Os 7 Mandamentos
Pedro Azevedo
Não é que o Benfica não tenha razão de queixa naquele lance disputado entre Matheus Reis e Belotti, mas tomar a árvore pela floresta e reagir com um enunciado tipo "Os Sete Mandamentos" (no Benfica destas últimas épocas é natural que 3 pontos fiquem pelo caminho quando o oponente é o Sporting, razão pela qual o "Moisés" de Carnide há muito que anda a dividir o Mar Vermelho) não só é excessivo como visa essencialmente tapar hoje o sol com a peneira para mais tarde ver cumprido o direito peneirento, de quem se acha ungido à nascença, de ter o único lugar ao sol disponível só para si. Nesse sentido, não deixa de ser curioso que praticamente ao mesmo tempo que saiu o Comunicado, um conhecido adepto benemérito do Benfica como César Boaventura tenha apresentado uma queixa-crime contra Matheus Reis. Em nome da verdade desportiva referida no tal Comunicado, crê-se. Só falta mesmo outro buliçoso adepto benfiquista, de seu nome Paulo Gonçalves, denunciar o VAR Tiago Martins para o ramalhete ficar completo e todos ficarmos sossegados e de consciência tranquila quanto ao futuro cumprimento de regras e de procedimentos, bem como a comportamentos éticos irrepreensíveis. Se bem que, na verdade, quase todas as pessoas têm memória, excepto Rui Costa que se lembra muito pouco do período em que fez parte da administração de Vieira, embora o presidente do Benfica pense que nós é que fomos todos intervencionados com uma lobotomia. Daí partir para um Comunicado onde objectivamente o Benfica se julga maior do que o país, na circunstância representado pelo Estado, arrogando-se ao direito de unilateralmente suspender negociações que visam o oumprimento do estipulado numa lei portuguesa e auto-determinando a interdição do seu estádio aos jogos do seleccionado português até a "verdade desportiva" ser reposta segundo o julgamento do clube, claro está. Como diria o William Blake: "Como saberes o que é suficiente, se não souberes o que é demais?". Objectivamente, o Benfica foi longe de mais no tal Comunicado e sabe-o. Não obstante, acha-se impune, o que não constitui novidade. Assim como não é nova a construção de uma narrativa de vitimizaçáo por parte de alguém que sente o chão a fugir-lhe dos pés e necessita de um spin comunicacional para desviar as atenções dos seus apaniguados, procurando assim transformar uma derrota no Jamor numa vitória futura, nesse transe vendo o desvario de Matheus Reis como uma oportunidade caída da céu ou uma boia salva-vidas lançada pelo Instituto de Socorros a Náufragos.








