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A Poesia do Drible

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

"Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além. Para atingir, faltou-me um golpe d'asa... Se ao menos eu permanecesse aquém..." - excerto de "Quasi", de Mário de Sá Carneiro

A Poesia do Drible

22
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Todos à Praça da Figueira


Pedro Azevedo

No dia seguinte ao do Benfica ter sido eliminado da Liga Europa pelo Marselha, o jornal A Bola, na sua edição on-line, fazia manchete com a notícia de que os encarnados haviam sido o clube português que mais pontos obtivera na Europa nos últimos 5 anos (não se pode deixar cair o Benfica, nem que para tal seja preciso recorrer ao jogo da malha ou ao chinquilho). Ou seja, quem ingenuamente pensou que o Benfica havia perdido, afinal veio a deparar-se com mais um retumbante êxito das águias (ou como um êxito pela porta pequena das competições europeias pode ser também um grande êxito em si mesmo). Pensei nisso na antecâmara do jogo contra o Vitória e de como um potencial triunfo nosso seria sempre infrutífero porque certamente o Marquês já estará reservado para a comemoração do quinquénio europeu benfiquista. [Acho que a isto se chama A Bola passar o lustro (meia-década) ao Benfica.]

 

Ainda que ofuscado pela gloriosa gesta europeia lampiónica, o Sporting recebia o Vitória, em Alvalade, a fim de consolidar a sua pretensão ao título (menor, quando comparado com o quinquénio europeu escarlate, mas ainda assim um título). Com o seguinte dilema prévio: se, por um lado, ganhar ao Vitória era fundamental para mantermos a cadência, por outro, uma vitória em cima de Vitória parecia uma contradição nos termos. Pensei maduramente nisso e no que Amorim diria no balneário à sua equipa e cheguei à conclusão de que para saírmos vitoriosos contra o Vitória teríamos de nos disfarçar de vitorianos. O Amorim pensou o mesmo e fomos a jogo equipados de branco. O Álvaro Pacheco é que não foi na conversa de assumir o jogo à Sporting e começou por pôr as barbas de molho, definindo uma estratégia que passava por cautela e caldos de galinha. A quente, como o caldo era deles, esses primeiros 20 minutos não foram canja para nós, mas depois, mais a frio, o Bragança teve uma boa jogada e a equipa acertou o ritmo. Até que novo desequilíbrio causado pelo Bragança na área deu a oportunidade ao Pote de visar a baliza: o Pedro peyroteou com categoria e adiantámo-nos no marcador. E sobre o intervalo, o Gyokeres dilatou a vantagem após uma triangulação que envolveu também Bragança e Pote e fez lembrar o Sócrates, o Falcão, o Careca e o Escrete dos anos 80. Em sequência, o Álvaro foi pensativo para o balneário. Quer dizer, a boina, de griffe Yves Saint-Laurent, já de si lhe dá um certo ar de parisiense, intelectual, criando a imagem de um ser introspectivo, alternativo, um artista do Quartier Latin quiçá com influências de Rimbaud e Baudelaire, mas agora era a pressão dos números (e não da baguete esmagada debaixo do braço) que o fazia reflectir. Serviu de pouco, porque logo aos 4 minutos do reatamento o Gyokeres bisou. O sueco não voltaria porém a marcar, algo que já não faz há precisamente 41 minutos ou 2460 segundos, mais até se considerarmos o tempo que mediou desde que acabou o jogo e a hora a que entrego esta crónica. Pelo que, à falta de um saudoso Albarran que lhe dê o devido acento, se espera pelo menos que os jornais de mais logo continuem a pegar no tema desta imperdoável abstinência goleadora. [Na retina porém ficou um inacreditável slalom (gigante) do sueco, digno de um Stenmark ou Girardelli, que infelizmente acabou em derrapagem e queda (tipo Tomba) na hora da conclusão. Brutal! E a mostrar que, se cá nevasse, o Gyokeres faria por cá ski,]

 

E assim estamos cada vez mais perto do título. Com o Marquês tomado por um Benfica a reboque de uma imprensa amiga que seca tudo à volta, o melhor será mesmo o Sporting ir comemorar para a Praça da Figueira, assim a modos de recuperação de uma parábola célebre de Jesus Cristo (Mateus 21:18-21). Recordando-nos de que ao mesmo tempo que secou uma figueira, Jesus alertou os seus discípulos de que a fé pode mover montes até ao mar. Como a fé de um Sportinguista, que não só move montanhas como será sempre recompensada em milagres. [Só mesmo um milagre explica termos sobrevivido a ASD, Pinheiro, Godinho, Veríssimo e, pior(!), ao impacto negativo no PIB nacional produzido por a "instituição" não vencer.]

 

Tenor "Tudo ao molho...": Pote. Bragança, em versão Telé Sant'Amorim, seria a minha segunda opção e os centrais estiveram muito bem. Gyokeres voltou aos golos e Trincão produziu uma assistência pelo segundo jogo consecutivo.

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17
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Romances de cordel escarlate


Pedro Azevedo

Caro Leitor, o drama, a tragédia, o horror é que o Gyokeres está em crise. Eu explico: o homem já não tem uma acção decisiva para golo desde as 20:35 de ontem, e essa longa espera ameaça ser capa nos jornais desportivos de hoje. Mas, para nós, adeptos, ontem foi mais um dia no escritório para o sueco: recebeu a bola de Nuno Santos, deixou-a rolar para tirar logo um adversário do caminho, atraiu outro para a bola antes de tocar para Trincão, abriu uma auto-estrada para este dar a Pote ao levar consigo um terceiro defesa para o espaço. O que queriam mais? Que o homem comprasse a totalidade da nossa dívida pública? Pelo que nas estatísticas figurará que marcou Pote e assistiu Trincão, mas o golo foi 60% do Gyokeres. 

 

Uma capa de desportivo alternativa de hoje (bastante mais possível) será o Gyokeres não peyrotear há 5 jogos. Vejo isso com muito bons olhos. Primeiro, porque, desses 5 jogos, o Sporting venceu 4+1, sendo o +1 um empate que soube a vitória (qualificação para a final da Taça). Em segundo, na medida em que arrefecerá um suposto interesse do Liverpool: depois da Sky Alemanha ter noticiado que os Reds haviam entrevistado Amorim, os media portugueses já estavam a esfregar as mãos de contentamento para informar que a Sky Azerbaijão acabara de anunciar a presença de Gyokeres (e Varandas, por inerência) em Anfield para um colóquio sobre venda(vai)s. Agora que se consolem com as notícias da Sky Nazaré sobre o famoso canhão Esgaio, se este tiver algum interesse (eu creio que não) em nos trocar para ir "vender o seu peixinho" para o cidade dos Beatles. Enfim, nesta mixórdia, razão tinham os Salada de Frutas quando cantaram: "Sky nevasse, fazia-se Sky ski".

Esta coisa das fontes é curiosa. Como o facto da Sky inglesa, tão perto do Liverpool, recorrer à sua filial alemã para dar a caixa de Amorim ter sido alegadamente entrevistado. Será que o treinador fez escala em Frankfurt para comprar umas salsichas? Ou, em alternativa, andarão os media a encher chouriços? Em todo o caso, não me pareceu nobre. Ou Nobre, tendo em atenção os artigos em questão. Pelo que nesta coisa de fontes eu só confio na Luminosa e na Pereira de Melo. E se for só para "dar troco" à malta, então escolho a de Trevi. 

Gosto tanto de ver destruir preconceitos quanto gosto de observar o Bragança jogar. Se ter pelo menos um bom pé e capacidade física são condições sine-qua-non para se ser um jogador profissional de futebol, a partir daí joga-se essencialmente com o cérebro, sendo esse o topo da pirâmide de satisfação de Maslow de como um adepto vê um jogador de futebol. Pelo que o nível que o Bragança vem exibindo não surpreende, como nunca surpreende ver a inteligência contagiar positivamente tudo o que a rodeia. O que surpreende, sim, é ver o Bragança contrariar a sentença de Einstein de que é mais fácil desintegrar um átomo do que destruir um preconceito, mas o Braganca até podia ser físico nuclear, se quisesse.

 

Menos artístico na acção, mas em modo omnipresente, apresentou-se o Hjulmand. Sobre ele, Hans Christian Andersen escreveria um conto de fadas, se ainda fosse vivo. O homem é um colosso, um digno sucessor de Holger Danske, não deixando porém de mostrar uma sensibilidade no campo digna do seu compatriota Kierkegaard quando este pronunciou: "A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para a frente". Assim é ele, no seu vai-vem, que dá organização e vida ao jogo do Sporting. E depois há ainda que falar de Quaresma: com Diomande em modo complicativo, com passes para o hospital e falta de velocidade para segurar o flanco direito, no primeiro tempo o Chiquinho cresceu para Chicão. Até que entrou o Quaresma e o Chicão ficou assim pequenino que nem um Chiquinho. Para caber na algibeira do calção do jovem leonino. E ver-se obrigado a mudar de flanco. Uma última palavra para o Trincão, que trabalhou muito ofensiva e defensivamente (o que ele cresceu nesse aspecto) e apenas teve o senão de ter permanecido 15 minutos a mais no terreno de jogo, esgotado, provavelmente devido à desconfiança de Amorim no rendimento defensivo de Edwards. 

 

Para somar à seca de golos de Gyokeres, o Sporting não vence desde sensivelmente as 22:00 de ontem. Pelo que até ao apito do árbitro para o início da recepção ao Vitória passarão exactamente 118 horas e 30 minutos desde a última vez que o Sporting ganhou. Com tanto tempo de hiato, não se poderá chamar a isto uma crise? E o Benfica, ganhará moral, agora que o Sporting além dos golos do Gyokeres perdeu também o joker de ter um jogo a mais? Enfim, boas questões para serem desenvolvidas na imprensa da manhã (ou manha).

 

Tenor "Tudo ao molho...": Daniel Bragança

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16
Abr24

O Leão em Famalicão


Pedro Azevedo

A vida surpreende-nos quando zomba das cassandras, enquanto preenche palavras nos espaços que imaginámos como de silêncio e nos oferece reencontros com quem pensámos que não voltaríamos a ver. Assim também aconteceu em 2020/21, época em que o Sporting não era suposto ter uma palavra a dizer - ninguém dava nada por nós - e acabou por se reencontrar com o título máximo do nosso futebol, 19 anos depois do último triunfo (o primeiro campeonato ganho em ano ímpar desde 1953). "E se corre bem?" - interrogou-se Ruben Amorim quando foi apresentado em Alvalade. Este optimismo "out of the box" do nosso treinador acabou por ser providencial na nossa recuperação enquanto clube e está na origem de uma nova "remontada" leonina ocorrida nesta temporada, depois de uma época anterior nada auspiciosa. Levantado do chão parece ser o lema do Sporting de Amorim, que surge sempre mais forte quando as probabilidades estão contra si. E se no último triunfo foi a criteriosa aposta na prata da casa (Formação e jogadores que se destacaram noutros clubes no campeonato nacional) que originou o êxito, esta temporada ficará associada ao rigor das escolhas nórdicas, que trouxeram potência e poucos estados de alma, rendimento constante no alto desempenho e profissionalismo de excelência. Mas a história, bonita, desta temporada só será homericamente narrada se terminar bem. Se compararmos o campeonato a uma maratona um pouco mais curta (34 km/jogos), tudo se irá definir na última légua (5 km/jogos). E aí será diferente chegar com 7 pontos de avanço do que com 5 ou 4. Pelo que o jogo de hoje, em Famalicão, assume uma transcendente importância. Vai ser preciso ter fome, muita fome, porque com fome o leão será mais feroz. E feroz, o Rei da Selva (o que no contexto do futebol português será mais literal do que figurado). Rei, contudo, valoroso, por nunca se enlamear no pântano. 

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13
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Em terra de galos, o leão foi quem cantou cedo


Pedro Azevedo

Ontem, o Sporting jogou em Barcelos. A equipa está com uma óptima dinâmica, legiões de adeptos seguem-na para todo o lado e cheira muito a título. Mas um Sportinguista desconfia sempre e nunca está totalmente confiante antes de um jogo. Mesmo com 4-0 ao intervalo põe-se logo a pensar num cartão amarelo que resulte em suspensão ou numa expulsão. É como se os nossos jogos se escrevessem no céu e o guionista escolhido fosse especialmente trocista, começando os filmes em apoteose para que terminem em desgraça, só para que o espectador possa por momentos acalentar a expectativa de sucesso. Tem sido quase sempre assim nas últimas 4 décadas. Não foi porém  o caso de ontem à noite, ainda que muitos anos a virar frangos nos ensinem que jogos com o Gil possam sempre dar galo. Mas não, não desta vez, o Sporting foi muito superior, peyroteou cedo e em profusão foi acumulando mais golos, pelo que pôde descansar com bola no segundo tempo a fim de melhor preparar a ida a um Famalicão que se espera ter sido devidamente estafado pelo Porto esta tarde. Não sei por isso se esta equipa do Sporting improvisa com tanta categoria que dispensa guionista ou se este aproveitou o bom tempo e foi a banhos celestes, o que é certo é que pude assistir ao jogo com uma sensação que já não tinha desde os tempos em que o Paulo Bento esgotou a palavra: tranquilidade.  

Duas óptimas notícias da noite foram os reaparecimentos de Morita e de Trincão ao mais alto nível. Houve também a confirmação do Daniel Bragança (o lance em que ele recupera a bola e depois progride com ela e assiste magnificamente Trincão deveria ser mostrado em looping aos discípulos de São Tomé que insistem no preconceito e não querem perceber o óbvio). E o Quaresma regressou ao onze inicial. Sobre o Quaresma é preciso dizer que fez 15 jogos como titular a partir do momento em que jogou com o Porto. Desses 15 jogos, o Sporting venceu 12, empatou 2 e perdeu 1 (Braga, Taça da Liga), médias ligeiramente superiores às que a equipa tem esta época. E o Sporting, com ele desde o início, conseguiu 8 "clean sheets", só sofreu 8 golos no total e marcou 47, médias muito melhores que as da temporada. Ontem fez mais um jogo competente. Entretanto, o Gyokeres trocou os golos pelo bola na barra (ou no poste), o que é muito mais difícil, exige maior pontaria e deveria valer mais pontos. O homem pareceu abatido, ele que é quem geralmente abate os adversários, e o caso não é para menos e exige os maiores cuidados do nosso Departamento Médico: é que o excesso de ferro provoca hemocromatose e isso pode danificar órgãos importantes. Por falar em órgãos, eles hoje tocaram a rebate nas capelinhas do Dragão, a anunciar desastre. Ver o Porto acossado por Braga e Vitória não é bom para nós, pois obriga-o a dar tudo para ganhar ao Sporting. E nós já temos problemas de sobra: uma pessoa nem consegue desfrutar da expectativa do título com tanta notícia de vendas. A perspectiva é de ver o Amorim, o Gyokeres e o Paulinho (o técnico de equipamentos) a cantarem o "You'll never walk alone" e nós a caminharmos sozinhos. Pelo menos a avaliar pelo que os media dizem. Teremos ainda clube na segunda-feira? E, mais importante, na terça? Estou expectante e com os nervos em franja. Será que teremos 11 para Famalicão ou perderemos por falta de comparência? Irão todos para a cidade dos Beatles? Let it be? With a little help from my friends? Enfim, um desassossego...

 

Até terça! Se houver jogo. E crónica (para o caso de o cronista também ir a caminho de Liverpool)...

 

Tenor "Tudo ao molho...": Trincão

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11
Abr24

Mou


Pedro Azevedo

Depois de vários anos como adjunto de Robson e Van Gaal, Mourinho começou a dar nas vistas como treinador do Benfica. Na retina ficou uma vitória por 3-0 sobre o Sporting, campeão nacional em título. Com Vilarinho refém de entendimentos eleitorais, ao triunfo seguiu-se... o despedimento, com o técnico a ver-se substituído por Toni. Mas a aura estava lá e foi depois exuberantemente confirmada em Leiria, equipa que intrometeu entre os 3 grandes. Esse trabalho valeu-lhe um convite para treinar o Porto e com isso a abertura de um reinado no mundo do futebol que durou uma década. À dupla vitória europeia no Porto seguiu-se a dupla vitória na Premiership pelo Chelsea, nova Champions pelo Inter e campeonato e Taça do Rei pelo Real Madrid. Nesse período, Mourinho ostentava o seu reconhecido toque de Midas, destruindo preconceitos e atingindo metas à partida impossíveis: no Porto venceu Liga Europa e Champions contra os tubarões europeus dos Big 5; no Chelsea ganhou mais campeonatos do que aqueles que o clube havia conquistado na sua história, derrubando a hegemonia que se afigurava como crónica do Arsenal no processo; no Inter dominou a frente interna e externa; no Real conquistou a Taça 18 anos depois e ganhou o campeonato ao Barcelona do tiki-taka com um recorde de pontos e golos. Todavia, nos últimos anos dessa gloriosa década o desgaste foi evidente. Porque Mou encontrou em Pep a sua nêmesis, tendo que ser muito adaptativo para vencer. Essa adaptação constante ao adversário descaracterizou a sua ideia de jogo e teve custos na década seguinte. Após sair do Real, Mourinho ainda conseguiu ser novamente campeão no Chelsea mas depois a sua estrelinha empalideceu, o toque de Midas foi-se, de Special One passou a Common One (ganhando e sendo derrotado como os outros) e o treinador pareceu perdido num labirinto de escolhas que nada contribuíram para o seu sucesso. Prestar-se a expor-se à enxurrada causada pela saída de Alex Ferguson do Manchester United foi uma decisão de muito risco - ainda que a seu favor joguem 3 competições ganhas, uma a nível europeu - , a passagem pelos Spurs pode mesmo ser considerada inconsciente e a ida para Roma afastou-o pelo menos provisoriamente do top do futebol europeu (ainda assim voltou a ganhar na Europa, com a primeira final europeia perdida também no seu pecúlio). Não foi só a aura vencedora que Mourinho perdeu, a sua estratégia de contratação de jogadores também deixou de ser virtuosa: onde antes procurava jogadores ambiciosos em ascensão, como Maniche, Derlei ou Drogba, Cech, Robben ou Snejder, Mou agora escolhe consagrados aburguesados como Dybala ou Lukaku. Não é a mesma coisa, e Mourinho tem pago por isso. Adicionalmente, o seu modelo de jogo perdeu todo o encanto, tornou-se burocrático e entediante para o espectador. Do mesmo modo, os "mind games" que o destacaram também já não provocam o efeito de antigamente, parecendo mais uma bóia de salvação a que o treinador se agarra para mediaticamente permanecer na ribalta. Assim, o Mourinho de hoje é uma versão pobre do original. Todavia, o génio está lá, pelo que redescobrir a fórmula vencedora e reinventar-se é o desafio que tem à sua frente. Entre evoluir ou extinguir-se, um "back to basics" será providencial, podendo a liga portuguesa servir-lhe de âncora sobre a qual novamente fundeará os seus sonhos de grandeza. Com uma equipa técnica que lhe volte a dar aquilo que Rui Faria e Silvino lhe ofereciam. Aguardemos pois, que eu acredito que o homem tem mais vidas do que aquelas que algumas cassandras hoje em dia lhe auguram. 

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11
Abr24

Ranking GAP Sporting


Pedro Azevedo

Nesta temporada de 2023/2024, o Sporting disputou até agora 46 jogos - 27 para o Campeonato Nacional, 10 para a Liga Europa, 6 para a Taça de Portugal e 3 para a Taça da Liga -, obtendo 34 vitórias (73,9%), 7 empates (15,2%) e 5 derrotas (10,9%), com 123 golos marcados (média de 2,67 golos/jogo) e 46 golos sofridos (1,00 golos/jogo).

 

A nível individual, eis os resultados (estatísticas de golo):

 

1) Ranking GAP (medalheiro): Gyokeres (36,15,9), Paulinho (18,4,3), Pote (16,13,9);

2) MVP: Gyokeres (147 pontos), Pote (83), Paulinho (65); 

3) Influência: Gyokeres (60 contribuições), Pote (38), Nuno Santos (27);

4) Goleador: Gyokeres (36 golos), Paulinho (18), Pote (16);

5) Assistências: Gyokeres (15), Pote (13), Nuno Santos (12).

 

Conclusões:

  • Gyokeres lidera todas as classificações de estatísticas ofensivas: GAP, MVP, Influência, Goleador, Assistências;
  • Intervalos (minutos/golos): 0-15 (17), 16-30 (17), 31-45 (24), 46-60 (26), 61-75 (16), 76-90 (23); 
  • Influência de Gyokeres: 48,8% dos golos totais do Sporting (de fora em 4 jogos)

 

Ranking GAP (Golos, Assistências, Participação decisiva em golo):

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09
Abr24

Neemias Queta com contrato standard


Pedro Azevedo

Neemias Queta assinou ontem um contrato standard com os Celtics que substitui o anterior acordo "two-way" e lhe permitirá jogar os play-offs da NBA pela equipa de Boston. Tendo estado presente em 47 jogos dos Boston Celtics (26 na quadra) como poste utilizado na rotação dos titulares Porzingis e Horford (em conjunto com Kornet e Tillman), Neemias vê assim premiadas as suas boas exibições não só na equipa principal mas também nos Maine Celtics, equipa da Liga de Desenvolvimento que se acaba de apurar (com Neemias preponderante) para a final da G League.

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08
Abr24

Peyrotear


Pedro Azevedo

Se a minha relação com o Sporting iniciou-se numa onda média da rádio até evoluir para um tsunami aquando da primeira visita ao José Alvalade, a do meu pai comecou por ser doce, de cromos embrulhados em rebuçados que mais tarde se colavam numa caderneta que podia valer uma bola de futebol. Esse portefólio ainda chegou até mim, ao ponto de me recordar bem do cromo do Peyroteo. Na altura ainda o desconhecia, mas o Fernando Peyroteo foi, e é até hoje, o ponta de lança em todo o mundo com a melhor média de golos. Uma média de 1,62 golos por jogo é o equivalente nos nossos dias, em que há à volta de 50 jogos por temporada, a 81 golos por época. Imaginam isto? Nem Messi ou Ronaldo o conseguiram. Por isso, Peyroteo terminou (precocemente) a sua carreira com 544 golos em 334 jogos oficiais, uns números astronómicos. Avançado potente, aliando velocidade e força, remate forte e colocado com qualquer um dos pés e extraordinárias elevação e jogo de cabeça, Peyroteo marcou uma era a que talvez só tenha faltado um Camões ou um Homero para que fosse narrada em forma de epopeia. Recorramos assim a Tavares da Silva, que apodou a linha avançada do Sporting de "Os 5 Violinos", imortalizando a figura de Peyroteo e também de Jesus Correia, Vasques, Travassos e Albano, seus "compagnons de route". Faltou talvez acrescentar que numa orquestra há sempre um primeiro-violino, um spalla ou concertino, e esse stradivarius dava pelo nome de Peyroteo, um sujeito que merecia um último predicado: o verbo Peyrotear, neologismo para um sinónimo de marcar golo. Seria um tributo de todos os Sportinguistas ao jogador e ao próprio clube. Eu vou começar a usá-lo.

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07
Abr24

Tudo ao molho e fé em Gyokeres

Geny ao volante do Chapa do título


Pedro Azevedo

O William Blake, que foi um poeta e filósofo importante do Século XVIII, escreveu um dia que há o conhecido, o desconhecido e no meio estão as portas da percepção. Com esta afirmação, o escocês pretendeu estabelecer uma fronteira entre a realidade e a sua percepção. Sendo certo que muito do que é conhecido é real, nem tudo o que é desconhecido só por isso deixa de ser real. Pelo que por vezes aquilo que algumas pessoas dão como real é apenas uma percepção que têm da realidade, não tendo necessáriamente de ser a realidade. Aliás, com a perda de independência de alguns media, os opinion makers enviezados e o spin da comunicação assente em agências, talvez nunca como hoje a realidade tenha estado tão longe da percepção que as pessoas fazem dela. 

 

Vem o arrazoado acima a propósito do Sporting-Benfica da noite passada. Na antecâmara do jogo, os analistas discutiam quem poderiam ser as figuras do derby. Do lado do Sporting falava-se de Pote, Gyokeres, Morita e Hjulmand, do Benfica emergiam Di Maria, Rafa, Aursnes e João Neves. Uma infinitésima parte eventualmente terá mencionado Daniel Bragança, ninguém (a não ser talvez em Moçambique) referiu Geny Catamo. No entanto, os dois foram decisivos para a vitória do Sporting. E no caso do Geny, mesmo em Moçambique, quem apostaria 1 cêntimo na probabilidade de este resolver o jogo com um remate de pé direito? Ninguém, porque a percepção das pessoas era de que ele só teria pé esquerdo e o direito só serviria para subir num Chapa. A realidade porém é que o Geny marcou com os dois pés. E deu o triunfo aos leões. Sendo que o golo do Benfica foi obtido por Bah, que até aí só tinha marcado um em toda a época, outro jogador improvável. Com o Bragança há mesmo uma dissonância entre a percepção e a realidade que vai muito além do mero cálculo probabilístico: o Dani é visto como um jogador macio, o que é uma reminiscência de um passado que não dá espaço para contemplar a natural evolução de qualquer ser humano. (Quando um actor como Ronald Reagan foi eleito como presidente dos EUA, as pessoas dividiram-se entre as que percepcionaram que a sua carreira anterior o havia ajudado nesse faz de conta essencial à política e os que acharam ainda mais extraordinário um actor canastrão se ter feito eleger para o cargo mais importante do mundo.)

 

A percepção dominante sobre Roger Schmidt também não deixa de ser surpreendente. Na época passada, durante muito tempo, o Benfica passou por cima dos seus adversários. Liderou a Liga desde o início até ao fim e chegou aos quartos da Champions. Além disso, a equipa sempre jogou um futebol vistoso. Mas o fim de temporada foi menos exuberante que o seu início e essa foi a imagem que permaneceu na cabeça das pessoas. Pelo que o treinador entrou pressionado nesta época e assim continua, entre acusações de mexer pouco na equipa e uma outra curiosamente conflitante com a primeira: a de que troca muito de ponta de lança. A verdade é que se mexeu pouco na equipa tal deveu-se a ter colocado quase sempre os melhores em campo. E se trocou muito de ponta de lança, está à vista de todos que nenhum dos pontas de lança dos encarnados é suficientemente bom. Sabendo-se que o treinador benfiquista não é totalmente responsável pelas aquisições, se calhar a percepção que os adeptos têm sobre o treinador deveria transferir-se para o presidente, mas na realidade é Schmidt quem paga as favas (que são verdes). 

Como é fácil criar uma percepção, logo os jornalistas acenaram com o facto - o drama, a tragédia, o horror - de o Gyokeres não marcar há 3 jogos. Ainda que a realidade nos mostre que este continua vivíssimo da silva, explorando o espaço e simultaneamente ligando o jogo como pivô como antes nenhum ponta de lança do Sporting, e que só por manifesto azar e sortilégio dos ferros não bisou no conjunto dos derbies. Pelo que temo que a realidade se venha rapidamente a impôr à força a esses jornalistas e o sueco continue a ser instrumental na nossa gesta com destino ao título. Busca que hoje foi conduzida por Geny, o geny(o) da Lâmpada (para contrapor ao génio do Pote) ao volante de um Chapa moçambicano, autocarro onde todos andam de mãos dadas para não saltarem borda fora. Como é o caso dos jogadores do Sporting no que diz respeito ao título. 

Tenor "Tudo ao molho...": Geny Catamo ("O Nambauane"), secundado por Daniel Bragança e o grande capitão Coates. No plano negativo, Morita apresentou-se fora da forma, sem arranque e aquele controlo das situações que o caracteriza, e Inácio esteve bastante mal, mostrando imensas dificuldades em parar um jogador alto, louro e percepcionando como tosco (Tengstedt) que ontem lhe deu água pela barba ao se posicionar sobre o lado esquerdo da defesa do Sporting. Matheus Reis uma vez mais foi induzido a marcar o adversário errado e deixou novamente Bah sozinho.

 

P.S. Os meus parabéns aos nossos Leitores Sol Carvalho e José Pimentel Teixeira (emérito bloguista e autor do recente "Torna-Viagem", livro que não devem deixar de comprar, à semelhança de "Quatro Desafios de Escrita!", do igualmente emérito bloguista e nosso Leitor José de Xã), que neste momento certamente sentir-se-ão duplamente satisfeitos pela vitória do Sporting e contribuição decisiva de um jovem moçambicano. Haverá festa rija em Moçambique e esse é um efeito que só o futebol proporciona e deveria ser aproveitado por clube e país.

 

P.S.2. A percepção da realidade que o Artur Soares Dias teve do soco do Di Maria no Pote foi menos violenta do que a percepção com que ficou de os Super Dragões alegadamente lhe poderem vandalizar a pastelaria depois de uma certa visita à Maia. Porém, na realidade, aparentemente só a primeira se verificou, o que demonstra que a percepção muitas vezes não corresponde à realidade (ainda que haja VARs que nem perante a realidade cumpram o protocolo, perguntando-se então qual a sua utilidade e se essa passa pela criação de uma realidade alternativa).

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