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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

31
Jul23

Encontro de duas ideias


Pedro Azevedo

O Sporting passou da aposta na profundidade e transição rápida (época do título) para um tipo de futebol que privilegiava a posse e construção desde trás (últimas duas temporadas). Apesar da filosofia diferente, os resultados foram semelhantes nos dois primeiros anos. Na minha opinião, tal deveu-se ao futebol heavy-metal de Matheus Nunes, que garantia algumas transições que na primeira época estavam exclusivamente entregues a dianteiros como Sporar ou Tiago Tomás (João Mário temperava isso pondo gelo nos jogos), criando assim uma cambiante a um jogo mais organizado e porventura mais previsível. Com a saída de Matheus, aliada às características específicas de Paulinho (ponta de lança associativo, com pouco golo e que não explora a profundidade), o nosso jogo tornou-se monocórdico, razão que justifica em parte a queda nos resultados verificada na última época. Agora, com Gyokeres, o Sporting é muito mais imprevisível, pois o sueco é um 2 em 1, isto é, não só tem a capacidade de segurar a bola e dar apoios (ou, dada a sua força, virar-se na direcção da baliza) a jogar de costas como também é sôfrego na procura da profundidade. Com esta adição ao plantel, Ruben Amorim consegue de uma só pázada compatibilizar a fórmula vencedora de 20/21 com aquilo que entende ser a forma preferencial (mandona) de jogar de uma equipa grande. Se o clube conseguir ir buscar um "6" estilo Palhinha (essencial num sistema que só contempla 2 médios centro) e um "8" de transição (mais de levar a bola) que contraste com as características de Morita (apesar de se lhe notar uma evolução já não tão fácil de estereotipar, essencialmente passe e aproximação, tal como Bragança), o que me parece essencial numa temporada longa que não pode ser preenchida por um único médio que dê garantias (Daniel vem de lesão e Pote não tem a agressividade requerida em certos jogos e é imprescindível como interior), então acredito que lutará pelo título até ao fim com Benfica, que parte à frente, e Porto, que é sempre um osso duro de roer. Mesmo sem investir num lateral/ala direito, até porque Geny Catamo (ala de pé trocado não me agrada tanto, mas confesso que o jogador me impressionou contra o Villareal) e Afonso Moreira (explosivo, gostava de o ver testado aí) poderão ser reforços interessantes encontrados dentro de casa. (Se só houver dinheiro para duas inclusões no plantel, de caras preferiria a solução de 2 médios a uma outra de 1 médio e um lateral/ala.)

29
Jul23

A ilusão dos milhões


Pedro Azevedo

Há um certo tipo de adepto do futebol português para quem o milhão exerce muito mais fascínio que o golão. Para este $upporter, a Formação é vista como o porco que é preciso apressadamente entoirir até ao cachaço para a matança, afiando o dente de cada vez que a imprensa o encandeia ao dar eco de valores miríficos que só as melhores lavandarias ou estratégias geopolíticas de estados soberanos podem acompanhar. A coisa cria alguma perplexidade, desde logo por não se entender que o adepto não prefira a degustação de um menu de Guia Michelin ao deslumbramento por um evento onde não tem sequer lugar à mesa. É que no dia da matança quem habitualmente se empaturra à grande e à inglesa (o equivalente à francesa quando o menu é futebolístico) nem é afecto ao clube (empresários de jogadores), apenas quer ter um "Good Year". Sendo assim, em termos de analogias que envolvam recos eu prefiro a do porquinho-mealheiro. Não há nada como ir poupando cêntimo a cêntimo e não ter de vender. Não gastando superfluamente em compras na Feira de Carcavelos, não se endividando, tirando rendimento daquilo que desde cedo se foi produzindo com um controlo de qualidade que ao longo do tempo se pode ir monitorizando e testando. 

 

Alegorias à parte, formar com qualidade e para ganhar (complementado com um bom Scouting que permita detectar jovens talentos ainda a um bom preço e com contratações cirúrgicas de jogadores já com provas dadas e em momento ascensional na carreira), nesse processo mantendo custos controlados, deve ser o paradigma. Formar, pensando na lógica da venda posterior, é apenas uma construção falaciosa e novo-riquista que, como abundantemente se tem visto, não garante a sustentabilidade no futuro nem cria no jogador um compromisso com o clube. Um jogador de futebol contabilisticamente é um activo. Tem um valor (preço, aquando da compra/venda), um rendimento e uma data de expiração. Mas não é uma acção, uma obrigação ou um sobreiro, tem pensamento próprio, expectativas. Saber gerir o momento de saída de um jogador será uma ciência. Mas a venda deverá sempre ser suscitada por ser uma boa oportunidade para ambas as partes e estar na calha quem substitua o atleta com um rendimento presumivelmente igual ou superior, e não por a tesouraria necessitar da venda para pagar salários. Até porque os jogos ganham-se com os melhores e a economia está cheia de exemplos que nos mostram que a produção não é infinita e há custos de oportunidade. Para além de que o que verdadeiramente mata do ponto de vista financeiro os clubes é o desequilíbrio entre custos e proveitos ordinários, e isso é uma ilusão pensar-se que se resolve sucessivamente com vendas de jogadores. A história está aí para o provar, pelo que nenhum clube será capaz de sobreviver a médio/longo prazo se não tiver custos de estrutura eficientes e um sólido crescimento dos proveitos fora da actividade de trading de futebolistas. Esse aliás é o único caminho para a perenidade de equipas competitivas no plano desportivo. E para continuar a vencer no futuro. 

P.S. A única equipa fora das Big5 que se conseguiu apurar para umas meias-finais da Champions (esteve a 1 segundo da final) desde 2010 foi o Ajax. A época foi a de 18/19. Dois anos antes o mesmo Ajax havia sido finalista da Liga Europa contra o Manchester United de Mourinho. A base da equipa era a mesma.

 

"Fugayzi, fugazi, it's a whazi!" - Personagem interpretada por Matthew McConaughey em "O Lobo de Wall Street"

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27
Jul23

Telma e a encarnação do FF


Pedro Azevedo

Se bem me lembro, como diria o professor Vitorino Nemésio - um homem que já pensava o presente e o futuro uns bons anos antes de Agostinho da Silva se ter tornado (re)conhecido -, o primeiro compromisso internacional de uma Selecção nacional sénior feminina ocorreu contra a Itália. Do pouco que guardo na memória dessa época, tínhamos uma guarda-redes de nome Gena e a melhor jogadora chamava-se Alfredina. Foi o primeiro "boom" do futebol feminino (FF) português, alicerçado nas meninas do Boavista, o clube pioneiro desta grande aventura. Faltou consistência e uma aposta global de clubes e Federação para que o fenómeno vingasse e derrotasse o preconceito, pelo que as fundições ainda imberbes ruíram e o FF regressou a uma semi-clandestinidade. O "Futebol das Meninas" suscitava curiosidade, atraía um certo voyerismo, mas não era levado a sério. Até que, devido ao empenho da actual Direcção da FPF, adesão de clubes como o Sporting, Benfica ou Braga e qualificação de técnicos com uma competência específica, o que antes se estranhava entranhou, encarnou. E deu asas ao sonho: após um Europeu, estamos agora numa fase final do Mundial, pelo que as gerações ligadas a estas conquistas figurarão na história do desporto português. Um nome, decerto, não será jamais esquecido. Trata-se de Telma, madeirense como Ronaldo, e será lembrada por ter sido a autora do primeiro golo de Portugal em fases finais de mundiais. É verdade, no Jardim do Atlântico continuam a nascer as mais finas flores. Será do clima, da terra ou dos adubos? Seja como for, Portugal agradece. Um beijinho à Telma e boa sorte para o jogo com os Estados Unidos. Afinal, o sonho madeirense desde o Sec. XIX é conquistar a América, não é verdade? 

FF PORTUGAL.jpg

27
Jul23

Observação


Pedro Azevedo

Por aquilo que vi no jogo contra a Real Sociedad, onde várias foram as ocasiões em que foi agarrado, empurrado ou até mesmo pontapeado (obviamente) à margem da lei, talvez não fosse má ideia o Sporting começar a preparar uma campanha doméstica do tipo "deixem jogar o Mantorras" para o Gyokeres. Just in case...

gyokeres.jpg

26
Jul23

Abre los ojos


Pedro Azevedo

De Gyokeres escrevi anteriormente, parafraseando o poeta Régio, ser "um vendaval que se soltou, um átomo a mais que se animou, uma onda que se (a)levantou". Faltou só dizer que é também alguém que nos mostra o que deve ser um ponta de lança e nos reconcilia com a função, não vá alguém querer permanecer na escuridão (Alegoria da Caverna) e insistir em não ver o óbvio ululante de que falava o genial Nelson Rodrigues. Esse alguém porém já não será Ruben Amorim, que arrepiou caminho e tanto procurou esta solução no defeso, convertido que ficou às características deste sueco que tantas expectativas positivas vem criando nos Sportinguistas.

25
Jul23

Preparação a bem da Nação


Pedro Azevedo

A preparar a nova época desde Fevereiro de 1906, data curiosamente anterior à da sua própria fundação, o Sporting parte muito à frente dos demais. Nesse sentido, tudo está a decorrer como o planeado, destacando-se mais uma lesão programada do St Juste. E novidades? Depois do Gyokeres veio o Carmona. Este regressou à origem e agora aguarda-se com expectativa pelo Craveiro Lopes. Antes que caia o Carmo (e a Trindade) ainda haverá tempo para assinar por três anos com o Américo Thomaz se o seu agente (da PIDE) o permitir, uma alternativa ultra-conservadora para a ala direita, que o estado é novo e, agora na versão 2.0, altamente recomenda-se. Entretanto, qualificámo-nos pelo quinto ano consecutivo para a Liga dos Campeões das vendas de Gameboxes. Infelizmente, fontes bem informadas apontam para que tal competição volte a ocorrer à porta (meio) fechada, o que talvez explique a razão de, recorde após recorde, o valor da bilhética não descolar. (É impressionante o que uma simples consulta do R&C nos pode transmitir, mérito do Dr Varandas, que nos mandou escarafunchar no dito Relatório.)

 

Pois é, o Campeonato está já aí ao virar da esquina. E há um puto da Formação a fazer crescer água na boca (Afonso Moreira). Nada porém que nos deva desenfocar dos 3 principais objectivos da época, a saber: Taça da Europa do arremesso do azulejo, Liga Mundial de pistola de tinta de ar comprimido e, quiçá, Fosso Olímpico. Força, Sporting!!!

 

P.S. Quem não tem Di Maria, caça com Di Cardoso. Se não der para mais (caça grossa), ainda temos a Caça Submarina, uma tradição leonina desde os saudosos tempos do eclético Bessone Basto. Pode ser que assim pesquemos uma "truta"...

24
Jul23

Golfinho de prata


Pedro Azevedo

O nadador português Diogo Ribeiro, de apenas 18 anos, que entrou na final (o mais novo em competição) com apenas o 7º tempo entre os presentes, acaba de sagrar-se vice-campeão mundial nos 50m mariposa, o maior feito da natação nacional de sempre, superando o 5º lugar de Yokochi em 86 (Madrid, 200m bruços). Recém-medalhado de prata, o "golfinho luso" obteve também um novo recorde nacional absoluto, terminando a prova com 22,80s, uma progressão de 16 centésimos face ao seu recorde mundial junior alcançado o ano passado em Lima (Peru). Um dia histórico para o desporto nacional, nestes campeonatos que se estão a disputar em Fukuoka, no Japão, e que pouca ou nenhuma cobertura mediática vêm merecendo dos OCS portugueses. 

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20
Jul23

João Félix


Pedro Azevedo

Para quem vê o futebol como arte, o delicado entrelaçar de jogo que nasce no seu cognito e logo floresce nos seus pés capta a atenção como se de uma bela e complexa peça de filigrana se tratasse. Não é só o que se vê, é muito também o que se sente: o som perfeito que a bola emite quando por ele impelida, o perfume requintado derramado no acto, a intenção que quase conseguimos tocar latente em cada sua acção, a água que nos cresce na boca como que a pedir sempre mais. Tudo isto nos acontece porque Félix é um dos raros futebolistas que nos despertam os cinco sentidos. 

 

Porém, e apesar de todos os predicados, a carreira de Félix tem ficado aquém. Porque não só de talento se faz um caminho, é preciso trabalho, consistência e atitude mental. E é especialmente nesta última que as coisas falham. Produto de um endeusamento prematuro, nele notam-se inequívocos traços de arrogância e até soberba, exacerbados por uma opinião publicada que tudo desculpabiliza e escamoteia, prestando assim uma mau serviço ao jogador e ao futebol. Porque, se Félix quer ainda ser relevante no firmamento do futebol mundial, precisa de urgentemente arrepiar caminho, começando por enfrentar a dura realidade. E essa diz-nos que, quatro anos após a sua ida para Madrid, continua por confirmar todo o potencial que se lhe augurava. Desperdiçando oportunidade sobre oportunidade no processo, aqui e ali deixando sinais de falta de profissionalismo e de respeito pela entidade profissional. Muitas vezes esquivo como um gato nos relvados, quantas vidas ainda terá Félix? Cada vez menos, supõe-se. Por isso, não é tempo de paninhos quentes, a ditadura estatística diz-nos que o craque português tende cada vez mais para a irrelevância, não obstante os bons pormenores que vai deixando a cada nova aparição. Tal deveria fazer reflectir o jogador, que neste estádio de desenvolvimento(?) se julga muito melhor do que efectivamente é, provavelmente embalado por uma imprensa nacional meiguinha e pela condescendência da sua entourage pessoal e empresário. Para Félix está assim chegada a Hora H, pelo que ou muda de atitude e com humildade procura relançar a carreira, ou passará à história como um insuportável puto mimado e birrento que um dia prometeu mas não conseguiu mais do que figurar como simples nota de rodapé numa qualquer enciclopédia do mundo do ludopédio. É isto que é preciso dizer quando ainda há algum tempo, essa "mercadoria" que na vida de todos nós tende para esgotar-se. 

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19
Jul23

Craque da semana(5)

Ezequiel Fernandez


Pedro Azevedo

Esta semana trago-vos um médio defensivo. Inicialmente, seleccionei 3 jogadores jovens de perfis diferentes: Ardon Jashari (20 anos), do Lucerna, um pivô com técnica e visão de jogo semelhante a Daniel Bragança; Jean Cajuste (23), do Stade Reims, um jogador com características que fazem lembrar Matheus Nunes; Ezequiel Fernandez (20), do Boca Juniors, mais parecido com Palhinha. Escolhi este último.

 

Ezequiel Fernandez é um jovem formado no Boca que na época passada teve muitos minutos no Tigre, clube em que jogou por empréstimo. Regressado ao Boca, esta temporada vem-se impondo paulatinamente na equipa xeneize (participou em 17 dos 25 jogos da sua equipa na Superliga argentina). Agressivo sobre o adversário, recupera inúmeras bolas e tem o "plus" de rapidamente a colocar à distância, contando para isso com um pé esquerdo que mais parece munido de um GPS. Com um preço ainda acessível (5.5M€ pelo Transfermarket), constitui uma oportunidade interessante de mercado. Quem sabe não estará aqui um novo Enzo?

17
Jul23

Estranha forma de vida


Pedro Azevedo

Portugal foi à final do Europeu de sub-19. E perdeu, como tantas vezes no passado, e até em fases mais prematuras das grandes competições, quando às nossas Selecções, jovens ou sénior, é creditado o favoritismo. A forma como entrámos no jogo, hesitante e desconfiada da nossa própria qualidade e identidade, é paradigmática de uma certa forma de ser e sentir portuguesa que urge erradicar. Mais fiél aos Velhos do Restelo do que aos intrépidos marinheiros que outrora se aventuraram em cascas de noz por esse mundo adentro, o pátrio luso é hoje um ser com dificuldade de se assumir em campo aberto. Talvez por isso recorra tanto ao truquezinho e compadrio, como se precisasse à partida de alguma vantagem adicional para contrapor à sua auto-imposta incapacida. No fundo, é tudo psicológico. Como diria o cronista Nelson Rodrigues a propósito do Escrete Canarinho antes de 58, Portugal sofre do "síndrome de vira-lata", um complexo de inferioridade que afecta a confiança dos portugueses. Assim também o é no futebol, onde só tivemos sucesso quando fomos mesmo "underdogs" e ninguém acreditava em nós, quando priorizámos o sofrimento que nos é natural e não precisámos de assumir uma predisposição para assumir riscos. Mas só aconteceu uma vez, que quem pensa pequeno raramente chega a grande. Porque continuamos a ligar o risco à fatalidade, o fado. E assim não ousamos, com medo que os deuses nos penalizem tal audácia. Foi nesse transe que ontem perdemos com a Itália, a quem na fase de grupos havíamos goleado por 5-1, ficando assim a meio caminho de coisa nenhuma. Em Malta ficou a sensação de que a malta por cá tem de mudar alguma coisa. Começando por revolucionar mentalidades. É necessário ousar. E assumir a ousadia. Sem preconceitos.

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