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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

06
Jan24

Tudo ao molho e fé em Deus

Gyokeres oxidou o Limão Mecânico


Pedro Azevedo

Se no cinema estamos habituados ao conceito de filmes de autor, realizados por visionários como Hitchcock, Tarantino, Scorsese, Almodóvar, Kurosawa, Godard ou Fellini que se destacam pela sua singularidade e inovação, no jogo da bola também existe o chamado futebol de autor, desenvolvido ao longo dos anos por revolucionários do jogo como Herbert Chapman, Helenio Herrera, Gusztáv Szebes, Rinus Michels, Johann Cruijff, Arrigo Sacchi ou Josep Guardiola. No futebol, o rótulo é atribuído a partir do momento em que se nota uma personalidade própria e muitas vezes disruptiva no trabalho do treinador. Porém, não só de equipas grandes se faz a história do futebol de autor, há também casos de sucesso que envolvem pequenos clubes que se tornam rapidamente de culto. Como a Atalanta, de Gasperini, ou o Brighton, de De Zerbi. Ou, em Portugal, o Estoril, de Vasco Seabra, com a conceptualização de um carrossel que se desenvolve a partir de um sistema base de 3-4-3. Dada a cor das camisolas, a escassez de recursos financeiros e a óbvia influência holandesa no seu jogo, para efeito desta crónica vou denominar o modelo canarinho como "O Limão Mecânico": Seabra baseou-se no princípio de que se a vida nos dá limões, então fazemos uma boa limonada. Assim, conseguiu reunir e potenciar um conjunto de muito razoáveis jogadores, adaptáveis ao seu sistema e modelo, que bem espremidos vêm batendo o pé aos Grandes, garantindo pontos e a admiração da comunidade futebolística em geral. O problema é que ontem o Estoril deparou-se com Gyokeres, o homem que veio do gelo. Com o contacto, o limão secou e a sua mecânica enferrujou, ou seja, Gyokeres oxidou o Limão Mecânico.  

 

Com o Belchior, o Baltasar e o Gaspar presos no trânsito caótico de uma sexta-feira ao fim da tarde na 2ª Circular, o Viktor desdobrou-se em vestir a pele de todos eles e de enfiada começou a distribuir presentes pela equipa, naquilo que foi o último ensaio geral para as festividades de um Dia de Reis comemorado à espanhola (ou não houvesse um dedo de Guardiola na forma como o Sporting joga e não deixa jogar o adversário). Como figurantes, os jogadores do Estoril, com defesas a atacar como avançados e avançados a organizar o jogo desde trás como se fossem defesas. Na antecâmara, a imprensa desportiva havia elogiado sobremaneira a melodia saída da imaginação do maestro e compositor Vasco Seabra, uma espécie de caixinha de música em forma de carrossel de Natal. Mais uma equipa de autor, mais um tremendo desafio para o Sporting de Ruben Amorim, dizia-se. No jogo, porém, a equipa da Linha não entoaria mais do que o som do silêncio ("Sound of Silence")... Para começar, o Gyokeres apareceu na esquerda, Pela frente, o Rodrigo Gomes, bom jogador e a última coqueluche do futebol nacional. Não demorou mais do que uns poucos segundos para que o Gyokeres desarticulasse o pobre do Rodrigo até entregar de presente ao Edwards. Não contente, o sueco passou para a direita. Recebe do Geny. Pela frente o Pedro Álvaro, já exaurido pelo sprint prévio. Faz que vai para dentro, mete por fora, o Pedro como se estivesse numa sauna, fora do caminho, e novo presente açucarado para o Edwards: 2-0 no marcador, os estorilistas foram apressadamente para o balneário à procura de um ortopedista que lhes voltasse a atarrachar as partes do corpo que se soltaram no relvado de Alvalade. Reinício do jogo e grande jogada de um apanha-bolas do Sporting: o miúdo repõe a bola rápida e sincronizadamente para o Gyokeres, que, acto contínuo, a lança à mão para o Nuno Santos. O remate ainda é deflectido, mas só para nas redes do Estoril. Mais um presente. De seguida, o Pote recupera a bola e avança. Tem dois adversários pela frente, mas o Gyokeres arrasta ambos numa diagonal e o Pote fica isolado e faz um daqueles célebres passes à baliza cujo resultado é o golo. Novo presente, ainda que indirecto. Depois, o sueco antecipa-se e serve Trincão. Novo golo, o suspeito do costume na assistência. Muita Parra e pouca uva depois, o pobre do Raul vê o Gyokeres passar como cão por vinha vindimada. O presente era, de novo, para o Edwards, mas um canarinho antecipa-se e o Geny na ressaca atira por cima. 

 

O resultado está mais ou menos feito. O Quaresma, grande exibição, salva o golo de honra do Estoril, substituindo-se ao Adán. Edwards e Geny isolam à vez o Gyokeres, mas o sueco está em noite de entregar presentes e não de desembrulhar os presentes dos outros como é seu timbre. Edwards ainda atira ao ferro, mais tarde Pote replicá-lo-á. Pelo meio, o Estoril marca: uma bola parada, que geralmente é defendida à zona. Mas o Sporting defende-a com zona, o que é uma outra coisa, infecção viral que afecta pele e corpo e contagia toda a equipa. Desta vez o portador é Paulinho, que assiste magistralmente um jogador do Estoril para golo - mais um triunfo do futebol associativo.

 

O jogo termina. Mais um teste vencido pelo Sporting de Ruben Amorim. Mais uma equipa com direitos de autor protegidos que não passou a sua musiquinha. Toda a gente conhece como o Sporting joga, poucos sabem como desmontar a forma como o Sporting joga. Da mesma forma que conhecimento é ter a noção de que o tomate é um fruto e  sabedoria é não misturá-lo numa salada de frutas. Compreender o Sporting é fácil. No papel tudo é lógico, tudo faz sentido: encaixam-se os nossos corredores num fecho-éclair, cava-se um dique para impedir a passagem da bola entre os centrais e os médios... Mas depois a bola entra directa no Gyokeres e este mostra ter a intuição que derruba qualquer lógica. Enquanto os outros pensam, ele acredita. E nós, também!!!

 

Feliz Dia de Reis!!!

 

P.S. Já toda a gente sabe que o Edwards é um bocadinho como o Sitting Bull: dentro do campo é um guerreiro a atacar, mas fora dele é sossegado, não fala, apenas murmura, pelo que é mais ou menos indiferente a língua em que lhe façam as perguntas. Sugestionado por isso, o jornalista da SportTV inventou um novo dialecto. Não havia necessidade, mas acabou por ser um momento televisivo "importanting"...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Viktor Gyokeres

gyokeres estoril.jpg

03
Jan24

Gyokeres vs Paulinho = Intuição vs Lógica


Pedro Azevedo

Não será certamente novidade para ninguém a constatação de que os dois pontas de lança do Sporting, Paulinho e Gyokeres, têm características muito diferentes. O português faz lembrar um professor universitário, é um pensador do futebol associativo, na sua mente evoluem em simultâneo milhares de combinações possíveis de ligação com os companheiros e de definição à frente da baliza. O seu problema é ser frequentemente traído pelo corpo: ele pensa bem, mas executa mal, como se essencialmente o seu corpo servisse o propósito de transportar a sua cabeça. Não admira porém, dada a forma como na sua cabeça entende o jogo, que seja um dos preferidos do treinador, que vê nele a extensão das suas ideias no campo. Em sentido contrário, o sueco é um hiperactivo, isto é, faz parte de um grupo de pessoas que precisa de se mover para pensar melhor, para se focar. Se não fosse futebolista, provavelmente teria sido bailarino ou actor. Forçado a parar, perderia toda a relevância, pelo que  toda a sua criatividade advém do movimento do seu corpo, nessa catarse despertando-se todos os seus sentidos: o tacto com que utliza o seu corpo para vencer duelos individuais, o olfato que lhe permite cheirar o golo, o palato que lhe dá a percepção do momento ideal para surpreender os guarda-redes, a audição com que atesta o desgaste dos seus adversários e a visão que lhe permite descobrir os caminhos para o golo. A sua inteligência é intuitiva, evoluindo do elementar, que surge da percepção de que determinado movimento irá desequilibrar o adversário, para uma sistematização de procedimentos robotizada típica de um tenista ou xadrezista, concluíndo as suas acções como se de repente se fizesse luz e a resposta certa aparecesse na sua mente. Ao contrário de Paulinho, que procura a lógica para melhor analisar e traduzir o que se passa em campo, Gyokeres fia-se na sua intuição, como se do produto da sua imaginação lhe surgisse uma realidade evidente. Uma realidade que não tem a preocupação de interpretar, mas sim de criar. Porque ele não "pensa", ele acredita! Por isso nunca duvida, o que já não acontece com Paulinho, dando assim razão a Einstein quando este proclamou não haver qualquer caminho lógico para a descoberta das leis do Universo, sendo o único caminho a intuição. 

GYOKERES PAULINHO.jpg

02
Jan24

Bons princípios


Pedro Azevedo

Aqui há uns anos, o Renato, acabadinho de chegar do Salgueiros, deslocou-se à sala de imprensa do Sporting para dizer que via o clube como um trampolim para o Inter de Milão. Obviamente, enganou-se na modalidade e só por inacção dos dirigentes da época não foi logo direitinho à porta de saída e se fez à (gymna)estrada. (O passo seguinte na sua carreira foi um mortal à rectaguarda até Setúbal, e depois Leiria, Leixões e o regresso ao Salgueiros, sua casa de partida.) Por isso, foi reconfortante ouvir hoje o recém-apresentado Rafael Silva afirmar que o Sporting é o auge da sua carreira. É o que se chama um bom começo, e um começo é sempre um princípio. Princípios e valores de que se faz a história do Sporting Clube de Portugal. Boa sorte, Rafael!

rafael silva.jpg

02
Jan24

A obra de arte do Jardel


Pedro Azevedo

A história da Humanidade está cheia de momentos de grandiosidade do Homem, provando aquilo de que este é capaz quando as suas energias são canalizadas para a construção de algo de belo. O Cristo Redentor, Machu Picchu, Chichén Itzá, o Coliseu de Roma, o Taj Mahal, as Ruinas de Petra ou a Grande Muralha da China são um bom exemplo disso, mas nem só de pedra se edificam as obras de arte. A Odisseia, de Homero, Moby Dick, de Melville, Ulisses, de James Joyce, ou Os Lusíadas, de Luiz Vaz de Camões, são a prova disso nas letras. Mas como a vida também é feita de detalhes consubstanciados em momentos singelos e sublimes, sem os quais a vida seria muito menos interessante, quem é que nunca se sentiu esmagado com a voz de Pavarotti em Nessun Dorma (Turandot), encantado com o solo de saxofone de Andy Mackay em A Song for Europe, identificado com a interpretação de Jealous Guy com que Ferry conseguiu suplantar o mito Lennon ou sem fôlego com When the Music's Over, do Morrison? E é nesses momentos únicos e inesquecíveis que incluo o segundo golo de Maradona à Inglaterra e, permitam-me puxar a brasa à minha sardinha, o infra golo salvador de Jardel no último minuto de um jogo em Alvalade contra o Vitória de Setúbal, que acompanhei epicurista e epicamente num jantar com amigos através da telefonia do Tomaz. Jardel que, voando sobre os centrais como só ele sabia, também está imortalizado nas letras e na música através da parceria Carlos Tê/Rui Veloso.  (Já o associativismo do Paulinho é outra música, uma simbiose perfeita que agora até envolve adversários outrora disponíveis unicamente para parasitarem o nosso jogo, devendo passar no futuro a ser mencionado como a 8ª maravilha da Humanidade.)

02
Jan24

A natureza, o futebol e as vacas


Pedro Azevedo

Aborrecido com um jogador que insistia em levantar a bola, chamou-o perto de si:

- "A bola é feita de quê?" - , indagou.

- "De couro!" -, respondeu prontamente o jogador.

- "E de onde vem o couro?" - , insistiu o treinador.

- "Da vaca!" 

- "E onde pasta a vaca?" 

- "Na erva!"

- "Então, cara, bate a bola junto à erva (n.a.: relva)!..." - , concluiu o treinador. 

 

O nome do jogador não passou à história, ao contrário do de Gentil Cardoso, treinador brasileiro que esteve na origem da campanha vitoriosa do Sporting na Taça dos Vencedores das Taças (1964). Ou como o futebol também se explica com parábolas não descritas pela própria bola. 

Gentil cardoso.jpg

01
Jan24

Curiosidades sobre o Campeonato


Pedro Azevedo

Chegados ao novo ano, eis algumas curiosidades sobre o Campeonato:

 

1) O Braga (4º classificado) é a equipa mais goleadora (39 golos);

 

2) O Famalicão (7º) é a equipa menos goleadora (13 golos);

 

3) O Benfica (2º) tem a defesa menos batida (10 golos);

 

4) O Chaves (18º) tem a defesa mais batida (39 golos);

 

5) O Benfica tem a melhor diferença de golos (18);

 

6) O Sporting é a equipa com mais pontos (37), apesar de só ter a 4ª melhor defesa. Isto vem contrariar a ideia generalizada que as melhores defesas ganham competições;

 

7) Na classificação, logo após os 3 Grandes encontram-se 4 equipas do Minho (Braga, Vitória, Moreirense e Famalicão), o que repercute a força do tecido produtivo da região;

 

8) Em termos de forma recente (últimos 5 jogos), o Braga lidera, seguido por Porto, Benfica, Estoril, Arouca, Vitória e Moreirense. O Sporting é apenas 8º;

 

9) O Sporting tem o melhor desempenho em casa (24 pontos), seguido por Vitória (18), Benfica (17), Porto (16) e Gil Vicente (15). Curiosamente, todos os pontos do Gil foram conquistados em casa. O Casa Pia tem o pior desempenho caseiro, provavelmente por "andar com a casa às costas" (5);

 

10) Fora de casa, o Braga tem o melhor desempenho (19 pontos), perseguido por Benfica (19), Porto (18), Moreirense (15) e Sporting (13); 

 

11) Entre os 10 maiores goleadores constam apenas 2 portugueses (Horta e Paulinho). Depois há 3 espanhóis (Hernandez, Mujica e Cristo), 1 congolês (Banza), 1 francês (Essende), 1 sueco (Gyokeres), 1 brasileiro (André Luis) e 1 eslovaco (Bozenik).

01
Jan24

Ranking GAP Sporting


Pedro Azevedo

Nesta temporada de 2023/2024, o Sporting disputou até agora 25 jogos - 15 para o Campeonato Nacional, 6 para a Liga Europa, 2 para a Taça de Portugal e 2 para a Taça da Liga -, obtendo 19 vitórias (76%), 3 empates (12%) e 3 derrotas (12%), com 59 golos marcados (média de 2,36 golos/jogo) e 26 golos sofridos (1,04 golos/jogo).

 

A nível individual, eis os resultados (estatísticas de golo):

 

1) Ranking GAP (medalheiro): Gyokeres (18,6,6), Paulinho (11,1,2), Pote (6,6,6);

2) MVP: Gyokeres (72 pontos), Paulinho (37), Pote (36); 

3) Influência: Gyokeres (30 contribuições), Pote (18) e Edwards (15);

4) Goleador: Gyokeres (18 golos), Paulinho (11), Pote (6);

5) Assistências: Gyokeres, Pote e Nuno Santos (6).

 

Fazendo uma análise por sectores em termos de pontos MVP (golo=3; assistência=2; participação=1), teremos:

 

Pontas de Lança (total=109): Gyokeres (72) e Paulinho (37);

Interiores (total=72): Pote (36), Edwards (27) e Trincão (9)

Médios (total=32): Bragança (13), Morita (10) e Hjulmand (9);

Alas/laterais (total=49): Nuno Santos (25), Geny (11), Matheus Reis (9) e Esgaio (4);

Centrais (total=34): Coates (11), Inácio (10), Diomande (9), Neto (3) e St Juste (1).

Conclusões:

  • A posição de Ponta de Lança esta época destaca-se da de Interior em termos de pontos MVP, ao contrário de anos anteriores. A diferença é marcada claramente por Gyokeres;
  • Ordem de importância no golo: Pontas de Lança, Interiores, Alas, Centrais e Médios;
  • Um total de 18 jogadores contribuiu para os golos leoninos;
  • Gyokeres lidera todas as classificações de estatísticas ofensivas: GAP, MVP, Influência, Goleador, Assistências;
  • Intervalos (minutos/golos): 0-15 (8), 16-30 (7), 31-45 (10), 46-60 (14), 61-75 (8), 76-90 (12) - O Sporting marca claramente mais golos no segundo tempo (34) do que na primeira parte (25). O intervalo predominante é o primeiro primeiro quarto de hora do segundo tempo (23,7% dos golos);
  • Influência de Gyokeres: 50,84% dos golos totais do Sporting (de fora em 4 jogos). Influência de Gyokeres nos jogos que disputou (21): 60% dos golos marcados (50) pelo Sporting nesses jogos;
  • Nuno Santos tem uma influência importante entre os lateais/alas (13 contribuições nos golos contra 2 de Esgaio).

 

Ranking GAP (Golos, Assistências, Participação decisiva em golo):

ranking gap 25 2024.png

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