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O Sporting é um dos clubes mais ecléticos do mundo, e isso é um motivo de orgulho para todos nós, mas quando, no sorteio da Champions, nos calhou em sorte o Kairat Almaty, foi como se para o universo de adeptos leoninos uns "aliena" estivessem para aterrar em Alvalade. Todavia, se tivessem perguntado ao Nuno Dias, ele teria dito conhecê-los muito bem e até funcionarem como um talismã, porque foi contra a versão cazaque curto (futsal) do Kairat que o Sporting venceu a sua primeira final da Champions (2018/19). Hoje, na sua versão cazaque comprido (futebol de onze, para aqueles que não preferem jogar só com dez...), voltámos a jogar com eles. E o que se pode dizer é que, ao contrário do que reza o provérbio popular português (estranhamente não traduzido no Cazaquistão), não foi por o cazaque ser mais comprido que não se destaparam os pés. Os pés de Trincão, por exemplo, mas também os de Quenda ou Pote, que os cazaques tiveram muita dificuldade em tapar. E se Pote ameaçou muitas vezes pintar a manta, Trincão (por duas vezes) e Quenda (numa ocasião), sobretudo estes (o sobretudo aqui a fazer pandã com os cazaques não é inocente), coloriram mesmo o marcador, e com muita pinta (bonitos golos). O jogo, porém, não foi tão fácil como se possa supor: o Sporting exibiu-se aos solavancos, com minutos de alta pressão misturados com outros onde a pressão baixou e assim deixou partir o jogo e gerar vagas (ou ciclones, para condizer com as baixas pressões) de ataques cazaques perante uma cratera no nosso meio campo visível da lua (sem necessidade de utilização do telescópio Hubble). Na origem dessa turbulência esteve o facto da dupla Hjulmand/Kochorashvili não parecer muito compatível, porque o georgiano, que é bom a lançar o ataque em passes na diagonal (não tão bom no passe raso entrelinhas, muito mais letal mas não tão bonito para o público), não é um "8" que entre em progressão no bloco adversário e isso obriga o nosso capitão a jogar fora da sua posição natural ("6"). É certo que Morita ainda não está pronto para 90 minutos, mas fica no ar o mistério que leva Rui Borges a hesitar lançar João Simões, um miúdo da nossa Formação que na época passada mostrou que se pode contar com ele (entrou também muito bem em Famalicão, a justificar continuidade) e tem características que se complementam idealmente com as de Hjulmand. Será que o peso de justificar os novos reforços se sobrepõe àquilo que salta à vista ser o mais adequado? Claro, alguns dirão que não estamos lá dentro, não vemos os treinos e todo esse blá blá blá com que o situacionismo procura amiúde explicar o que não se compreende (e noutras tempos esteve à beira de pôr em causa a nossa sustentabilidade). Até haver resultados, porque, não havendo, o situacionismo move-se para parte incerta, liga a máquina de lavar no programa de centrifugação e é chegada a hora da roupa suja (sempre a do treinador), que é tempo de apoiar quem tomou a decisão de treinador mudar. Ora, o que é que isso nos trouxe no passado? Na maioria das vezes, nada de bom, como em quase todas as revoluções. Por isso, melhor seria se pequenas rectificações evitassem grandes convulsões. E é tão fácil neste momento evitar males maiores... Noutro plano, gostei muito do nosso "Virginia Plain" (ver "Tudo ao molho..." anterior), com 3 boas defesas, duas delas de grau de dificuldade elevado (mas continuo a adorar o Rui Silva). E de realçar ainda a estreia a marcar de Alisson (se for marcando, menos mal), um jogador a quem Rui Borges vai continuar a dar minutos até chegar à conclusão que não tem suficientes "éles", ou seja, profundidade e jogo interior (enquanto isso, o Flávio, da nossa Formação, um talento que podia ir sendo lançado aos poucos, fica à espera). Uma palavra também para Quaresma, que fez um óptimo jogo (no golo do Kairat, ele fez a aproximação suficiente à bola para não deixar descoberto um espaço enorme entre o jogador que cruza em cima de Inácio e o nosso primeiro homem, pelo que é Fresneda que falha no encurtamento face ao cazaque que produziu o remate vitorioso). Nota ainda para Ionnidis, um jogador para já adiado entre não entender a equipa e a equipa não o entender a ele, tantas são as vezes em que ele solicita a profundidade e como resposta vê os colegas pediram-lhe um apoio frontal, como se o grego fosse o Suarez. Assim como um jogo de futebol tem 4 momentos (organização defensiva, transição defensiva, transição ofensiva e organização ofensiva), além da bola parada, também um motor tem 4 tempos (admissão, compressão, combustão e exaustão). Só que, num motor a gasolina, a combustão dá-se na ignição, enquanto num diesel se processa por expansão, o que explica a necessária forma diferente de jogar consoante estiver Ionnidis ou Suarez em campo (Ionnidis explode via passe de ruptura, Suarez expande-se através de combinações do nosso jogo ofensivo).
Tenor "Tudo ao molho...": Trincão