Tudo ao molho e fé em Gyokeres
“Mas que nada”
Pedro Azevedo

Não sei se elogio demais aqueles jogadores que fazem a diferença. Creio até que nessa abundância exaltativa sou pouco português, que por cá o que não sai de moda é elogiar ao melhor estilo do cinema mudo e insultar de megafone em punho. Vem este arrazoado a propósito de Francisco Trincão, um jogador que faz-me lembrar aquele slogan escrito pelo Fernando Pessoa para a Coca-Cola: "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". Por isso, ele foi tudo menos consensual nos seus primeiros tempos em Alvalade. E confesso que chegou até a ser uma das minhas irritações de estimação (as irritações, tal como os canários, os cães ou os gatos, não só são alimentadas diariamente como nos fazem muita companhia, daí serem muito estimadas, demasiadamente até na sociedade actual), como o arquivo deste blogue inequivocamente ilustrará. Mas, depois, tal como aquelas crianças que têm um desenvolvimento tardio gerado na hipófise, ele acelerou o seu processo de crescimento enquanto outros o estabilizaram, tornando-se um dos jogadores mais influentes do plantel. Hoje, voltou a ser decisivo: os nossos dois primeiros golos foram originados nos seus pés. Não esquecendo aquele slalom curto que fez um jogador do Estrela assemelhar-se àquelas bandeiras (portas) que existem no ski e servem para delimitar o percurso, infelizmente concluído com um remate torto. Bom, mas se o Trincão não se pode queixar de falta de atenção deste blogue, hoje a noite foi de Quaresma. Que maravilha! Não foi só ter inaugurado o marcador, o que é sempre importante. Não, o Quaresma deu um festival de bem defender, rápido quanto baste para fazer face aos velozes avançados do Estrela e sempre no sítio certo, no ar ou pelo chão, para evitar sobressaltos maiores. O Quaresma é um excelente jogador, todavia carrega com ele o peso do "mas". Na boca de cada um dos adeptos Sportinguistas, mais do que a pasta medicinal Couto, a constatação da sua evidente qualidade como futebolista vem sempre acompanhada por um "mas". É um "mas" essencialmente preconceituoso, porque advém de erros próprios da juventude e cometidos no tempo em que os animais ainda falavam. Só que, como um dia disse Einstein: "É mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito". Pelo que o Quaresma há-de ser um veterano e alguém ainda recordar-lhe-á uma falha ocorrida no tempo do paleolítico inferior. Talvez tenha a ver com o seu feitio extrovertido e jeito sorridente, coisa que o português pretere a quem tenha cara de enterro (o que causa uma sensação de seriedade e por isso faz parte do personagem criado pelos burlões mais requintados), ou então faz justiça ao Oscar Wilde quando sentenciou: "A cada bela impressão que causamos, criamos um inimigo; para se ser popular é indispensável ser-se medíocre". Para mim, o Quaresma foi indiscutivelmente o melhor em campo. Brilhantismo e zero erros.
Voltando ao jogo, o nosso segundo golo fez-me lembrar o Brasil de 82. O Trincão parecia o Zico ou o Sócrates, primeiro a procurar o apoio frontal do Suarez, depois a isolá-lo com um toque de magia. Só faltou o lance ser acompanhado na bancada pelos batuques dos Vapores do Rego para um regresso ao passado: aos ecos de Sevilha, no tal Mundial, e ao ambiente da Superior Sul, no Sporting de Allison desse mesmo tempo. Nem de propósito, logo a seguir, o Quenda teve um remate a tirar tinta ao poste que mimetizou a "patada atómica" do Éder, outra grande figura dessa "Canarinha" do Mundial de Espanha. O terceiro, porém, acabaria por chegar ainda antes do intervalo, com Fresneda a cabecear para as redes após livre marcado por Geny. Seguiu-se uma etapa complementar de serviços mínimos, que na sexta-feira há ida à Luz e havia que poupar energia e salvaguardar o registo disciplinar. Deu ainda para Suarez bisar e para Morita figurar na assistência, um regresso aos números que se saúda de quem ultimamente parecia configurar uma qualquer anomalia estatística. Ainda bem, mas na Luz espero ver o João Simões. E assim terminou um jogo do campeonato português com um clube que em si mesmo é um oximoro, ou não houvesse uma equipa Amadora num escalão iminentemente profissional.
Venha então o Benfica, que há uma derrota amarga na Supertaça para tirar a desforra...
Tenor "Tudo ao molho...": Eduardo Quaresma
P.S. Ah, será que quem desvaloriza a riqueza táctica que Rui Borges traz ao futebol do Sporting reparou naquele pormenor do Fresneda subir uma linha e encostar a um médio e ser o Geny a fechar como lateral?









