O William Blake dizia que há o conhecido, o desconhecido e no meio estão as portas da percepção. Mas a percepção é só isso: uma percepção. Pode não ser real, aliás no mundo em que vivemos é cada vez menos real, tal o nível de intoxicação a que somos todos sujeitos por políticos, media e spin-doctors de comunicação. Olhando as parangonas dos jornais, Porto e Benfica discutirão o título e o Sporting terá de lutar com o Braga para atingir o terceiro lugar no campeonato, o pináculo do para nós tangível esta época. Nesse transe, o Troféu 5 Violinos dever-se-ia talvez denominar de "11 Rabecas", o que ratifica a escolha do "Submarino Amarelo" (Villareal) como companhia mais do que adequada para condizer com as previsões de que só esporadicamente andaremos à tona de água. Na verdade, há aqui uma reincidência: as pré-épocas vêm sempre acompanhadas do anúncio da boa-nova do Benfica campeão, com os Três Reis Magos da imprensa escrita (Bola, Record e Jogo) dando-nos a entender que o que virá depois será somente um pró-forma escarlate (o Estádio da Luz já era uma casa de Red-Pass, agora o Benfica almeja que seja o Red Light District por inteiro) . Mas o ano passado foi necessário animar as hostes portistas, agora com um novo presidente e processos mais "católicos" (ainda que já sem a bula ou gula papal), pelo que o andor foi partilhado entre Benfica e Porto. Nesse sentido, as contratações no Dragão motivaram muitas loas. Por exemplo, quem tivesse aterrado em Portugal nessa altura ficaria convencido de que o Otávio Ataíde era a reencarnação do Franz Beckenbauer ocorrida por milagre num bairro de São Paulo. E o Nehuen Perez tinha uma qualidade de saída de bola que nem o Franco Baresi. O Samu também ia arrasar e logo houve quem se atrevesse a considerá-lo mais completo do que o Gyokeres. Parece mentira, mas não é. E torna-se talvez importante recuperar isto para contextualizar o momento em que vivemos, até porque as cassandras desse endeusamento desapareceram para parte incerta ou comeram o queijo suficiente para garantirem que se esqueceriam de tão infelizes profecias, voltando agora à carga sem memória ou vergonha e com renovada imprudência.
Foi assim, com expectativas baixas, que o Sporting se apresentou hoje à noite no Estádio Nacional, que o José Alvalade está em obras de fecho do fosso porque leão que se preze ruge livremente e sem agrilhões mais próprios de um zoo. Cedo marcou, por Hjulmand, de penalty, e no primeiro tempo até se desenharam bonitas jogadas no terreno. Com um 3-4-3 ofensivo, com os alas bem projectados, Fresneda como central pela direita (recuperando uma ideia de Amorim), Diomande de regresso no centro e Inácio a central pela esquerda, o Sporting superiorizou-se aos espanhóis durante a maior parte do tempo, com Geny em especial evidência na criação de desequilíbrios.
O reatamento trouxe de volta o 4-2-3-1 que Rui Borges parece querer implementar. Fresneda derivou para a lateral, Debast entrou para fazer parelha com Inácio, Matheus manteve-se à esquerda. Mas a alteração do sistema táctico não surtiu efeito e o Sporting perdeu o controlo do jogo. O espaço outrora encontrado com facilidade na direita desapareceu, o nosso jogo tornou-se lento e previsível, com uma única solução: mandar a bola para a frente a ver se Harder lhe dava continuidade. Não deu. Com alguma sorte à mistura, o jogo arrastou-se sem que o Villareal conseguisse o empate. O Troféu ficou em casa.
A pré-época é isto mesmo, um período de experiências. Campeão de pré-época em Portugal só o Benfica (e o Porto, na época passada e nesta), um "título" que ainda (para já) não garante a presença na Champions. Somos o campeão, aliás bicampeão, mas entramos na nova época como o "underdog". É um sentimento estranho. Ninguém acredita em nós, nem mesmo muitos Sportinguistas. "Ah! Perdemos o Gyokeres" - dizem muitos, esquecendo-se que já fomos campeões nesta década sem ele. Eu olho para isto tudo e noto o seguinte: mantivemos a estrutura base da equipa enquanto os outros não deixaram pedra sobre pedra. E temos uma equipa madura, enquanto o Porto, por exemplo, investiu em três ou quatro jovens sub-21, bons jogadores mas que não é certo que não abanem quando a coisa se complicar, até por ausência de pilares de balneário, com experiência e autoridade, que outrora passavam o testemunho entre si no Dragão. Por isso acredito que a nossa luta será com o Benfica, que tem em Rios um excelente jogador e talvez aquele médio que nos faz falta para quebrarmos linhas e aproximarmos o meio campo dos avançados. Um Matheus Nunes vestido de vermelho, mais Lobo Mau do que Capuchinho. Mas nada está perdido. Como poderia algo estar perdido antes de começar? Então, que role a bola. Quem sabe se no fim o presente não será mais o que o passado reclamava para o futuro (como cantava o Oswaldo Montenegro), antes será muito melhor?
Tenor "Tudo ao molho...": Geny
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