Tudo ao molho e fé em Gyokeres
Pirolitos em dia de praia
Pedro Azevedo

Caro Leitor, o Benfica jogou antes de nós na esperança de vingar aquele campeonato que ficou conhecido como o do Pirolito, corria o ano de 1948. Para vos avivar a memória, recordo-vos que o Benfica ia à frente desse campeonato, já tinha vencido o Sporting fora de casa por 3-0 e recebeu o seu rival para pôr um carimbo definitivo no título. Para agravar o cenário do Sporting, o Peyroteo ficou doente, teve febre durante a noite anterior e esteve em dúvida até à hora do jogo. Pois bem, o nosso máximo goleador recuperou a tempo e marcou um póquer, ajudando o Sporting a vencer por 4-1. Com esse resultado, Sporting e Benfica ficaram empatados em pontos e nos resultados dos jogos entre si, acabando o Sporting por se sagrar campeão por ter um golo de diferença face ao Benfica na contabilidade dos jogos totais. Como esse singelo golo a mais representava uma bolinha só de diferença e havia um berlinde redondinho que se podia achar numa garrafa de gasosa desse tempo com o nome de Pirolito, para a história ficou o Campeonato do Pirolito. Mas, dizia eu, ainda que remota a possibilidade dos dois clubes terminarem esta época empatados simultaneamente em pontos e nos jogos entre si, o Benfica não quis desprezar essa probabilidade que pode advir de perder com o Estoril ou o Braga (e ganhar por 1 golo ao Sporting) e espetou meia-dúzia de golos ao AVS, AFS ou talvez mesmo ABS, que foi preciso meter o anti-bloqueio para evitar mais derrapagem quando a caixa já ia em sexta velocidade. Sabendo isso, o Sporting apresentava-se no Bessa com o imperativo de vencer. Porque ganhar os jogos que faltam até à deslocação à Luz dará ao Sporting a possibilidade de uma dupla no "Vamos jogar no Totobola" do derby, com a chance até de uma tripla (desde que não perca por mais de 1 golo) caso o Benfica perca já no Estoril e o Sporting ganhe ao Gil. Em sentido oposto, mesmo que não perca no Estoril, o Benfica precisará de ganhar ao Sporting caso queira chegar à entrada da última jornada na liderança.
O Sporting entrou em campo com tudo e logo o Trincão teve uma soberana oportunidade de golo após uma assistência soberba de Pote. Não tardou porém o primeiro golo leonino: após mais uma iniciativa de Pote, Maxi ganhou brilhantemente a bola na área e endereçou-a primorosamente para o primeiro poste onde Gyokeres apareceu a facturar. Seguiu-se um período de intenso e avassalador domínio leonino, mas Gyokeres, em três ocasiões, uma delas de bicicleta (se fosse esloveno, como o Pogacar e o Roglic, tinha sido de caras), e Pote e Trincão não conseguiram fazer o que parecia mais fácil. Até que à beira do intervalo lá apareceu o nosso Vik "Thor" a bramir o martelo mágico com que cria um vendaval que torna impossível aos nossos adversários abrigarem-se... e estava feito a 2-0.
Após o intervalo, o Boavista procurou reagir, mas o Gyokeres recebeu um passe do Trincão, fugiu pela meia direita e praticamente sem ângulo arranjou forma de fazer a bola passar pelo buraco da agulha, no caso, entre as pernas do guarda-redes boavisteiro. Seguiu-se uma bola de sonho enviada de primeira por Morita a isolar Gyokeres. O nosso deus sueco desta vez não conseguiu desfeitear o guarda-redes, mas o ressalto foi na direcção de Maxi e este não perdoou. A partir daí o interesse do jogo residiu nas mil e uma tentativas de Diomande de ver um cartão amarelo (o quinto na competição) que o pusesse a salvo de falhar o derby, mas o árbitro não estava para aí virado e o costa-marfínense lá foi desesperando até que o árbitro não pudesse mais ignorar a rábula e tivesse que o admoestar, momento que foi celebrado no estádio como se de um golo se tratasse. Após mais este elucidativo apontamento de cultura desportiva portuguesa, poucos motivos haveria para prolongar o jogo, mas com o Gyokeres em campo há sempre objectivos a cumprir e lá veio mais um golo da sua lavra, o seu póquer no jogo mas também o seu quinquagésimo segundo da época, marca que lhe permitiu superar Yazalde (50 golos em 73/74) e aproximar-se de Jardel (55 golos, em 2001/02) e de Peyroteo (58 golos, em 40/41), além de passar para o primeiro lugar da Bota de Ouro que premeia o melhor goleador em campeonatos europeus nesta temporada (38 golos vezes um coeficiente de 1,5= 57 pontos).
Moral da história: o Sporting respondeu aos 6-0 do Benfica com um 5-0 no Bessa e lidera o campeonato do pirolito com 3 golos de diferença, embora o objectivo no final seja o champanhe e não a gasosa. Até porque já não há pirolitos, não se sabe se por artes da ASAE (como o brinde e a fava no bolo-rei), e para brindar decentemente não pode faltar uma bebida alcoólica. Com Seven-Up já se sabe que só em Vigo (quando o Benfica é convidado para a festa galega).
Tenor "Tido ao molho...": Vik "Thor" Gyokeres. Quaresma foi o melhor dos nossos centrais, ,Debast encheu o campo, Maxi e Trincão estiveram muito bem, apesar do ex-Barcelona continuar a pecar na hora do remate à baliza.









