Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

11
Dez24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

A Lei de Lavoisier


Pedro Azevedo

Na apresentação de João Pereira, o presidente do Sporting afirmou que iríamos vê-lo num colosso europeu dentro de 4 anos. Logo as más línguas o contestaram, alegando que a afirmação era ousada e até criadora de uma pressão adicional completamente desnecessária, na medida em que o treinador tinha um currículo incipiente e tudo a provar, mas Varandas mais uma vez provou ser um visionário: é que sendo o Guardiola o exemplo a seguir no que toca à tarefa de treinar colossos, o João Pereira está quase a igualá-lo (o catalão perdeu recentemente cinco jogos consecutivos e o JP já vai em quatro). [Ainda vamos descobrir que o treinador Rúben levou consigo o presidente Amorim e que no fim todos ficaram a perder, porque no United o Amorim precisaria de presidir para ter sucesso e no Sporting o Frederico necessitaria que o Rúben treinasse para que ele pudesse brincar aos presidentes sem grande dolo para a instituição.] 

 

A única coisa de que não gostei na referida apresentação foi que o nosso presidente se referisse a outros clubes que não o nosso como colossos. Porque, pelo menos para mim, o Sporting é um colosso. Ou era, até há duas semanas, antes de perder 4 jogos em 15 dias. E, se calhar, voltará a sê-lo, daqui a 4 anos, quando o João Pereira regressar a Alvalade depois de uma passagem pelo Braga como tirocínio para o sucesso. A ser assim, mais uma vez Varandas mostrará ser um oráculo. E as televisões voltarão a repetir ininterruptamente aquele dia em que o nosso presidente anunciou que João Pereira daria treinador. 

Um Sportinguista aguenta quase tudo, mas quando os treinadores começam com a ladainha do "levantar a cabeça" para mim é como se estivessem a anunciar o mau tempo. Vai daí, o Quaresma tanto levantou a cabeça que foi parar ao hospital. Outra coisa que me enerva no clube são as razões de cada um, quando a única razão relevante é a do clube. O problema é quando todos os adeptos têm razão e o clube não. Aí algo terá de ser feito, porque o clube não pode ser o oposto da unanimidade dos seus adeptos. A não ser que se queira um clube sem adeptos, o que é capaz de no fim se traduzir num clube cujos únicos adeptos intervenientes serão só aqueles que o clube não quer ter como adeptos, os não-adeptos, os que continuam a mandar tochas na direcção dos jogadores e assim. Por outro lado, os adeptos sem o clube sentir-se-ão órfãos. Querem ver que depois da orfandade em relação a Amorim, desejam que  sejamos órfãos do nosso próprio Sporting? É que se eu até concordo que o clube não pode ser gerido de fora para dentro, já não estou de acordo que não seja gerido de dentro para dentro e de dentro para fora... [O Amorim já se acabou, o Viana está-se a acabar, Frederico, Frederico, Frederico será que o seu silêncio traz água no bico?]

 

Depois do "levantar a cabeça", só falta ouvirmos que "não deitamos a toalha ao chão". Até a podemos deitar, mas estará lá o grande Paulinho para a apanhar e levantar. Porque por cada leão que cair, outro se levantará. [Não deixa de ser paradigmático de uma certa forma de estar que depois do "Onde vai um, vão todos", que não é mais do que um arremedo de "E pluribus unum", a outra frase mais icónica do mundo Sporting tenha sido proferida por um..  portista.] 

 

Quanto ao jogo, eu gostava de perceber se a ideia de pôr o Quenda a jogar a interior esquerdo, quando o Quenda foi sempre ala direito, obedece a alguma lição de nível III apreendida num livro do Lampedusa ("É preciso mudar alguma coisa para que tudo fique igual"). Mas, também, se há alguma cláusula no contrato do Trincão que o obrigue a jogar 90 minutos, ainda que nesses 90 minutos entregue sucessivamente a bola ao adversário. A não haver, o objectivo deve ter sido treinar a transição defensiva. Ou a paciência dos adeptos, que nesta transição pós-Amorim também já começam os jogos na defensiva. Finalmente, qual a "ambição" desmedida que presidiu a que Harder jogasse 3 minutos? De resto, só quero lamentar que o lesionado crónico St Juste nos intervalos das lesões continue cronicamente a ter paragens cerebrais como no segundo golo dos belgas, em que pôs o marcador do golo em jogo. 

"Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma" - Lei de Lavoisier. E é isto, Sportinguistas, nós não perdemos, estamos só a transformarmo-nos... Não é, Dr Varandas? 

 

A natureza tem horror ao vazio, logo surgem as ervas daninhas... Oh yeah!!!

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

jp brugge.jpg

09
Dez24

Tributo a Malcolm Allison (I)


Pedro Azevedo

Allison treinava o Manchester City (com Joe Mercer como "manager") na temporada de 1970/71 quando os azuis foram a Old Trafford disputar um derby a contar para o campeonato inglês. Antes do jogo se iniciar, enquanto caminhava para o banco, Allison foi apupado pela multidão que se concentrava em Stretford End, a popular bancada que comportava na época 20.000 pessoas que assistiam aos jogos de pé (peão). Com o seu estilo fleumático e bonacheirão, Big Mal fitou os adeptos rivais, sorriu e espetou 4 dedos na sua direcção, como que anunciando-lhes que o City marcaria 4 golos. No fim, o Man City bateu o Manchester United de Best, Charlton e Law (a "United Trinity", com estátua à entrada do estádio) por 4-1, com 3 golos de Lee e 1 de Doyle contra apenas 1 de Kidd. 

Malcolm-Allison-001.webp

09
Dez24

Mens sana in corpore sano…


Pedro Azevedo

No futebol, como na vida, coabitam santos e pecadores. Todavia, já dizia o Oscar Wilde, todo o santo teve um passado e todo o pecador terá um futuro. Nada na vida é definitivo, a não ser a morte e os impostos, e isso no futebol traduz-se em duas frases lapidares de autores diversos como Pimenta Machado ou Ruben Amorim, o primeiro sentenciando que no futebol "o que hoje é verdade, amanhã é mentira", o segundo esclarecendo que quanto à forma das equipas "as coisas mudam muito depressa". 

Aos olhos de hoje, a saída extemporânea de Amorim do Sporting foi prejudicial para ele, clube e também para o Manchester United. O que acontecerá amanhã, não sabemos, teremos de esperar para ver. Podemos porém recuar ao passado e daí tirarmos algumas lições. Por exemplo, a saída de Malcolm Allison do Sporting conduziu o clube a uma espiral de troca de treinadores que se reflectiu em 18 anos sem conseguir vencer o título máximo em Portugal. Porque Big Mal era um técnico sagaz e de personalidade extravagante, que a todos (jogadores e adeptos) marcou e até contagiou. Um treinador assim marca de tal forma que quando sai é como se o sol se fosse embora. Deixa saudades, e esse sentimento perpetua-se na medida em que se vai enraizando nos adeptos todos os dias e agita-se de noite como um fantasma para os treinadores que lhe sucedem. Pelo que talvez a sua sucessão não possa ser feita por um treinador normal, mas sim por um psicólogo. Ou, por outras palavras, por um treinador cuja competência principal seja saber mexer com a cabeça dos seus jogadores. Um Brian Clough dos dias de hoje, por exemplo, treinador que levou o Derby County e o Nottingham Forest da segunda divisão ao título máximo inglês, com o "plus" de no Forest ter vencido duas Champions. Clough que era tão palavroso quanto Allison - também campeão inglês pelo Manchester City enquanto "Coach", com Joe Mercer como "Manager" - , ambos partilhando o gosto por agitar as águas, pelo mediatismo, como se a pressão para eles não existisse (assumindo-a e assim retirando-a dos seus jogadores) e só se sentissem confortáveis tendo todo o protagonismo. No presente, existem duas soluções de perfil semelhante, uma a trabalhar (Mourinho, Fenerbahçe), outra em descanso sabático (Klopp, mais contido na trica, mas com igual gosto pelos holofotes). Não custa tentar...

Outra lição do passado é que este nunca se repete de forma exactamente igual. Amorim pensou que iria pegar no United nas mesmíssimas condições que apanhou o Sporting e viu isso como um risco baixo que potenciaria as suas probabilidades de sucesso. Creio que se equivocou porque sendo as circunstâncias semelhantes, os contextos são totalmente diferentes. Assim como o Sporting sente presentemente a sua sombra tutelar, o Man U tem saudades do tempo de Sir Alex Ferguson. E essas saudades criam erosão a cada novo treinador, que perde sempre na comparação, algo visto anteriormente durante os 26 anos que mediaram o último título de Sir Matt Busby (1967) e o primeiro campeonato ganho por Ferguson (1993). Pelo meio, o United triturou "n" jovens promessas de treinador e mesmo outros consagrados. E só não aconteceu o mesmo a Ferguson porque este havia já vencido uma Taça dos Vencedores de Taças (contra o Real Madrid) e uma Supertaça europeia (face ao Hamburgo), o que lhe deu 7 vidas (ou 7 anos de vida) para se manter no cargo, com outra Taça dos Vencedores de Taças conquistada (1991) para ajudar. Ora, Amorim não tem propriamente um consistente currículo europeu que o sustente, ainda que os brilhantes fogachos contra Tottenham, Arsenal e City tenham chamado as atenções de clubes da Premier, e do United em particular, para si. Acresce que o clube é actualmente administrado por americanos que não têm a cultura inglesa de dar tempo às colheitas para provar que a sementeira foi boa. Talvez por isso, mesmo não tendo sido campeão, Mourinho é até hoje o único treinador que se aproximou do sucesso de Ferguson no United, com um segundo lugar no campeonato e uma Liga Europa no seu palmarés. Ainda que em evolução constante, como o prova as alterações de nuances e comportamentos que foi promovendo na forma de jogar do Sporting, Ruben Amorim vive ainda uma fase de experimentalismo que precede a sua maturação total enquanto treinador. Resistirá assim ao tremendo desafio que tem pela frente, ainda que o seu carisma seja indiscutível? E de que forma a sua boa comunicação contribuirá para a manutenção no cargo, sabendo-se que parte poderá ser "lost in translation"? 


E o Sporting, que é o que mais nos interessa, como resolverá o presente imbróglio? Irá pretender continuar a replicar o sistema táctico que Amorim implementou em Alvalade enquanto sua propriedade intelectual ou compreenderá definitivamente que uma equipa de futebol é composta de complexidade, porque formada por uma diversidade de indivíduos que extravasa as componentes tácticas, técnicas e físicas e tem na mente a grande chave do sucesso? Mens sana in corpore sano...

m clough.webp

07
Dez24

Loose-loose


Pedro Azevedo

IMG_3528.jpeg

Manchester United - Nottingham Forest 2-3 

(Rúben Amorim perde o duelo com Nuno Espírito Santo)

 

Até pode acontecer que o presente seja cinzento e o futuro venha a ser brilhante, mas para já o Sporting caiu a pique e o Man U não dá francos sinais de melhoria (4 pontos em 4 jogos, na Premier), dando a impressão de que nenhum dos 2 clubes ficou a ganhar com a saída extemporânea de Amorim de Alvalade. Um risco que "A Poesia do Drible" havia antecipado aqui.

05
Dez24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

O passado, o presente e o futuro


Pedro Azevedo

Em "O Leopardo" (Il Gattopardo"), Don Fabrizio, príncipe de Salina, afirma que é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique exactamente igual. Em jogo estava a sobrevivência, algo que para um felino (literal e metaforicamente) desperta sempre o instinto de preservação. Sendo certo que o Leão partilha com o Leopardo o mesmo étimo comum, ambos pertencendo ao género Panthera, no actual reino do Leão as circunstâncias são diferentes, isto é, não se quis mudar, as circunstâncias é que assim o obrigaram. No entanto, o pretendido é o mesmo: que tudo fique igual. Para que tudo ficasse na mesma, Frederico Varandas escolheu um treinador da Academia com predileção pelo sistema 3-4-3. Como Amorim havia adoptado esse sistema desde a sua chegada a Alvalade, Frederico quis acreditar que tudo ficaria igual. Logo o comunicou à massa associativa e adeptos, valendo-se do tirocínio de 3 anos que João Pereira já tinha de Alcochete para dar credibilidade à sua mensagem dirigida aos Sportinguistas. Esqueceu-se porém de um pormenor: a ideia da continuidade iria confrontar mais o presente com o passado, com os resultados como fiel da balança do tribunal do povo Sportinguista. Outras soluções exigiriam tempo, e tempo é algo que os Sportinguistas estão habituados a ter de dar, ou não tivessem tido de esperar por vitórias em 2 longos períodos de 18 e 19 anos, respectivamente, mas a ideia da continuidade criou a ilusão de que não haveria que esperar. Seria pois tudo igual, que o futebol é fácil, fácil, e normal é ganhar o Euromilhões duas vezes seguidas. Só que os resultados iniciais não foram animadores e logo houve quem pegasse no Orwell e se lembrasse de que os animais (e, por conseguinte, os homens) são todos iguais, mas há uns mais iguais do que os outros (e, logicamente, outros menos iguais, como adiante se verá). Inevitavelmente, ou não, tendo o nosso povo essa tradição, com as dúvidas apareceu o sebastianismo, mostrando-se os Sportinguistas órfãos de Amorim, o que é mais legítimo, maduro e fácil de entender do que sentir a falta de quem por uma bravata perdeu simultaneamente a vida e a soberania do reino português. Porém, esse sentimento de orfandade quando se pretende andar para a frente é semelhante àquele automobilista que conduz a sua viatura só a olhar para o espelho retrovisor. Resultado: estampa-se ao primeiro obstáculo que apanha pela frente. Haveria por isso que erradicar esse sentimento e agarrarmo-nos ao que temos e João Pereira percebeu isso muito bem. Como tal, em conferência de imprensa, alertou que o treinador antigo não voltará, assim como quem diz: foquem-se no presente que o passado já lá vai, ultrapassou-nos pela direita com um terço da estrada percorrida e foi por um atalho tratar do seu futuro para Manchester. Tudo estaria bem se os Sportinguistas não desconfiassem de que o futuro não será igual ao passado recente, tomando como referência o presente. E o que é o presente? Por um lado temos um presidente que nos diz que o novo treinador está a ser preparado há 3 anos, por outro há um treinador que nos transmite que não pode replicar o que não sabe, que há comportamentos e nuances introduzidas por Amorim que desconhece, o que cria a dúvida sobre que preparação específica foi feita e obriga a mudar a fórmula de sucesso que nos foi dita que permaneceria igual. Afinal, tal como em "O Leopardo", seria preciso mudar para tudo ficar igual (os resultados), com o Sporting na liderança. Ora, mudar o que deu certo e com um protagonista ao leme diferente daquele que já tinha provas dadas é coisa para a qual os Sportinguistas não estavam preparados, daí a perplexidade e imediata insegurança que se apoderou de nós, potenciadas pela derrota de goleada com o Arsenal e o inédito desaire caseiro com o Santa Clara. Foi com estes sentimentos no subconsciente dos Sportinguistas que chegou o jogo de Moreira de Cónegos: lançaria ele água na fervura ou mais achas para a fogueira? (Para achas na fogueira já nos chegava mais uma das nossas idiossincrasias, a insólita existência de um bombeiro "incendiário", um oxímoro leonino.)

 

Não se sabe o que João Pereira vale, mas é sabido que não bale (como a Dolly), que clonagem por enquanto ainda é coisa para ovelhas. Ainda assim, hoje João Pereira quis aproximar-se dos princípios de jogo de Ruben Amorim, pelo menos no que respeita ao ponto de partida dos interiores, lançados de fora para dentro e facilitando o "overlap" dos alas. Só que a equipa revelou falta de paciência, abandonando precocemente o tricô no centro e não resistindo ao "cruzabol" a partir dos flancos. Além de que, no primeiro tempo, o jogo esteve de novo sub-virado à esquerda, um tipo de "marxismo-leoninismo" já observado em igual período com o Santa Clara. Todavia, Gyokeres conseguiu ganhar um penalty na área e o Sporting adiantou-se no marcador. Parecia que o mais difícil estava feito, mas se a organização ofensiva requer afinação, a organização e transição defensivas entregaram o jogo. Tudo começou numa bola parada em que a zona não funcionou. Porém, o cabeceamento foi executado ainda longe da baliza, o que oferecia boas possibilidades de defesa ao nosso guarda-redes. Mas este denota falta de escola, não corre debaixo dos postes, atira-se de onde está como se fosse um nadador a esperar pelo tiro de partida para mergulhar dos blocos. Resultado: faltou-lhe largura e altura na estirada, mostrando uma flagrante falta de elasticidade para um guardião com quase 2m de altura. Se as coisas já estavam menos bem, pior ficaram quando Geny cometeu um erro de principiante e enviou a bola num arremesso para o centro do terreno. Na sequência, Schettine chutou à baliza. O remate foi efectuado de fora de área, mas Kovacevic voltou a não chegar a tempo. Sem muito fazer por isso, o Moreirense ia para o descanso em vantagem. 

Muito se fala de nuances tácticas quando não se resiste a comparar o Ruben com o João. Essa análise porém é redutora porque nos esquecemos da estrelinha. O Ruben tinha avisado para isso e o segundo tempo confirmou que a João Pereira tem também faltado sorte: 2 remates à barra. A equipa reentrou bem e fez uns bons 15 minutos. Mas depois cedeu ao nervosismo, começou a lançar a bola na frente à toa em vez de jogar de ouvido como antigamente. Faltou um grito para dentro do campo e as coisas complicaram-se ainda mais. Nesse particular, Trincão teve uma noite desinspirada e estragou quase todos os lances em que entrou. Nesse transe, ele e Bragança ignoraram, em duas ocasiões distintas, Matheus Reis isolado pela esquerda. E quando Braganca saiu, a equipa deixou de ter cérebro e passou só a viver da emoção. Bem lutou Gyokeres para evitar o nosso fado, mas a equipa não o ajudou rigorosamente nada. Pelo que nem mesmo as substituições que desta vez João Pereira não adiou, mudaram fosse o que fosse para melhor. Não, a equipa perdeu-se emocionalmente no relvado. 

Em 2 semanas o Sporting vê-se na iminência de ser apanhado na liderança pelo Porto (e potencialmente ultrapassado pelo Benfica). Acabou-se assim a almofada confortável que amortecia a chegada de um novo treinador. Frederico Varandas bem que pode ser um vidente e ter visto na bola de cristal da Alcina Lameiras em João Pereira o futuro do Sporting com 4 anos de antecedência, mas bastaram 9 dias para que o Sporting perdesse por 3 vezes e 1 dia para que perdesse 6 elementos da equipa técnica. As coisas no futebol mudam muito depressa, dizia Amorim, que foi conseguindo adiar essa mudança antes de ele próprio mudar para Manchester e deixar os jogadores que em si acreditaram órfãos com dois terços da época por completar. Nessa recriação de Amorim do célebre ditame de Pimenta Machado de que no futebol o que hoje é verdade, amanhã pode ser mentira, Varandas até pode estar certo e o amanhã provar que a presente desconfiança de sócios e adeptos é mentira. Mas é preciso cuidar de que haja amanhã, e isso trata-se no presente, que a natureza tem horror ao vazio e logo surgem ervas daninhas. Ou então, o presente trata de nós, um presente que certamente nenhum Sportinguista desejará em época natalícia.  

 

Tenor "Tudo ao molho...": Gyokeres

IMG_3527.jpeg

 

 

03
Dez24

Pote, o explorador do espaço


Pedro Azevedo

Primeiro o Sputnik, depois a cadela Laika, por fim um homem a estrear-se no espaço, o astronauta Yuri Gagarin. O espaço é um vácuo quase perfeito, sem ar, mas contendo muitas formas de radiação, algumas partículas de gás, poeiras e outras matérias que flutuam nesse vazio. Como explica a Teoria da Relatividade, o tempo passa mais depressa no espaço do que na Terra, formando uma entidade denominada espaço-tempo que é influenciada pela gravidade e velocidade. 

 

Não sei se o Pote é admirador de Gagarin e dos astronautas em geral, mas nos relvados do futebol português ele é o descobridor de espaços por excelência. Motivado pelas dinâmicas criadas por Rúben Amorim, que privilegiavam um conjunto de movimentos que se destinavam a encontrar o espaço livre, Pedro Gonçalves conjuga a inteligência e a velocidade de execução perfeitas para se mover como ninguém na direcção dessa zona onde o ar é rarefeito e não há tempo a perder. 

 

Ao contrário de João Pereira, que tem a obsessão do preenchimento prévio do espaço, Rúben Amorim sabe que o espaço não se ocupa, descobre-se, surpreendendo o adversário exactamente por o encobrir até ao último momento, como se antes o disfarçasse entre uma nuvem de poeira. Ou seja, Amorim tem a noção de que o espaço está lá, onde se esconde, e conduz as suas peças de forma a criar um engodo que afaste o oponente desse espaço. Para tal, necessita de um génio que entende a relatividade e conheça na perfeição o conceito de espaço-tempo que é tudo no futebol: Pote. 

 

Partindo habitualmente de uma ala, Pote vai em busca do jogo interior, promovendo simultaneamente o "overlap" dos alas. Assim fica com pelo menos duas opções de passe, associando-se a um terceiro elemento para criar um jogo de triângulos que visa encontrar um espaço entre lateral e central adversários. Esse terceiro elemento pode ser o ponta de lança em apoio frontal ou um médio que entre pela esquerda (Morita ou Bragança). A qualidade da sua execução faz o resto, poupando-lhe o tempo suficiente para que o adversário não descubra o espaço livre antes que a bola aí chegue a um seu colega de equipa. É de dissuasão que falamos, e isso é bem mais eficaz do que o jogo posicional que arrasta com ele a concentração de múltiplos adversários. Ou como o modelo de Amorim gera uma dinâmica de equipa e o de João Pereira depende mais da inspiração individual de dribladores como Edwards ou Trincão. A diferença será só Pote? Não me parece, porque a ideia do João é dissuadir e concentrar no meio para libertar nas alas e a mais-valia do Pote é a exploração dos espaços interiores que só ele é capaz de vislumbrar, o que só é possível na medida em que se serve da ala para partir de frente para o jogo e não de costas para ele, mais central e demasiado perto do ponta de lança (como Edwards, actualmente).

pote de ouro.jpg

01
Dez24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Momentâneo lapso de razão?


Pedro Azevedo

O Einstein, que aparentemente não era burro nenhum, dizia que insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes. Ora, eu espero que o João Pereira não seja louco, por ele e por nós. Talvez só queira contrastar com quem o precedeu, o que é humano mas pouco inteligente e recomendável quando se tem nas mãos um F3 que Amorim evoluiu para um F1 e já tem muita rodagem. Mas quando o João lança de novo de início o Edwards em modo morto de sono eu fico logo a imaginar a alegria dos cemitérios que os Sportinguistas no fim vão sentir...

Uma das coisas que me davam gozo no tempo de Ruben Amorim era o nosso jogo de triângulos. Pois bem, isso ontem esteve ausente. Ou melhor, se houve algum triângulo, ele foi obtuso. Pelo que de geometria euclidiana estamos conversados, deve ser coisa da antiguidade clássica. Sem jogo interior que desbloqueasse a contenda, regressámos ao chuveirinho para a área. Ora, para chuveirinho, logo meter água quando não se tem um avançado cabeceador, também podia eu dirigir do banco o futebol do clube. E se é para criar uma oportunidade flagrante de golo durante todo o jogo, então o José Pereira e a ANTF que esqueçam os treinadores encartados, porque, se o nível III é isto, 3 milhões de Sportinguistas estão habilitados para treinarem a equipa: 

 

Depois, o João ainda agora começou e no arranque para o campeonato já conseguiu vários recordes: perdemos em Alvalade após 31 jogos invictos e não marcámos um golo pela primeira vez em 53 jogos. É obra de Academia!!!

 

Também gostava de saber onde anda o Diomande de antes da CAN. Dão-se alivíssaras a quem souber do seu paradeiro. Ver dois contra um e os nossos dois irem para o vazio e o um deles ir para o lado da bola é coisa para matar do coração qualquer treinador, e disso o João Pereira não tem culpa. Mas foi assim que o Santa Clara ganhou o jogo, contando também com a inação do guardião Kovacevic que confundiu o remate com uma fotografia e ficou a posar. A posar a a pousar... os braços e as pernas. Será modelo fotográfico? Lá altura tem para isso...

Já se sabia que este campeonato tinha de ser para o Benfica. Mas, apre, ao menos que eles façam por o ganhar, ou então que apareça um ou mais árbitros do jeito daquele que os apitou no Mónaco a fim de que vençam. Agora, sermos nós a oferecer-lhes o campeonato de bandeja deixa-me doente. Bem sei, o Natal está aí à porta, mas o Pai Natal desde o tempo da Coca-Cola que não é verde. 

Bom, vamos lá a ver se isto ainda se compõe. Para vos ser franco, não estou muito optimista. Mas, enfim, a esperança é verde, não é verdade? Porém, não faria mal ao João Pereira ler o William Blake quando ele escreve "como saberes o que é suficiente, se não souberes o que é demais?" João, o Edwards é demais, ok? E se o João não entende, vai acabar por perceber tarde e a más horas que está a mais. Para mal dos nossos pecados, embora o pecado original tenha sido do Amorim ao aceitar dar uma dentada na maçã do United que pelo andar da carruagem se traduzirá no Sporting, e não o microfone, ir ao chão. Como a sucessão preparada há meses pressupunha um patamar superior, não sei se há alguma solução externa para fazer com que isto seja levantado do chão, até porque o especialista que tinha o enredo na ponta da língua (Saramago) já não mora aqui. 


P.S. Há alguma lei da República, regra, procedimento, código de conduta ou manual de boas práticas que impeça o Quenda de procurar o 1x1? É que parece que o Amorim levou o seu drible para Manchester... 

 

Tenor "Tudo ao molho...": { }

IMG_3526.jpeg

 

 

 

Pág. 2/2

Mais sobre mim

Facebook

Apoesiadodrible

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub