Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Deixar ao Acaso
Pedro Azevedo

As conversas sobre futebol em Portugal estão cheias de lugares comuns. Um desses lugares comuns diz-nos que num jogo de futebol há 3 resultados possíveis. Todavia, esses 3 resultados possíveis não se distribuem uniformemente (33,3% para cada possibilidade) na maioria dos casos. Por exemplo, se o Manchester United defrontar cem vezes o Grimsby Town. da quarta divisão inglesa, é mais do certo que ganhará em pelo menos 97 ocasiões, em duas talvez empate e numa poderá perder. Isso acontece porque o desnível de qualidade entre as duas equipas é enorme. Observemos agora um Sporting-Porto: eis-nos perante um verdadeiro jogo de tripla, em que a distribuição de resultados tende para a uniformidade. Ora, sabendo de antemão isto, se o Sporting quiser ter uma elevada probabilidade de ganhar ao Porto, então precisará de assegurar que é o melhor em campo. Se deixar repartir o jogo, arrisca-se ao aleatório e a qualquer um dos 3 resultados possíveis. Foi o que sucedeu ontem. (A propósito de prognósticos, havia um programa na RTP, o "Venha jogar no Totobola", que tinha um interlúdio cultural. Nesse contexto, no Jardim da Parada, o repórter apresentou-se a si e ao programa e perguntou a um popular o que pensava sobre Almada Negreiros. Depois de muito pensar e coçar a cabeça, o homem lá respondeu: "Ponha um X!")
Ao Sporting faltaram um central que se impusesse no jogo aéreo e nos duelos individuais em geral (seria Diomande), um lateral esquerdo qua além de dar profundidade soubesse jogar por dentro (Maxi), um outro lateral (direito) com um mínimo de jeito para jogar futebol (Vagiannidis?) e um médio capaz de levar a bola (Simões) em vez de se esconder atrás do bloco como Kochorashvili. Se os dois primeiros estavam impedidos por lesão, nada justifica porque os restantes não alinharam de início, sendo que um nem sequer foi utilizado durante o jogo, preterido por um Alisson que tem em excesso em "s" de "small" o que lhe falta em "l" de "large". Por isso, em vez de ser um Big Mal, é um pequeno-grande "mas" (deu nas vistas no Leiria, mas para o nível do Sporting é escasso, ou, em discurso directo do treinador que nunca será admitido exteriormente: "Já sabem o que eu quero, mas entretanto lanço o Alisson para que não se esqueçam de que eu preciso do Yeremay"). Faltando os jogadores acima referidos, é lógico que o Sporting pôs-se mais a jeito para os 3 resultados possíveis. Numa situações destas, geralmente o Gyokeres seria o melhor amigo do treinador. Estivesse ele ontem em campo e provavelmente não se falaria das ausências forçadas e das opções do treinador. Mas o sueco já cá não está e assim, tudo somado, levámos o jogo para o lado do acaso, que a bola é redonda (outro lugar comum que reúne bastante favoritismo) e o futebol "é o que é" (como se cansa de nos dizer o Rui Borges, agora que já não lhe adianta de nada acender uma velinha pela saúde do Gyokeres, assim a jeito de quem não quer que se acabe o abono de família). Quis então o acaso que um centro do Alberto - um pássaro que esteve duas vezes na nossa mão e em ambas voou, o que já não é do domínio do acaso - tivesse passado por entre pernas até encontrar o único jogador do Porto presente na área, ou que um pontapé, que William repetirá 99 vezes com consequências trágicas para os holofotes dos estádios, tivesse feito a bola entrar no ângulo. E quando ao acaso se junta um momento raro de inspiração, então percebe-se que a balança pendeu definitivamente para quem beneficiou desses sortilégios. De pouco valeu assim ao Sporting ter tido também a sua hora de sorte, quando uma carambola entre dois jogadores do Porto fez com que a desvantagem se reduzisse, até porque Diogo Costa, com uma defesa enorme, decerto não obra do acaso, garantiu que o Porto tivesse saído ontem de Alvalade com os 3 pontos.
Tenor "Tudo ao molho...": Hjulmand









