressava e Gonçalo Ramos ia ter a sua oportunidade. Martinez optou desta vez por extremos assimétricos, com Leão a garantir largura e profundidade (uma melhoria face a Dublin), num flanco, e Bernardo a vir para dentro, no outro, e ainda os pezinhos de bailarino de Cancelo, na esquerda, a criar os desequilíbrios que Dalot não consegue tão bem promover, compensando assim melhor a ausência de Nuno Mendes. Na sequência de um livre apontado por Bruno Fernandes, Renato Veiga inaugurou o marcador, parecendo partir da posição de fora de jogo. De pronto a Arménia empatou, numa "balda" colectiva do lado esquerdo da nossa Selecção. O jogo complicou-se, mas Ramos interpôs-se num atraso arménio ao seu guarda-redes e com maestria voltou a colocar Portugal na frente. Se a margem era escassa, o talento de João Neves é transbordante: primeiro num remate de primeira a coroar uma jogada de futebol sambado a lembrar o Brasil de 82 (Semedo, Vitinha e Bruno, todos a um toque, prepararam o terreno para o remate do craque do PSG, que assim se estreou a marcar pela Selecção), depois na execução soberba de um livre directo, Neves ampliou a liderança de Portugal no jogo para três golos de diferença. Antes do intervalo, após uma pega de cernelha a Ruben Dias no encerramento da Feira da Golegã, Bruno Fernandes, de penalty, apontou o quinto golo. 

A etapa complementar serviu para lançar novos jogadores (Forbs, em estreia, Conceição, Matheus Nunes, Félix e Ruben Neves), mas João Neves e Bruno asseguraram que o ritmo continuaria alto. O médio do United conseguiu o seu hat-trick e logo Neves o imitou, recuperando assim o instinto goleador recentemente demonstrado no campeão francês. Antes do fim, Conceição apontaria ainda o nono golo. 

Após o jogo, Martinez mostrou-se crítico com os críticos. Como dizia o anúncio do Restaurador Olex, um branco de carapinha ou um preto de cabeleira loira não é natural, o que é como quem diz, "chacun a sa place": o treinador treina, os comentadores comentam. A não ser que se queira que os comentadores treinem (assim como assim, a cadela Laika não precisaria de dar a volta ao espaço para qualificar este naipe de ases de trunfo que compõe o baralho de Portugal) e o Seleccionador passe a comentador. Não se perderia grande coisa e o professor Marcelo até podia dar-lhe umas dicas...

 

Tenor "Tudo ao molho...": João Neves

13
Nov25

Tudo ao molho e fé em Ronaldo

Leprechons retiveram o Pote de Ouro


Pedro Azevedo

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Entre as coisas que fazem muito pouco sentido em Portugal está a escolha de Roberto Martinez para Seleccionador da equipa de futebol do nosso país: dá-se o paradoxo de termos alguns dos melhores futebolistas do mundo, que jogam no campeão europeu PSG ou em clubes de topo da Premier League e da Serie A italiana (e ainda Ronaldo, o maior goleador da história do futebol), a serem comandados por um homem que treinou o Wigan (na cidade, o clube de referência nem sequer é de futebol mas sim do Rugby League, a variante oval de 13 que se profissionalizou bem antes do mais conhecido Rugby Union, de 15) e um Everton muito longe dos seus melhores tempos. Não surpreende assim que o futebol de Portugal não tenha uma matriz própria (tem, sim, várias matrizes que se escondem sob a pomposa expressão "Versatilidade Táctica", mas cujo resultado é indecifrável para a maioria dos portugueses que são leigos em cálculo matricial), que a escalação do nosso onze seja habitualmente feita ao arrepio das características identitárias dos nossos adversários, ou que as substituições pareçam originadas nos bolinhos de sorte chineses. Ontem, num jogo contra uma equipa iminentemente física como a irlandesa, Martinez deixou Palhinha de fora em função de Ruben Neves (um dos fetiches de Roberto), menosprezando o impacto da primeira bola por alto e a intensidade, poder físico e raio de acção do médio do Tottenham. Depois, sabendo que não podia contar com Nuno Mendes e que o lateral esquerdo seria um pé direito e assim muito menos profundo, o Seleccionador escolheu para o acompanhar na ala um jogador sem rotina de corredor (João Félix), condenando o flanco esquerdo português à clandestinidade. Para complicar ainda mais a tarefa, Roberto Martinez apontou Bernardo para avançado pela direita, outro jogador com tendência para vir para dentro. Retirando à equipa uns bons 20 ou 30 metros de largura e outros tantos de profundidade, Martinez foi ao encontro das melhores características dos irlandeses, permitindo que se concentrassem no centro do campo e oferecendo-lhes combates de duelos corpo-a-corpo no miolo e rápidas transições nas costas da defesa lusa. E assim, se a reabilitação de Félix, tarefa que não se esperava fazer parte do cardápio de um Seleccionador. prossegue em bom ritmo, a da Irlanda acabou por ser de todo inesperada. Curiosamente (ou talvez não), uma coisa teve a ver com a outra, ou não tivesse nascido de uma total falta de compromisso defensivo de Félix, falhando a marcação ao jogador que de cabeça correspondeu a um canto, o primeiro golo irlandês. Não avisados por um prévio remate ao poste da nossa baliza, a Selecção ainda viria a sofrer um segundo golo irlandês antes do intervalo (má abordagem de Rúben Neves). 

No reatamento, Martinez fez uma substituição estapafúrdia e tirou o único homem (Cancelo) que estava a dar profundidade à nossa equipa. Também retirou aquele jogador que conseguia promover jogo interior sem oposição (Inácio) por troca com um Renato Veiga que, provavelmente contagiado pelo mais usual ambiente vivido no Aviva, impressionou no remate aos postes... de rugby. Como se já não fosse suficiente, de seguida o capitão Ronaldo fez-se canhestramente expulsar e o jogo terminou praticamente aí. Com tudo já perdido, então finalmente entraram o Trincão e o Leão, mais tarde ainda o Ramos, que após o intervalo se podia ter juntado a Ronaldo (o "Espalha-Brasas" Conceição desta vez não saiu do banco). 

No fim do jogo, o encantador de serpentes que também é Seleccionador de Portugal foi mais comedido na verve do que habitualmente. Não se estranhou. É que ontem a noite só deu palco a um papagaio (Parrott). 

Depois da qualificação pela segunda vez desperdiçada, vem aí o último match-point contra a Arménia. E há o espectro de ficarmos fora do Mundial. Para já, ontem, os leprechons retiveram o Pote de Ouro. 

Tenor "Tudo ao molho...": Vitinha

12
Nov25

Uma questão de Física


Pedro Azevedo

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Os árbitros e auxiliares estão habituados a determinadas trajectórias de bola - uma questão da Física, não do apito, mas que serve de apoio a decisões arbitrais (quando na dúvida). A deslocação do corpo (bola) na mente experimentada da equipa de arbitragem (consciente ou inconscientemente, o cérebro vai tipificando determinados padrões) figurava uma deflecção. E ela de facto existiu, simplesmente foi produto do levantamento  de um tufo de relva e não do corte de um jogador do Santa Clara. Já o canto não marcado a favor do Sporting, durante o primeiro tempo, deveu-se ao guarda-redes ter tocado na bola no exacto momento em que esta conectou o relvado, o que dificultou a percepção da equipa de arbitragem, acabando esta por assumir que a mudança ligeira de trajectória  da bola se havia devido ao embate no relvado (irregular) e não ao contacto com a luva do guarda-redes. Também aí se aplica a Física: quando um corpo sofre duas forças simultâneas, o resultado é um movimento que pode ser determinado pela soma vectorial das forças (Força Resultante). A direção e o sentido do movimento serão os da força resultante, conforme descrito pela Segunda Lei de Newton (Lei Fundamental da Dinâmica). Havendo honestidade intelectual, é assim tão difícil de entender as razões pelas quais a equipa de arbitragem errou em ambos os lances? Ou vamos continuar com esta lengalenga narrativa criada pelos dirigentes (e áreas de comunicação) dos clubes?

 

PS: Os jogadores, se jogarem mal, são apupados nos estádios e não têm como se defender, ficam em silêncio; os árbitros idem, com a agravante de receberem normalmente ameaças na sua vida particular. Já os presidentes chutam para o lado, deflectem (vem a propósito) as atenções dos adeptos, vêm a público e põem o odioso sempre em terceiros. Nesse transe, quem é que efectivamente se exime de assumir as suas responsabilidades e mostra não ter capacidade para aguentar a pressão? A resposta a esta questão explica o ruído ouvido este fim de semana. 

11
Nov25

Rui Costa e o julgamento da história


Pedro Azevedo

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Já com o troféu do Guinness de votação nas urnas (parabéns aos militantes benfiquistas) e a caminho de se celebrar como campeão intergaláctico dos comunicados de imprensa, o Benfica está mais para um partido político do que para um clube de futebol. Fazendo-se passar por uma força anti-sistema, permanentemente desafiando o sector de arbitragem e pontualmente hostilizando a própria Federação (os jogos caseiros da Selecção não voltaram a ser disputados na Luz, na sequência das ameaças contidas num comunicado do clube), o Benfica é o mais demagogo dos clubes de futebol: o seu presente lider (Rui Costa), pese a falta de memória recente, veio alegadamente do sistema dos sistemas (vouchers, mala ciao, e-mails, facturas...), mas vende a ideia de ser um reformista e renovador, embora à sua volta se tenham amontoado as demissões numa primeira fase. Julgou-se ser tudo produto da conjuntura eleitoral, mas os hábitos antigos emergiram mesmo com uma nova equipa e assim que reeleito partiu para novos ataques ao poder instituído que ele próprio ajudou a eleger, em nome da melhoria do futebol português (diz ele). Discriminando as minorias no caso dos DireitosTV, o presidente do Benfica não aliviará o tom populista até ter a maioria absoluta... de títulos, a tal sonhada hegemonia que em si própria tem laivos de um tique fascista ("Benfica uber alles") de um grande clube que se julga ungido à nascença e não se conforma com a realidade: a incompetência e erros próprios dos seus dirigentes do futebol que o afastam do sucesso em condições ideias de concorrência leal. Grande jogador de futebol do passado e indiscutível benfiquista, ninguém duvida que Rui Costa sente o clube como poucos. Mas a sua emergência como líder do clube, tal como a de outros, está cada vez mais longe de constituir a lufada de ar fresco que um novo estilo de dirigismo, de gente ligada quase umbilicalmente ao futebol, prometia. O detonador terá sido o Jamor, um (J)amor de perdição para o presidente dos encarnados que a partir daí cresceu em crispação na inversa proporcionalidade das prestações pobres da sua equipa de futebol. Porque é aí que reside o problema do Benfica, problema esse que é agudizado por quem acredita que a solução está em confrontar e condicionar os árbitros. Optando pelo ruído desenfreado, Rui Costa procura nessa estratégia desviar as atenções da indignação dos "índios", gerando assim uma mole de "idiotas úteis" de ocasião potenciadores de violência verbal e física, da qual, no fim, Rui Costa, presumivelmente, lavará as mãos como Pôncio Pilatos. À semelhança do que já ocorre recorrentemente no Pavilhão da Luz, quando entoa o ignóbil silvo do very-light. Conseguirá Rui Costa arrepiar caminho a tempo? Assim vai o futebol português...

09
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Faixa de Ga(n)za


Pedro Azevedo

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Santa Clara, ou Clara de Assis (originalmente Chiara d'Offreducci, uma nobre da cidade de Assis), foi uma santa milagreira que seguiu São Francisco e dedicou a sua vida aos pobres. Ontem, durante larga parte do encontro, pareceu que João Gonçalves quis muito juntar-se à causa de Santa Clara, pelo menos a avaliar pelo ar amarelado de João Simões e de Ivan Fresneda, que a esta hora ainda estarão a interrogar-se da razão para esse súbito ataque de icterícia que foi uma cortesia do árbitro da AF do Porto. Em especial, o amarelo ao médio leonino condicionou muito o nosso jogo, principalmente a partir do momento em que Rui Borges o retirou ao intervalo, com medo que a inexperiência do jovem o levasse a cometer uma imprudência que o fizesse expulsar. Com isso, o Sporting, depois de uma exibição avassaladora no primeiro tempo, perdeu chegada à área, facto reforçado após a saída, por lesão, do infortunado Pote. Antes, na primeira parte, o Sporting dominou mas não conseguiu mais do que repor o empate no marcador após um passe de cabeça à baliza executado por (quem mais?) Pote. Isto porque, cedo no jogo, Diomande aliviou mal uma bola à entrada da área e Fresneda mostrou que provavelmente Quaresma teria sido uma melhor opção para lateral direito e deixou Vinicius marcar o seu já habitual golo ao Sporting. 

Na etapa complementar, o futebol foi trocado pela pastorícia. [Um "back to basics", no sentido em que o futebol indústria voltou a ser (sector) primário.] O prado era abundante e com o tempo foi curiosamente ganhando altura (teriam sido as condições ideais para Cristiano Ronaldo, mas o GOAT já não mora cá). O "pastor" também não ajudou, apitando a qualquer mínimo desencontro entre o rebanho, assim causando um desnecessário alvoroço. Em compensação, Ioannidis sofreu trinta e uma faltas para amarelo na mesma jogada, mas João Gonçalves só tirou do bolso um. Até que Quenda acertou simultaneamente na bola e num tufo de relva e árbitro e auxiliar deram um canto ao Sporting. Foi o escândalo no parque de estacionamento do Seixal, até porque obviamente se tratou de um jogo de hóquei em campo onde já se sabe que um canto curto é meio golo. O mesmo ocorreu no parque de campismo e caravanismo (duas linhas de caravanas estacionadas a obstruir os caminhos para a baliza) de São Miguel, como se a cabeça de Hjulmand estivesse a prémio (e não a desconto... de tempo). 

Nas lendas e narrativas associadas aos "Herculanos" que elaboram cartilhas com que os adeptos são comidos de cebolada, a actividade é frenética. É sempre assim, nomeadamente quando o desempenho da actividade das equipas desses cartilheiros em campo é inversamente proporcional ao frenesim que invade os gabinetes onde se produzem os comunicados. Nesse particular, Benfica e Porto são hoje mais clubes de comunicados do que clubes de futebol. O Porto ganha com "vaca" ao Braga e logo alguém rumina um comunicado (estranhamente, pós-Utrecht nem um traque, que o respeitinho uefeiro é muito bonito e aquela expulsão do guarda-redes neerlandês até deu algum jeito), o Benfica produz comunicados sobre o comunicado e um comunicado sobre comunicados. Já não é um clube, mas sim uma empresa de seguros e resseguros (procurando que o prémio fique sempre em casa). Perante isto, o que deve o Sporting fazer? Sendo o Sporting composto por Sportinguistas, não haverá um leão no universo global de sócios e adeptos do nosso clube com sanidade comprovada que acredite que em algum momento na história do futebol português o Sporting tenha beneficiado, esteja a beneficiar ou venha a beneficiar de alguns favores de árbitros. Dá até imensa vontade de rir. Pelo que, perante tanto ruído, o silêncio será de ouro. O Benfica que continue a ganhar só os jogos em que a arbitragem o brinda com um penalty para abrir o marcador, que é para o lado em que dormimos melhor (a dormir não se elaboram comunicados). E o Porto que continue a impressionar na Europa com a sua "fisicalidade", perdendo e empatando com gigantes continentais como o Forest ou o Utrecht (sobre este último jogo, na SportTV, perguntaram ao Carvalhal o que lhe cheirava ir acontecer e ele respondeu que lhe "cheirava a haxixe", "a ganza"). No fundo, o Carvalhal teve parcialmente razão porque, se nos Países Baixos cheira muito a haxixe, em Portugal anda tudo "pedrado" e por isso estão a querer transformar o futebol doméstico numa Faixa de Ga(n)za. E a verdade é que, ao pé deles, o João Gonçalves, hoje com muitos erros, é um menino de coro, não se acreditando que dele venha desonestidade intelectual ou vontade de fazer mal ao futebol 

Benfica e Porto são hoje agências de comunicados ou de Comunicação com clubes lá dentro. No caso portista, alegadamente, as televisões também estão lá dentro... na cabine do árbitro. No que concerne ao Benfica, o recorde (impressionante) do Guinness dos 93 081 votantes não é nada quando comparado com o número de comunicados que se aguarda até ao final da temporada. Não se dê porém uma conotação negativa: estou em crer que se trata do embrião de uma ideia tão democrática que é até pouco comum num clube de futebol: atribuir 1 Comunicado a cada sócio pagante (e nas próximas eleições, os sócios poderão votar por comunicado). 

Tenor "Tudo ao molho...": Hjulmand 

05
Nov25

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Parábola da Cena Animal


Pedro Azevedo

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Um clube com o oximoro de denominar-se Juventus (juventude) e apelidar-se de "Vecchia Signora" (Velha Senhora) só por si já é de desconfiar, indicando que vem aí matreirice. Deviam por isso talvez chamar-se "Raposas", mas o único outro apodo deles conhecido é "Zebras", um animal da classe dos equídeos que ao contrário do cavalo ou do burro nunca foi domesticado e é conhecido pela velocidade e coice que desenvolveu para fugir do grande predador do seu habitat natural, o leão. Pelo que o desafio entre o Sporting e a Juventus foi uma parábola do ambiente da savana africana, com uma Juve mais veloz e agressiva nos duelos individuais e um Sporting a procurar atacar e ser letal pela certa.

 

Na antecâmara do jogo, não deixei de ficar intrigado ao observar um certo menosprezo da imprensa portuguesa por um adversário que já foi 36 vezes campeão de Itália (recordista da competição, com mais 16 títulos do que o Inter e mais 17 do que o Milão) e duas vezes vencedor da Champions. Pareceu-me uma falta de noção, como aliás o jogo viria a demonstrar. 

Se a Juve já não tem o génio de Platini e mais de meia equipa campeã do mundo em 82 (Zoff, Gentile, Scirea, Cabrini, Tardelli, Rossi), não deixa ainda assim de ter jogadores distintivos como o sérvio Vlahovic, o canadiano Jonathan David, o americano McKennie, o francês Thuram, o neerlandês Koopmeiners ou os internacionais italianos Locatelli, Cambiasso, Gatti ou Rugani. Além do português Conceição, claro. Mas, se valores individuais não faltam, é naquela matreirice táctica tão típica do futebol transalpino que estava o grande obstáculo do Sporting, frequentemente infeliz nas visitas a Itália. 

O jogo nem começou mal para os leões: Pote conseguiu encontrar Ioannidis numa diagonal longa, este amorteceu sumptuosamente de calcanhar para Trincão e a bola seguiu até Maxi que desferiu um remate colocado e inaugurou o marcador. Com o ânimo reforçado, logo Trincão enviou a bola à barra, falhando por pouco o segundo golo. Só que, na primeira parte, o Sporting ficou por aqui. Uma série de perdas de bola colocou os leões em perigo. Com a bola descoberta (sem pressão), um italiano centrou para Vlahovic, de cabeça, proporcionar a Rui Silva a defesa da noite. Seguiu-se novo duelo entre o sérvio e o nosso guarda-redes, agora num remate com o pé. O destino foi o mesmo: bola desviada para canto. Até que a Juve empatou, no aproveitamento de uma série de erros individuais dos jogadores do Sporting: Quenda foi atraído por fora pelo lateral de Turim e deixou Vagiannidis desprotegido, este não leu bem o lance e não fez falta, Hjulmand largou o seu adversário directo e deixou-o galgar metros sozinho e Inácio não encurtou o espaço para Vlahovic e permitiu que este desviasse o centro de Thuram. Com o empate, as equipas foram para intervalo. 

No segundo tempo, as constantes perdas de bola de Quenda e o pouco rendimento de Vagiannidis tornaram-se gritantes e deram um quarto de hora de avanço à Juventus. Valeram-nos Diomande e Maxi, agressivos sobre a bola e sempre bem posicionados. Subitamente, o lateral grego foi descoberto por Inácio sozinho na área da Juventus, mas na hora da definição não ajudou ter um pé chato (ou foi chato não ter um melhor pé). Rui Borges leu bem o que o jogo precisava e lançou Geny e Quaresma, mudando todo o lado direito da sua equipa. Se o moçambicano foi mais associativo e assim melhorou um pouco o nosso desempenho atacante, o português foi um "upgrade" enorme face ao grego, mostrando-se imperial nos duelos e saindo com outra fluidez para o ataque. Assim, o Sporting conseguiu finalmente estabilizar o seu jogo defensivo e com a ajuda das abelhinhas Simões e Hjulmand voltar ao meio campo dos italianos. Suarez entrou para o lugar de Ioannidis e assim reforçar o controlo de bola no meio campo adversário. Faltava ainda uma cartada e Rui Borges jogou-a bem. Em teoria, procurando em Alisson uma profundidade que este na prática ameaçou mas acabou por não dar, fugindo prematuramente da linha lateral e não procurando a linha de fundo, antes indo para zonas interiores congestionadas de tráfego e onde invariavelmente encontrou um sinal vermelho. Morita entrou também para o lugar do exausto Simões, que com um pequeno toque esteve em dúvida até à hora do jogo, mas o japonês, mesmo fresco, está sem explosão e ritmo, pelo que não faz a diferença. Nos últimos minutos, a Juventus surgiu de novo ameaçadora. Era o último assalto, mas Rui Silva não deu hipóteses aos piemonteses. Guardado ainda estava porém um susto: um exausto Maxi provou os danos que a falta de oxigénio pode provocar no cérebro ao intentar fintar três italianos sem ninguém nas costas. Perdeu a bola, houve cruzamento para área, remate, mas a bola deflectiu num jogador do Sporting e acabou por sair por cima. Não havia mais tempo e o jogo praticamente terminou ali. 

Com quatro jogos e sete pontos, o Sporting se vencer o Club Brugge fica com um pé e meio na próxima fase da Champions. Falta-nos uma vitória para cumprir o lema do nosso fundador e não deixa de ser apreciável que o timoneiro desse possível desiderato europeu seja um homem desdenhado por ser originalmente um rural, como diria o presidente Marcelo, se tivesse ao almoço os correspondentes dos jornais estrangeiros a fazerem perguntas sobre o futebol português. Já dizia o Einstein que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito, mas a exportação da "Taberna Mecânica" ou "Tiki-Taska" como triunfo da regionalização lusa na Europa ainda é capaz de vir a fazer corar de inveja o muito mais cosmopolita "Special One". Aguardemos então as cenas dos próximos capítulos. 

 

Tenor "Tudo ao molho...": Rui Silva 

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