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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

30
Jun23

O futebol e o mundo

A Laranja Mecânica


Pedro Azevedo

Rinus Michels revolucionou todo o conceito do futebol a partir da década de 60 do Século passado. Antigo professor de ginástica para crianças surdas, Michels chegou ao Ajax em 1965, impondo um estilo de jogo sem posições fixas – Futebol Total – onde a polivalência e a versatilidade sublimavam o talento colectivo, traduzindo-se tudo isto em tremenda eficácia.

 

Embora visionário e genial, Michels necessitava que os jogadores fossem inteligentes e soubessem interpretar em campo as suas ideias. Foi então que se deu um golpe de sorte: Johann Cruyff, praticamente nascido no Ajax – o seu pai vendia fruta numa banca montada nas instalações do clube – despontou em simultâneo com o mestre. Cruyff aportou velocidade, intuição, objectividade e inteligência ao belo jogo dos “lanceiros”. Esta última foi a arma derradeira que permitiu tornar-se no maestro que viria a conduzir a “orquestra” do clube e da selecção holandesa (“A Laranja Mecânica”) durante uma década.

 

Este exemplo inspirador do “mundo da bola” deve ajudar-nos a reflectir a realidade do mundo empresarial. As empresas de sucesso são aquelas que têm uma visão e depois artistas que são os artífices da implementação dessas ideias. Tal, requer energia e um plano, uma estratégia por parte de quem dirige, mas também inteligência, capacidade de trabalho, sacrifício e superação por parte de quem implementa.

 

Vejam o exemplo da Apple: Steve Jobs foi o pensador, o “mastermind”, o homem inspirador capaz de uma visão “out-of-the-box” (como Michels). Os bons técnicos gostam de trabalhar com quem tem ideias (uma competência) e a capacidade de as pôr em prática (outra competência). Por isso, a Apple foi capaz de atrair talento criativo para si, distanciando-se da concorrência.

 

Um líder necessita de um conjunto de pessoas versáteis, polivalentes, com competências diversificadas, os quais devem constituir o seu “staff” próximo. A missão do primeiro deve ser “espremer todo o sumo” que os segundos podem dar. Estes últimos deverão saber interpretar as ideias e passá-las aos “solistas”, que se quer perfeccionistas de forma a executá-las da melhor maneira.

 

Analisando os casos de sucesso, vemos denominadores comuns entre líderes. No entanto, algumas das causas residem na personalidade e carisma de cada um. E envolvem alguns segredos. Como dizia Crujff: “se eu quisesse que entendessem, explicar-vos-ia melhor”.

28
Jun23

A ameaça árabe


Pedro Azevedo

O forte investimento que a Arábia Saudita promete efectuar na contratação de futebolistas estrangeiros deve ser, no contexto deste blogue, analisado do ponto de vista regulatório, desportivo e económico (há certamente também ilações sociais e políticas a tirar, mas não se enquadram nos objectivos de "A Poesia do Drible"). 


Com o apoio estatal, a Arábia irá inflacionar o mercado, desenhando-se a possibilidade de, pelo menos, Catar e Emirados não ficarem totalmente atrás e também eles virem a investir forte no sentido de ambos os países poderem ter uma liga competitiva no contexto do Médio Oriente.

 

O facto do investidor-Estado ser, em simultâneo, dono de clubes europeus coloca questões de transparência e integridade das competições. O futebol mundial tem uma legislação imberbe ou frouxa a nível regulatório e, mais concretamente, de boas práticas, constituindo-se hoje como um potencial paraíso para lavagens de todo o género (de imagem, dinheiro) e promiscuidades diversas. Imaginemos que o investidor-Estado compra os direitos económicos de um jogador para o colocar por empréstimo num dos clubes europeus que detém, contornando assim as regras de fair-play financeiro da UEFA. Ou, que seca os adversários europeus desse clube onde tem um interesse económico, comprando-lhes os melhores jogadores, não estando sujeito às, ainda assim, incipientes regras europeias. Não é que a questão regulatória não já existisse - por exemplo, Red Bull Salzburg e Red Bull Leipzig chegaram a estar os dois apurados para uma meia final da Liga Europa, não coincidindo apenas devido a caprichos do sorteio - , mas ela vai intensificar-se a partir do momento em que há um player que ninguém controla que quer ter um campeonato competitivo e, ao mesmo tempo, possui interesse maioritário em clubes europeus. 

 

Depois, há a questão desportiva: eu não acredito que as ligas da Arábia Saudita, Catar ou Emirados venham a estar ao nível das Big 5 europeias. É certo que num primeiro momento alguns nomes sonantes rumarão a tal destino, mas serão essencialmente jogadores já com uma certa veterania. Pelo que a maior ameaça que descortino prende-se com aquilo a que chamarei a classe média de futebolistas. Esse tipo de jogador, na expectativa de angariar monetariamente o suficiente para resolver a sua vida, será naturalmente atraído pelo El-Dorado que os petrodólares representa, o que irá enfraquecer ligas periféricas como a nossa que irão perder ainda mais competitividade. Se o desnível entre os 3 grandes (e o Braga) e os restantes tem vindo a acentuar-se, a partir do momento em que muitos jogadores de uma classe média se viram atraídos por propostas financeiramente mais atrentes provenientes de Roménia e Polónia, imagine-se o que os milhões do Golfo não poderão provocar...

 

Finalmente, existe a questão económica, do negócio. É previsível que o dinheiro saudita vá inflacionar o já de si inflacionado mercado europeu, elevando preços e acentuando o desnível entre as principais ligas europeias e as restantes, estas últimas com cada vez menor poder aquisitivo. Poder-se-ia pensar que os clubes de países periféricos poderiam ter uma compensação por via da venda de jogadores, mas os sinais que provém da Arábia mostram que o investimento em jogadores de top está essencialmente a ser realizado em jogadores em fim de contrato ou final de carreira, exceptuando-se aqui negócios como o de Rúben Neves (ou, eventualmente, de Bernardo Silva) em que há um montante avultado envolvido. A continuar assim, o investimento saudita traduzir-se-á de uma forma nefasta para os clubes de países periféricos, servindo essencialmente para inflacionar os ordenados dos jogadores, aumentando os custos com pessoal e piorando dramaticamente a conta de exploração e o défice estrutural desses clubes. 

 

Enfim, novos desafios pairam no ar, do ponto de vista regulatório, desportivo e económico. E não me parece que esses ventos de mudança beneficiem de algum modo o futebol português, pelo contrário constituindo-se como uma séria ameaça à sua sustentabilidade (já de si débil).

arabia saudita.jpg

25
Jun23

Craque da semana(2)

Joshua Kitolano


Pedro Azevedo

Na Holanda, mais concretamente no Sparta de Roterdão, coabitam 2 jogadores jovens e que poderão ser muito interessantes para o futebol português. Um deles é o ala/interior esquerdo Koki Saito, um japonês de apenas 21 anos, cujo pé preferencial é o direito e surpreende pela imprevisibilidade dos seus movimentos (por dentro e por fora), assim ao jeito do georgiano Kvaratskhelia, de quem Vos falarei na próxima semana. Mas, para já, hoje vou referir-me a Joshua Kitolano, um médio defensivo ("6") ou volante ou de transição ("8") norueguês de 22 anos. Com um valor de mercado de 4,5M€, Kitolano surpreende pela intensidade posta nos duelos, chegada à área adversária e progressão com bola (características incomuns para um jogador de baixo perfil físico, de apenas 1,70m), drible em espaços apertados e timing de passe, tendo no geral uma tomada de decisão superior à do, igualmente jovem, grego Sotiris, para dar um exemplo relacionado com o nosso futebol. Por estes valores, e dada a sua margem de progressão, é um achado no futebol internacional. Ainda a aguardar a primeira internacionalização sénior, Kitolano foi utilizado pela Noruega no primeiro jogo da fase final do Campeonato da Europa de sub-21 que está a decorrer na Geórgia e Roménia. De referir que, no total, Kitolano possui 56 internacionalizações pelas selecções jovens. norueguesas.    

24
Jun23

Os Viquingues


Pedro Azevedo

Sem grande tradição no futebol mundial até meados dos anos 50, os Viquingues deram um ar da sua graça através da selecção sueca no Mundial de 58. Finalistas, disputaram a final contra o Brasil de Pelé, que aí iniciava um longo reinado. O grande impulsionador deste feito escandinavo foi o trio atacante formado por Gunnar Gren, Gunnar Nordahl e Nils Liedholm, o célebre Gre-no-li, todos jogadores do AC Milan. Com o profissionalismo cada vez mais enraizado na Europa Central, o amadorismo doméstico dos nórdicos conduziu a um maior "gap" face aos países que dominavam a modalidade. levando a que muitos jogadores promissores migrassem para a Alemanha, Holanda e Bélgica à procura de melhor desenvolverem as suas competências. Este processo demorou a dar frutos a nível de selecções, mas, em meados dos anos 80, a Dinamarca surpreendeu o mundo com uma equipa de grande nível. Ancorados na experiência de dois jogadores formados no Ajax (Frank Arnesen e Soren Lerby) e de um centralão do Anderlecht (Morten Olsen), os dinamarqueses formaram um conjunto muito talentoso e com um futebol espectacular. Se o Europeu de 84 havia sido o canto do cisne de Alan Simonsen, a primeira grande exportação dinamarquesa - Bola de Ouro e referência do Borussia Moenchengladbach (e Barcelona) -, serviu também de baile de debutantes para Michael Laudrup e Jasper Olsen, ponta de lança e extremo de grandes recursos técnicos. Mas foi Preben Elkjaer Larsen o martelo que amassou os sucessivos adversários, misturando velocidade, técnica e força num ciclone que elevou o jogo dinamarquês para quase tudo destruir à sua volta. Elkjaer que era um portento físico, não obstante fumar dois maços de tabaco diariamente. Foi um tempo com pouca ou nenhuma televisão, razão pela qual os grandes jogadores só se davam a conhecer em mundiais e europeus. Só isso, e o facto de ainda não haver muitos empresários ou scouting nos clubes - havia também um limite de estrangeiros nos principais campeonatos -, explica que Elkjaer tenha passado grande parte da carreira na clandestinidade, no obscuro Lokeren (Bélgica). Descoberto em 84, logo migrou para Italia onde no seu primeiro ano cometeu o feito de vencer o Scudetto ao serviço do modesto Hellas Verona, proeza só comparável à de Maradona com o Nápoles. De seguida, a Suécia ameaçou ser a primeira selecção nórdica a vencer uma importante competição internacional. O Europeu de 92, disputado em sua casa, parecia ser o pretexto ideal para a consagração do "latino" Limpar ou do trio avançado fiormado por Kenneth Anderson, Tomas Brolin e Martin Dahlin. Mas seria a improvável Dinamarca - só participou no Euro em virtude da desclassificação da Jugoslávia, fragmentada e em guerra civil - a vencer o torneio, assegurando assim o primeiro título de selecções para a Escandinávia, 10 anos após o triunfo do IFK Gotemburgo, de Eriksson, na antiga Taça UEFA. Com os jogadores repescados de férias e após uma derrota logo na entrada, a Danish Dynamite, sempre muito apoiada nas bancadas, viria a espantar o mundo, derrotando na final a toda poderosa Alemanha, super-favorita e ancestral nêmesis dos dinamarqueses, por 2-0, com ambos os golos a serem marcados por Vilfort. Daí para cá, os escandinavos não voltaram a atingir o patamar de excelência: a Noruega chegou a ter uma selecção competente, alicerçada no Rosenborg, clube que teve surpreendentes prestações na Champions, e a Suécia prometeu muito com Zlatan Ibrahimovic mas nunca conseguiu reunir uma equipa à sua volta suficientemente boa (apesar de Henrik Larsson ou de Ljungberg), pelo que tem sido ainda a Dinamarca a mostrar o caminho, destacando-se a sua boa prestação no Euro 2020. Porém, é indiscutível que hoje em dia os nórdicos possuem valores individuais ao nível do melhor que existe no mundo, como são disso exemplo o ponta de lança Haaland, o ala Mehle ou o vagabundo Forsberg, jogadores de grande qualidade. Há, por isso, que contar com eles - os Viquingues estão de volta! (Seria como um conto de fadas, ou não fosse escandinavo o Hans Christian Andersen, famosíssimo contador de fábulas dinamarquês que viveu no século XIX e tem obra adaptada ainda nos dias de hoje.)

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21
Jun23

Há uma luz que nunca se apaga


Pedro Azevedo

Cristiano Ronaldo, ainda em actividade aos 38 anos, é uma lenda viva. Para ilustrá-lo, na noite em que a sua 200ª internacionalização por Portugal mereceu ratificação do Guinness e tudo, o avançado resolveu mais um jogo que de outro modo terminaria empatado. Na Islândia, em Reykjavik, cidade que dista apenas 480 Km de onde no verão é sempre dia (Grimsey), ele foi o sol da meia-noite. Coisa própria de astros, no caso o mais resplandescente e duradouro da história do futebol mundial. Ele é a nossa luz! E o nosso orgulho.

"There is a light that never goes out"

"Gosto de ti como quem mata o degredo, como quem finta o futuro"

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19
Jun23

Craque da semana(1)

Alejo Véliz


Pedro Azevedo

Gosto do que vi de Viktor Gyokeres, que estou em crer seria uma boa adição para o Sporting e a nossa Liga. Vou-me atravessar bastante - o que é a vida sem risco? -, mas Gyokeres tem, salvo as devidas proporções, algumas coisas que celebrizaram um jogador que adorei. Falo-Vos de Preben Elkjaer Larsen, o dinamarquês que com Laudrup popularizou a dupla atacante letal da "Danish Dynamite". Também Elkjaer andou por clubes modestos (Lokeren, Bélgica) até rumar ao Hellas Verona, clube onde logo no seu primeiro ano venceu o Scudetto, feito só comparável ao que Maradona realizou em Nápoles. Como diria o José Régio, Gyokeres é um "vendaval que se soltou um átomo a mais que se animou, uma onda que se (a)levantou". Se vier, logo veremos se se adapta ao nosso futebol...

 

Todavia, para inaugurar esta rúbrica, hoje trago-Vos aqui um outro tipo de ponta de lança. Falo-Vos de Alejo Véliz, avançado do Rosario Central, da Argentina. Um jogador muito possante (1,87m para 77 Kg), oportuno na área, com bom jogo de cabeça e frio na finalização. Tem apenas 19 anos, mas vem dando nas vistas no campeonato do país das pampas. Como cartão de visita tem o golo decisivo obtido pelos "Canalhas" contra o seu rival de sempre, os "Leprosos" (Newell's Old Boys), e um bis no Monumental (casa do River Plate). Recentemente, brilhou no Campeonato do Mundo de sub-20, onde marcou por 3 vezes em jogos a eliminar. Por ser forte fisicamente e jogar bem de cabeça, as suas características não estão longe das do seu compatriota Hernan Crespo, já retirado. Mas, a sua forma de transportar a bola e fisionomia lembram mais a antiga estrela do Deportivo Coruña, Diego Tristán. Com um valor de mercado (Transfermarket) de 4M€, jovem e com uma enorme margem de progressão, é um activo apetecível para um "grande" português. Ainda assim, a minha preferência seria Gyokeres. Além do mais, dá sempre jeito ter um joker neste contexto em que os jogos disputam-se cada vez mais sem fronteiras. 

18
Jun23

O regresso às origens


Pedro Azevedo

Ao princípio era tudo ao molho e fé em Deus. Depois, o futebol começou a ter alguma organização táctica, num sistema de 2-3-5. Mas, nos anos 30, Herbert Chapman desenvolveu o WM, o 3-2-5, trocando um médio por um defesa e reorganizando o ataque com dois interiores por detrás do ponta de lança e dois extremos bem abertos para municiar os cruzamentos. O sistema fez tanto furor no seu Arsenal que acabou por ser indiscutido por duas décadas. Seria um sacrilégio mudar aquilo que era considerada a perfeita forma de jogar, mas um dia um húngaro ousou desafiar preconceitos, o que (como dizia Einstein) é mais difícil do que desintegrar um átomo, e criou um sistema alternativo. O seu nome era Gusztáv Sebes e o teste de fogo às suas ideias não poderia ocorrer em melhor enquadramento que Wembley, a catedral do futebol mundial. Os ingleses partiram orgulhosos do seu sistema e confiantes da sua superioridade, mas os magiares não estiveram pelos ajustes e rapidamente puseram em prática o seu plano. Com um dos interiores (Hidegkuti) a descair para o meio campo e um dos médios a recuar para a defesa, a Hungria baralhou as marcações inglesas e foi avançando no marcador. (Mestre Cândido viria a adoptar algo semelhante nos 5 Violinos, com Travassos a fazer de Hidegkuti e a organizar o jogo a partir de detrás, apoiando o igualmente magnífico Canário, muitas vezes injustamente esquecido quando se recorda essa magistral equipa.) No final ganharam por 6-3, espantando o mundo naquele que mais tarde viria a ser denominado o "Jogo do Século". A Inglaterra não quis acreditar no que lhe acontecera e rapidamente se organizaria um tira-teimas. Em Budapeste os da casa esmagariam a equipa da velha Albion por 7-1, pondo definitivamente fim, com dinamite e fogo de artifício, à hegemonia inglesa no futebol mundial. Em sequência, Stanley Matthews, o grande jogador inglês, saíria de cena. Agora os grandes heróis eram Puskas e Kocsis, os pontas de lança magiares que após a invasão soviética viriam a migrar para Espanha, onde seriam muito influentes no percurso dos rivais Real Madrid e Barcelona, respectivamente. Esse sistema de 4-2-4 marcaria igualmente uma época, durando até meados dos anos 70. Por essa altura, na Holanda, brilhava o Ajax de Michels e, mais tarde, de Kovacs. Com PSV e Feijenoord a seguirem semelhantes princípios de jogo, não se estranhou que a Holanda marcasse os mundiais de futebol dessa década. É difícil definir o seu sistema de jogo -talvez um 4-2-1-3 - , na medida em que os seus jogadores mudavam de posição constantemente, naquilo que foi designado como um carrossel. Uma equipa revolucionária, com conceitos que foi beber à Hungria de 54, que viria a marcar as próximas gerações, especialmente a partir do momento em que Michels, primeiro, e Cruijff, depois, chegaram a Barcelona para logo revolucionarem o clube da cidade condal e o próprio futebol mundial. Inspirados por este tipo de futebol, clubes como o Borussia Moenchengladbach ou Anderlecht apareceram a dominar o panorama. Mas um vagabundo com o entendimento do jogo de Cruijff, simultaneamente rompedor e cerebral, conhecedor de todos os tempos do jogo, seria sempre difícil de replicar, pelo que com o tempo o sistema evoluiu para um 4-3-3, em que o segundo avançado passou a ser um "10", o "trequartista", o maestro organizador de todo o jogo. Com uma nova exigência mais física do jogo, o "10" foi-se perdendo, substituído por um "mezzapunta" que não era mais que um segundo avançado. Aos alas passou a ser pedido mais músculo, que fizessem um vai-vem constante. Surgia assim o 4-4-2. Os equilíbrios passaram a constar do menu de jogo, não tardando a adopção do 4-5-1 e até do 4-6-0 (com um falso ponta de lança a vagabundear pelo ataque). Não deixa de ser curioso que, à medida que os avançados no relvado iam sendo reduzidos, o número de adeptos nas bancadas ia sendo substituído por espectadores de sofá. Com Guardiola e o seu Tiki-taka ou Klopp e o "Gegenpressing"/transição ultra-rápida, o futebol foi resgatado das mãos dos especuladores (italianos e outros conservadores) e, por conseguinte, do abismo. Mas foi curiosamente com um italiano atípico, Gian Piero Gasperini, e a modesta Atalanta que o futebol inverteu a sua marcha fúnebre e recuperou o ímpeto atacante, aproveitando da melhor maneira o crescimento na dimensão física do jogo. Por isso, hoje proliferam equipas desenhadas em 3-5-2 ou 3-4-3, neste último sistema desdobrando-se muitas vezes no WM de Chapman, quase 1 século depois - é o futebol ao reencontro das suas próprias origens e assim também da razão de tudo: o espectador. 

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16
Jun23

A Alegria do Povo


Pedro Azevedo

Mané Garrincha tinha tudo para não ser jogador de futebol. Com o joelho da perna direita valgo, a inclinar para dentro, e o joelho da perna canhota varo, com um desvio para fora, Garrincha tinha ambas as pernas a entortar para a sua esquerda, deformação exacerbada por uma prematura poliemielite mal curada que lhe reduziria para sempre em 6 cm o comprimento da perna direita e por um problema congénito na coluna vertebral. Contudo, tais membros viriam a ser lendários pelos assombrosos bailados executados nos relvados -Jô Soares brincava, dizendo que ele parado já era um drible -, nesse transe desafiando simultaneamente a anatomia e a ortopedia. Mané fintava, como se através da finta driblasse uma vida de miséria. Por isso, bastas vezes voltava atrás, como se rebobinasse a cassete para assim melhor assegurar que se afastava desse passado que o inquietava. Se para a maioria dos jogadores atacantes o objectivo do jogo é o golo, com Garrincha o futebol, e por conseguinte o drible, era pura terapia ocupacional. Mestre na arte do engano, Mané foi enganando a sua própria vida até não poder mais. Afastado dos relvados, logo tudo à sua volta se desmoronou, entre o vício descontrolado do alcool e uma pobreza extrema derivada da falta de formação que o conduziu a investimentos ruinosos. Ninguém porém jamais esquecerá as tardes de glória ao serviço do Botafogo e da Canarinha. Com esta viria a ser campeão mundial em 58, repetindo o feito em 62. Nesta última Copa, Garrincha vir-se-ia a transcender: com Pelé cedo lesionado, seria ele a pegar na batuta e a levar o Brasil ao colo até à coroação do bi-campeonato, ganhando aí uma dimensão para lá do drible que o imortalizou. Justamente apodado como "Alegria do Povo" ou "Anjo das Pernas Tortas", Garrincha traz-nos à memória a nostalgia de um tempo que não se repetirá, em que o futebol não deixava de ser "association" mas o povo essencialmente pagava para se deleitar com os grandes solistas - o Romantismo morreu. 

garrincha1.jpg

13
Jun23

Driblar a desumanidade


Pedro Azevedo

A imagem que ilustra este blogue mostra-nos Mané Garrincha em todo o seu esplendor, nesse transe trazendo-nos o futebol no seu estado puro, dito de rua, uma miscelânea de ginga, revienga, engano e samba (os argentinos chamar-lhe-ão tango) que fazem a alegria do povo. Sim, porque o futebol é alegria e celebração da vida, e assim deve ser vivido até à eternidade. É bom não esquecê-lo, ainda que, à medida que o espectáculo foi sendo substituído pelo negócio, a alegria tenha progressivamente ido para parte incerta. Na nova indústria pouco espaço existe para a arte, o desequilíbrio individual. Se no credo católico a alma liberta-se do corpo após a morte, no futebol moderno não é preciso esperar que um jogador morra para verificar-se que a sua alma está dissociada do corpo, ainda que paradoxalmente se eleve cada vez menos aos céus. Esse futebol, sem alma, contagia também o espectador, hoje em dia transformado em tecnocrata com especialização em economia e finanças, metade treinador de bancada, metade director, integralmente resultadista - é preciso ganhar a qualquer preço, nem que seja na venda de jogadores. Não espanta assim que o amor ao jogo não seja mais o denominador comum que une as bancadas. Não, hoje o que mais une é o ódio, especialmente se houver um outro polo para contrapor. Cria-se assim desumanidade. É uma forma de totalitarismo, muito por culpa da omissão dos moderados. As redes sociais são disso exemplo claro, potenciadas por chicos-espertos que há muito perceberam que o radicalismo vende mais e por "bots" pretorianos dos clubes que emergiram de uma primeira geração de inteligência artificial. É contra isto que é preciso lutar, para que os valores e princípios voltem a ocupar o seu lugar de primazia. Porque, num certo sentido, o amor ao futebol será também o triunfo da democracia e da sã e urbana convivência entre indivíduos. 

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